Romulo Fialdini/Divulgação
Romulo Fialdini/Divulgação

MAM mostra coleção que deu origem ao acervo do museu

Conjunto de obras foi doada pelo industrial Carlo Tamagni

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

11 de janeiro de 2012 | 22h00

Carlo Tamagni (1900-1966) é um nome pouco lembrado, mas sem ele não existiria o núcleo da coleção do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, que inaugura hoje uma exposição com as 81 primeiras obras a entrar no acervo da instituição após a decisão de Francisco (Ciccillo) Matarazzo Sobrinho, então seu presidente, de transferir a coleção original para o Museu de Arte Contemporânea (MAC), criado em 1963. Tamagni, colecionador e então conselheiro do MAM, doou sua coleção ao museu e, em 1968, foi organizada uma mostra com as mesmas obras expostas em O Retorno da Coleção Tamagni, que tem curadoria de Felipe Chaimovich e Fernando Oliva.

Trata-se de uma coleção irregular, feita de grandes nomes do modernismo, como Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti, e pintores hoje esquecidos, mas nela há lugar para obras boas e raras de mestres como Volpi, Pancetti e Bonadei. E, graças às estruturas giratórias que servem de suporte às obras, criadas pelo argentino Nicolás Guagnini (chamadas por ele de "máquina curatorial"), os visitantes podem reordenar visualmente a mostra. Tamagni teria gostado da ideia, pois sua coleção, antes de seguir uma linha rígida, foi construída com flexibilidade e de forma afetiva, conforme a intuição do colecionador, sobre o qual se sabe pouco além de ter sido um antifascista e bem-sucedido empresário do ramo gráfico.

Tamagni, conde, amigo de trotskistas, inimigo de Mussolini, deixou a Itália nos anos 1930. Ao chegar, tornou-se próximo dos pintores que gravitavam em torno da Família Artística Paulista, de origem proletária e italiana. Ele doou a coleção para que o Museu de Arte Moderna, criado em 1948, não desaparecesse do mapa, depois que Ciccillo Matarazzo, interessado em promover a Bienal, doou seu acervo (além de sua coleção particular) ao MAC, provocando reações dos conselheiros da instituição - documentadas com as cartas de protestos originais expostas na mostra. Chaimovich e Oliva, na tentativa de reconstituir o processo embrionário do MAM e a história da coleção base do museu, pretendiam fazer a exposição do jeito que ela foi organizada após a morte de Tamagni, em 1968, no auditório do Banco Nacional de Minas Gerais, na Avenida Paulista (o museu ainda não tinha sede). Mas o espaço é outro, o tempo idem e essas obras acabam adquirindo outro significado expostas 44 anos depois.

Os curadores Chaimovich e Oliva não queriam tratar as obras como relíquias. Acabaram optando por um confronto com a produção contemporânea, colocando no mesmo espaço trabalhos de Marcelo Cidade, Chelpa Ferro, Laura Lima e Fabiano Marques. "Nosso objetivo é refletir sobre o que significa para o Museu de Arte Moderna de São Paulo possuir um conjunto de obras com este perfil, pensar sobre sua origem e sua refundação", diz Oliva. "Essa coleção se integra ao museu num momento traumático, de perda - das obras, de sua sede", completa Chaimovich, concluindo que a "síndrome do acervo perdido" de que falava o ex-curador do MAM, Tadeu Chiarelli - ou seja, o golpe sofrido com a transferência de suas obras para o MAC - criou um vazio historiográfico que esta exposição com a coleção Tamagni pode, eventualmente, ajudar a corrigir.

Qual história recontar a partir dela? Certamente mais de uma. O visitante da exposição verá uma paisagem de Tarsila de uma época (1948) em que já não mais queria ser modernista, uma marinha pintada por Volpi em Santos, em 1926, bem antes de se tornar um dos primeiros grandes construtivistas brasileiros, três boas pinturas do modernista Di Cavalcanti de diferentes períodos (inclusive dos anos 1920), cinco ótimas obras de Pancetti (entre elas dois desenhos e o óleo Leitura, de 1944, do mesmo ano que precede sua primeira exposição, em 1945), além de pinturas de Mario Zanini (do Grupo Santa Helena) e do crítico Sergio Milliet, que catalogou as primeiras doações do MAM em 1966, ano de sua morte e a de Tamagni.

Uma xilogravura de Lívio Abramo, de 1937, O Vendedor de Palmitos, foi o primeiro trabalho catalogado do acervo do novo MAM, que finalmente ganharia sua sede sob a marquise do Parque do Ibirapuera em 1969. A presença de Abramo na coleção de Tamagni comprova seu interesse por obras artísticas de cunho social, ele que chegou a ser preso, no Rio, durante o Estado Novo, por seu envolvimento com grupos de esquerda.

Acervo feito de mestres e bons amigos

O industrial e colecionador Carlo Tamagni, que ajudou a criar a Revista Brasiliense com Caio Prado Júnior, era amigo de pintores que deixaram sua marca na história do modernismo brasileiro, como Volpi. Foi essa relação afetiva que o levou a construir uma coleção eclética com obras tanto do Grupo Santa Helena como de amadores que começavam a surgir no panorama, entre eles José Antonio da Silva. Tamagni também ajudou pintores estrangeiros que se estabeleceram no Brasil, como o belga Van Rogger (1914-1983), que pintou seu retrato, o italiano Karl Plattner (1919-1989), que desenhou a capa do primeiro Suplemento Literário do Estado, e o romeno Samson Flexor (1907-1971).

O RETORNO DA COLEÇÃO TAMAGNI - MAM. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº, Parque do Ibirapuera, tel. 5085-1300. 10h/17h30 (fecha 2ª). R$ 5,50. (dom. grátis). Até 11/3

 

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