Marcelo Nova ataca com caixa de CDs

Com a ironia ácida que lhe é peculiar, o roqueiro Marcelo Nova, 49 anos, recebeu a Agência Estado em sua casa para falar sobre o lançamento da caixa Tijolo na Vidraça (Som Livre), que chega esta semana com três CDs que repassam toda a sua carreira. Ex-líder do Camisa de Vênus e Envegadura Moral e ex-parceiro de Raul Seixas, Nova aproveitou para comentar o atual panorama musical e passar fogo nos desafetos. "Sou um velho pistoleiro, bicho e, assim como Gustave Flaubert, acho que um homem também se mede pela quantidade de inimigos que possui". Agência Estado - Como surgiu a idéia da caixa ´Tijolo na Vidraça´? Marcelo Nova - Coisa de um ano atrás Hélio Costa Manso, diretor-artístico da Som Livre, me ligou. Ele tinha passado dez anos morando no exterior e disse: ´Marcelo, eu não sei se isso é bom ou ruim, mas eu sai daqui e você era o cara do rock´n´roll brasileiro. Eu voltei e você continua sendo. Vamos contar sua história?´. Eu achei significativo um diretor-artístico de gravadora me convidar pra contar minha história. É só velharia ou há novidades? Apesar de presumir retrospectiva de 20 anos de carreira, ela contém, das 49 canções incluídas, 20 inéditas. Ela vasculha o passado e apresenta o que tá rolando no presente. Entraram coisas da minha adolescência como The Doors (Love Me Two Times), Led Zeppelin (When the Leave Breaks), Check Up, do Raul. São gravações com banda, duo, só voz e violão. Do Camisa tem hits como Eu Não Matei Joana D´Arc ou Simca Chambord, outras que nunca saíram em CD e até a versão de My Way (celebrizada na voz de Frank Sinatra), inédita. Do Dylan, há duas versões: It´s Not Dark Yet (Ainda Não Está Escuro) e One More Cup of Coffee. Já teve problemas com pirataria? Não me incomodo que me pirateiem, sou um entusiasta da pirataria, não daquela chula, com encarte vagabundo, do disco oficial, mas essa do show, que o cara grava e vende pra quem ele quiser. Eu tenho grandes registros de grandes artistas aos quais eu só tive acesso graças à pirataria. E o que pensa dos lançamentos independentes, venda em banca etc? Da maior importância. Demorou pra se chegar a isso, que é uma coisa vinda do punk rock, né? Do Faça Você Mesmo. O Camisa gravou versões para trabalhos de compositores da MPB como Adelino Moreira (Negue e Enigma), Jards Macalé e Capinan (Gotham City e Farinha do Desprezo), Walter Franco (Canalha). São suas referências na MPB? Sim... o Camisa não gravou Macalé por acaso. O Walter Franco tem uma propriedade... ele começa a música quase que sussurando e, no final, ela explode! Eles deveriam estar todos os domingos no Gugu e no Faustão mostrando para o povo como é que se faz arte! Tem acompanha o rock nacional? Há muitos anos eu parei de acompanhar, não tenho mais saco. Acredito que devam existir bandas nas garagens com idéias boas. Mas tenho achado a molecada muito subserviente. Molecada, no sentido daqueles que chegam aos meios de comunicação. Recentemente, em entrevista, o vocalista do Skank, Samuel Rosa, comentou que ao fim da vida Raul Seixas havia se metido com más companhias e citou seu nome. Você é má companhia? (em 94, Nova disse que havia voltado a tocar com o Camisa porque ouvira dizer que a melhor banda do rock nacional era o Skank) Desde garoto eu ouço isso! (risos) É um papo infantil. Cara, eu sou o velho pistoleiro. Hoje, eu vou pro bar só pra tomar um leitinho e ver as meninas dançando cancã, mas aí aparece a molecada querendo provar que saca mais depressa. Quando ele soube do que eu disse, na nossa volta, tentou me acertar, falou: ´Quem é esse Marcelo Nova, o que morreu amarrado a Raul Seixas?´. Bom, morrer não é o problema. Depois de morto não importa se você é cremado, largado no fundo do mar ou amarrado a alguém. O problema é viver chupando o Paralamas do Sucesso! (risos)Elton Frans, ex-empresário de Raul, também havia te criticado em um livro... A isso eu nem refiro. Esse tipo de gente é como abutre, fica em cima do cadáver. Raul e eu nos unimos porque tínhamos aquela coisa do cara solitário, nunca participamos de panelinhas. O que eu tinha pra fazer com o Raul fiz com ele do meu lado. Hoje, têm essa visão hipócrita de que ele era uma vítima das circunstâncias. Era teimoso como uma mula! Não fazia nada que não quisesse. Você é conhecido por ser um frasista. Você cultiva isso, pensa em frases e as guarda paro momento certo? Rapaz, às vezes.... É como uma boa piada, que a gente gosta e quer contar umas duas ou três vezes. Sou bem-humorado. Apesar de ser um cara fechado, gosto de me trancar e ficar com a minha obra. Quem é Marcelo Nova? Eu não sou um grande cantor, não sou um grande guitarrista. Eu sou um cara que escreve e que interpreta o que escreve. Apesar da aura anarquista, sua filha Penélope (que comanda o programa ´Riff´, da MTV) disse que você tem algo de conservador e machista. Ela está certa, sou um anarquista conservador, um ser paradoxal. Adoro jantar em louça do século 18, mas no meio da coisa posso soltar um pum (risos). Você trabalhou com Raul, gravou e foi produzido por Eric Burdon (cantor inglês fundador do The Animals) e até emprestou sua guitarra para Chuck Berry (em seu show no País, em 93). Você se considera privilegiado? Bicho, a vida me deu muito mais do que eu poderia imaginar nos meus sonhos mais selvagens. Eu ouvia Don´t Let Me Be Misunderstood quando me apaixonei pela primeira vez em 65, assisti a um show do Raulzito and the Panthers (primeiro grupo de Raul) na mesma época. Quando iria imaginar que anos depois estaria trabalhando com eles? O Eric vai gravar agora seu primeiro CD de inéditas em dez anos e quatro das letras do álbum são minhas. Essas, bicho, são as medalhas que eu ganhei. Tijolo na Vidraça (Som Livre, cerca de R$ 45 nas lojas ou pelo site www.marcelonova.com.br, fone (11) 5541-00301).

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