Mano Brown adianta novo álbum no PercPan

Festival de Salvador abriu nesta sexta com show do rapper paulista

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2014 | 13h30

E, de repente, Mano Brown. Assim mesmo, no susto, livre e leve, de terno e gravata e um conceito mais aproximado dos bailes soul e disco dos anos 70 do que da rima dos Racionais, Brown esteve na noite desta sexta-feira, em Salvador, quebrando as regras do próprio festival que o levou. Era a estreia da 20ª edição do PercPan, o projeto que sobrevoa a música percussiva do mundo de suas formas mais variadas e que, neste ano, volta para sua cidade de origem (da qual, muitos baianos dizem, jamais deveria ter saído).

Brown adiantou um novo projeto no qual trabalha desde 2008, chamado Boogie Naipe, e que deve ser lançado este ano. Surpreendeu ao subir ao palco para fechar a noite das atrações que valorizam em seus trabalhos a voz, o corpo e a palavra. Estava ali porque o rap faz da fala contínua seu propulsor rítmico e, sobretudo, porque era Mano Brown. O fato de o PercPan ser realizado neste ano em praça pública, gratuito, em pleno Pelourinho, quase que obriga seus curadores a pensarem em ao menos uma atração de maior abrangência por noite. Sem os Racionais, a suspeita de que o rapper apareceria só na voz e no beat box, uma versão banquinho e violão do rap, passou longe do que viram os fãs de Salvador. Se lhe fizeram algum pedido, Brown entregou uma encomenda ainda melhor.

"Ainda acredito na minha raça... E acredito no que vai ser daqui pra frente", disse ele, aplaudido, logo depois da primeira música. "Vou fazer aqui umas coisas diferentes", avisou. Um Brown essencialmente de pista, mais cantado do que declamado, mais da dança do que da reflexão, embora ele diga o seguinte em um texto para a imprensa que anuncia sua nova investida: "Considero essas músicas tão politizadas quanto as outras, ampliando a visão das pessoas para fora e para dentro de si mesmas."

O disco do Boogie Naipe, conhecido também como "o solo de Brown", está previsto para sair este ano. Deve contar com uma parceria do rapper com Guilherme Arantes em uma das músicas, participação de Seu Jorge e arranjo de Artur Verocai. A produção é dividida entre ele e Lino Krizz, o fabuloso rapper e vocalista, ex-integrante da dupla Os Metralhas. Nas novas letras, Brown fala de amor, embora ele nunca se concretize. Os novos pilares são o soul, a disco e o boogie, gêneros e subgêneros setentistas que aparecem em faixas como Dance, Dance, Dance (com Seu Jorge), Louis Laine, Mulher Elétrica, Boa Noite São Paulo e Fiz Um Boogie Pra Você.

O palco em Salvador ficou cheio o tempo todo, com dois dançarinos de street dance, Lino Krizz e rappers do grupo Rosana Bronx, apadrinhado por Brown. A plateia ouvia com atenção, dançava, mas esperava por Racionais. Os fãs mais radicais do grupo têm se mostrado resistentes à nova fase de Brown. O rapper foi falar com o DJ, olhou intrigado para os fãs, combinou algo e deixou que ele soltasse a base de Artigo 157, lançada no álbum Racionais MCs, de 1994. O público que estava à frente não parou mais de pular. Perto do final, dezenas de fãs subiram ao palco e o show foi interrompido por alguns minutos. Alguns desceram, outros ficaram, e Brown se despediu de Salvador sorrindo.

Vozes. As atrações vinham até ali em um crescente. A baiana Banda de Boca fez um aparição rápida, usando vozes para fazer sons dos instrumentos de forma mais convencional, lembrando Dominguinhos com Eu Só Quero um Xodó em seu ponto alto. Os Barbatuques, de São Paulo, receberam o show sem pausa, provocando impacto maior já nas primeiras intervenções dos graves de Marcelo Pretto. O efeito da percussão que fazem com batidas pelo corpo depende muito da qualidade da microfonação e da equalização de graves e médios, o que se perde muito em shows abertos. E os cubanos do Vocal Sampling, que fazem música caribenha e dançante apenas com as vozes, compuseram um retrato interessante de um País pouco conhecido por seus grupos vocais. Pena que poucos fãs entenderam a proposta.

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