Marc Minkowski, que rege orquestra em SP, fala ao Estado

O maestro parisiense Marc Minkowski,fundador do grupo Les Musiciens du Louvre, rege sua orquestra,nesta terça e quarta, no Teatro de Cultura Artística,apresentando o mesmo repertório de sua mais recente gravação, ouseja, as últimas sinfonias de Mozart (nº 40 e 41,respectivamente K. 550 e K. 551). Mozart é um caso à parte nacarreira de Minkowski e seus Musiciens du Louvre, que, desde1996, adotaram Grenoble como sede oficial. Foi nesse mesmo anoque o maestro, aos 34 anos, conquistou o público parisiense comuma ousada versão da ópera "Idomeneo", do compositor austríaco. Em 2005, além das sinfonias mozartianas, Minkowskiregistrou uma peça inaudita, Rameau: Uma Sinfonia Imaginária(Archiv), excertos de movimentos de sua obras orquestrais elíricas reunidos numa "sinfonia" montada pelo maestro francês.Sobre essas gravações e seu concerto paulistano, ele concedeu,por telefone, de Paris, uma entrevista a O Estado de S. Paulo.A seguir, trechos dessa conversa. Pergunta - O senhor provavelmente deve ter sofrido aincompreensão de seus pares quando formou há 24 anos seu grupoLes Musiciens du Louvre para interpretar obras do períodobarroco com instrumentos de época. Até hoje prevalece umatendência de classificá-lo dentro de uma escola, mas parece queo maestro resiste a esse aprisionamento.... Minkowski - Aliás, gostaria de deixar claro ao públicobrasileiro que, apesar de certas tentativas de enquadramento damídia (ele foi chamado de Furtwängler barroco pela revista"Diapason"), não sou acadêmico e jamais pretendi ficar restritoao repertório barroco ou clássico. De qualquer forma, Mozart ocupa um lugarúnico em sua trajetória. A leitura de suas cartas deve,naturalmente, ter provocado um impacto em sua interpretação docompositor. Sua briga com o refinamento das interpretaçõesmozartianas vem dessa leitura? Certamente. A personalidade de Mozart nãopode ser desconsiderada quando se tem uma partitura dele nasmãos. Não há nada nessas cartas que permita esse tipo de leiturasuperficial ou o enfoque leve e formalista de alguns músicos.Estou a serviço da emoção e Mozart é uma prova de que a músicanão vem só do cérebro. Isso explica a abordagem lírica de suasúltimas sinfonias, mas também seus tempos contrastados. Sua gravação da Sinfonia Júpiter foiclassificada de "revolucionária" por um crítico maisentusiasmado. O senhor diria que ela é uma resposta aosregistros clássicos dessa mesma obra por, digamos, maestros comoToscanini? Não sei. Sei apenas que a minha é uma visãodiferente. Já toquei essa sinfonia como músico e estou certo deque é preciso sempre voltar ao passado para antever o futuro. Dequalquer modo, é preciso ter espontaneidade e uma certa vocaçãode improvisador para tocar Mozart. É possível ser moderno mesmotocando em instrumentos de época. Basta estar aberto a novasexperiências. Isso fica claro quando alguém vê seu nomeassociado a um grupo como o La Fura dels Baus numa montagem deA Flauta Mágica ou Mitridate, re di Ponto na encenação deGünter Kramer em Salzburgo, classificada pelo Libération comorock barroco... Não dou a mínima para essas críticas. O queconta é o teatro e sua relação com a música. Peter Sellarstambém foi um grande choque com a sua trilogia de La Ponte,mas posso garantir que seu Fígaro foi a experiência maisinteressante da minha vida. Há algo nessa ousadia que foge aocontrole do próprio diretor, que vem de uma relação dinâmica como tempo em que se vive. Então, não se importa quando alguém lhe chamade maestro pop? Nem um pouco. Se sou honesto com ocompositor, isso não significa nada. Mozart também é popular. No próximo ano o senhor vai reger a Missa emSi Menor de Bach, com Stutzmann e Hallenberg, em Grenoble. Oque Bach representa para o senhor? Um ícone religioso, como paraBresson? Hesitei reger Bach, mesmo tendo tocado comHerreweghe, porque desconheço músicos que não se sintam criançasdesprotegidas diante dele. É um ícone, o império do som, e todostemos medo de ver um império ruir.

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