JOSÉ DE HOLANDA
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Manoel Cordeiro: 'Minha vida é um milagre'

Depois de ficar internado por 43 dias e chegar a ter 10% de chances de sobreviver à covid-19, um dos maiores guitarristas do País volta para casa, começa a compor de novo e recebe ajuda financeira em live prevista para esta sexta (29) com artistas como Fafá de Belém e Dona Onete

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2021 | 14h17

Um dos maiores guitarristas do País, Manoel Cordeiro reza perguntando quais planos dos céus o seguraram vivo. Que propósito o teria desviado dos 90% de estimativa de morte, conforme os médicos informaram à sua família durante os 15 dias em que esteve entubado em um hospital? Foi tudo muito rápido. Às vésperas de um show com Fafá de Belém, Manoel sentiu febre em Macapá. Um calor que imaginou ser sintoma de qualquer enfermidade passageira até o momento em que a temperatura subiu e ele se deitou em uma rede. Ali, pela primeira vez, percebeu algo pior, como se os membros de seu corpo estivessem dolorosamente desligados. Não imaginou que poderia estar com covid, mas estava.

A situação piorou quando já estava no hospital e, mesmo sem oxigenação segura, contou com a ajuda do filho Felipe Cordeiro e de Fafá para, cinco dias depois, ser transferido para um hospital de Belém. Internado dia 21 de novembro, Manoel, 65 anos, diabético e portador de um stent cardíaco, começou a sofrer complicações. Vieram as arritmias, um acidente vascular cerebral isquêmico e uma embolia pulmonar. Ao mesmo tempo, seu sogro, 85 anos, internado no mesmo período e pela mesma doença, não resistiu e morreu.

O Amapá, que dias antes havia sofrido um dos maiores blackouts da história junto a outros 12 dos 16 municípios do Estado, via as mortes subirem rapidamente. Até a tarde desta quarta (27), eram 1.036 na cidade. Os posts de Felipe já pediam força pelas redes sociais de “Papai”, como Manoel é conhecido pelo carinho dos amigos, quando os médicos avisaram: havia poucas chances de voltar.

Pois então começa a parte da história da qual Manoel Cordeiro se lembra e à qual a Medicina não explica – e para efeitos jornalísticos: segundo o próprio paciente, ele não foi tratado com cloroquina, ivermectina nem qualquer outra suposta medicação, já que nenhuma conta com eficácia comprovada pela ciência. “Assim, na manhã seguinte em que os médicos disseram isso à minha família, eu comecei a ficar bem. E só fui melhorando”, conta. “E eu pergunto a Deus todos os dias, qual será minha missão?” Em uma das visitas do filho, ele pediu para ouvir algo e Felipe tocou uma música ao violão, ao lado do pai. 

Vinte quilos mais magro depois de 43 dias de internação, Manoel seguiu para casa. “Oh glória!”, é seu bordão equivalente ao “Oh sorte!”, que era de Wilson das Neves. Muito fraco e com dificuldades de se movimentar, ele temia por não conseguir mais tocar guitarra. As sessões de fisioterapia começaram. Na primeira, a médica, recebida pela mulher de Manoel, disse: “Em uma semana é você quem vai se levantar para abrir a porta para mim.” Uma semana depois, ele se levantou e abriu a porta.

Manoel diz que não deu mole. “Eu andava de máscara, lavava as mãos.” Desconfia que pode ter contraído o vírus quando entrou em uma fila para comprar água, durante o apagão do Norte. “Impossível saber.” Quando começou a se restabelecer, fez o teste que o afligia. Pegou a guitarra para tocar e, nota por nota, fez com as mãos tudo o que o cérebro mandava. “Você não pode imaginar a alegria que isso me deu.” Ele então compôs uma melodia e escreveu uma carta para agradecer aos amigos. E as ajudas continuaram.

Os colegas se juntaram para fazer uma live que deve ajudá-lo nas despesas contraídas durante a internação. Será nesta sexta (29), a partir das 20h, com Fafá de Belém, Dona Onete, Felipe Cordeiro, Mestre Pinduca, Luiz Caldas, Márcia Ferreira e Karina Buhr, em depoimentos ou shows que serão mostrados pelo Youtube e Facebook do portal Brasileiríssimos. “É uma maneira de sermos solidários com quem tanto contribuiu para a nossa música e também uma forma de criar condições para o ‘Papai’ voltar aos palcos o mais rápido possível”, escreveu Felipe. “O amor que recebi em forma de solidariedade me fez mais forte, mais lutador pela vida e mais desassombrado com a morte, porque vi e senti na intensidade desse amor a presença de Deus, dono do meu caminho e minha lanterna de proa”, diz Manoel. Artista fundamental na modernização da guitarrada paraense, produtor e solista virtuoso, Manoel Cordeiro já tem planos. “A médica que cuidou de mim é uma ótima cantora. Quero gravar um disco com ela.” Assim, vai ele mesmo respondendo o que pergunta a Deus todos os dias.


Aqui, uma apresentação de Manoel Cordeiro em 2016, no Instrumental Sesc Brasil

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