Manuel Bandeira, na voz de Olivia Hime

A gravadora alternativa Biscoito Fino acaba de relançar um dos discos mais bonitos e sofisticados - e pouco conhecidos - dos anos 80: Estrela da Vida Inteira, da cantora Olivia Hime. São versos de Manuel Bandeira, do livro homônimo ao disco, musicados, por encomenda da intérprete, por Gilberto Gil, Francis Hime, Tom Jobim, Milton Nascimento, Wagner Tiso, Moraes Moreira, Ivan Lins, Dorival Caymmi, Toninho Horta, Joyce, Radamés Gnatalli, Dori Caymmi e por ela mesma, Olivia Hime.Tento para a gravadora, fundada no ano passado (para a qual migrou, no fim do ano, a cantora Maria Bethânia, em busca de um ponto de trabalho em que se gostasse de boa música brasileira). Estrela da Vida Inteira foi lançado em 1986 de forma independente, com sucesso de crítica, tiragem pequena e o pouco alarde de uma produção do tipo.Não houve, nestes 16 anos, interesse de nenhuma gravadora grande em fazer tiragem comercial da obra. A Biscoito Fino fez edição caprichada, com encarte reproduzindo fotos raras retratos desenhados de Bandeira, textos de Geraldo Carneiro, Tom Jobim, Cacaso, Ferreira Gullar, Carlos Scliar, além das palavras de Olivia explicando o porquê da ousadia.Afinal, não estava pensando em ganhar muito dinheiro com um disco tão sóbrio, tão refinado, ainda mais naqueles tempos em que só o pop chegava às rádios (e a boa música era rapidamente afastada da televisão, como seria afastada, também, da maioria dos jornais).Mas era - é - um trabalho coerente com a carreira de Olivia, que um dia foi "apenas" a mulher de Francis Hime e que em 1981, resolveu mostrar as prendas vocais. Seu primeiro trabalho levava seu nome. Saiu pela agora extinta RGE, com produção de Durval Ferreira e Dori Caymmi. Olivia apresentava-se como intérprete e letrista.Em 1982, pela Opus/Columbia (hoje Sony), lançou o segundo disco, Segredo do Meu Coração. Cantava Gil, Caymmi, mas também dava luzes a autores estreantes, como J. Maranhão (Amazônia) ou os gaúchos Peri e Fogaça (Estrela Guria). Pela mesma gravadora, lançou, no ano seguinte, o disco Máscaras, com músicas novas de Caetano Veloso, Chico Buarque, e coisas compostas especialmente para ela.Ganhou, de Milton Nascimento, a Barca dos Amantes (uma parceria com o português Sérgio Godinho), para o quarto disco, O Fio da Meada, de 1985, ainda lançado pela Opus/Columbia.Foi no ano seguinte que resolveu pôr em prática um antigo projeto da socióloga Elisa Byington (irmã da cantora Olivia Byington): o de musicar poemas de Fernando Pessoa. Olivia Hime procurou a Fundação Roberto Marinho e instituições culturais portuguesas e conseguiu financiamento para gravar A Música em Pessoa, com poemas dos 14 heterônimos do poeta musicados por Tom Jobim, Sueli Costa, Francis Hime, Ritchie, Milton Nascimento, Edu Lobo, Edgard Duvivier, Arrigo Barnabé, Dori Caymmi, Nando Carneiro - e com participação dos músicos e ainda de Jô Soares.Se podia fazer coisa assim com um poeta português, por que não com um brasileiro? Foi a pergunta que Olivia se fez. E, em nove meses, tinha pronto Estrela da Vida Inteira. Partiu de uma frase de Bandeira: "Gosto de ser musicado, traduzido e... fotografado. Criancice? Deus me conserve as minhas criancices! Talvez nesse gosto, como nos outros dois, o que há seja o desejo de me conhecer melhor, sair fora de mim para me olhar como puro objeto."Por original, Olivia fugiu dos versos que o poeta já tinha musicados, como os do famoso Azulão, melodia de Jayme Ovalle, um parceiro constante. Preferiu encomendar novos números. Foi escolhendo os autores das melodias de acordo com o que - julgava - era mais próximo, na música deles, dos versos de Bandeira. Cometeu enganos iniciais, corrigidos ao longo da produção, como confessaria depois. Teve acertos fabulosos, como pedir a Tom Jobim que musicasse o Trem de Ferro (que é parente mais velho do Pato Preto, de seu último CD) ou a Milton Nascimento que transformasse em canção os versos de Testamento ("O que não tenho e desejo/ É o que melhor me enriquece").Estrela da Vida Inteira tem participações especiais de Dori Caymmi, Moraes Moreira e Tom Jobim, arranjos de Dori, Gilson Peranzzetta, Tom, Francis Hime, Toninho Horta - e mais a presença de um grupo de músicos do primeiro time.Não é, dados autores e intérprete, um disco solene; mas é sóbrio e profundo, guardando aquela misteriosa qualidade que combina simplicidade e sofisticação e que torna tão especial a poesia de Bandeira - uma decantação musical dela.Não custa lembrar que, em 2000, Olivia Hime lançou o belíssimo Serenata de Uma Mulher, em que pediu a poetas que letrassem composições de Chiquinha Gonzaga ? invertendo o método sustentanto a qualidade da obra pequena, bela e digníssima.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.