Marcio Fernandes/AE
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Mallu Magalhães cresce, se reinventa e lança álbum 'Pitanga'

Cantora inaugurou no País a era dos web ídolos

Julio Maria - O Estado de S.Paulo,

21 de outubro de 2011 | 21h30

Aos 19 anos, ela não parece mais a garotinha esperando o ônibus da escola. Mallu Magalhães, primeiro fenômeno de massa no País da era pós YouTube, saboreou cedo as vitórias e o inferno de quem pula de uma telinha de computador para o Domingão do Faustão. Agora, ao lançar Pitanga, CD produzido pelo namorado Marcelo Camelo, fala como a sobrevivente de um bullying artístico que por pouco não a fez jogar a toalha. Suas respostas aos que a diminuíram não soam como respostas. E este pode ser seu grande trunfo.

Havia uma expectativa para ver se você iria além do primeiro disco depois que crescesse e perdesse o fator fofura, não?

Esse disco vem no momento em que eu estava desesperançosa com a música. Mas eu decidi que era isso que eu queria fazer e ponto, resolvi seguir em frente.

E o que levou você para esta desesperança?

A crueldade das pessoas. Muita gente na internet dizia que eu ia acabar, que não seria assim para sempre, que eu era um sucesso passageiro.

O que chama de crueldade?

O mais pesado para mim era a paródia, as piadas na TV, na internet. Chegava na escola e via uma pessoa repetindo uma piada sobre mim que tinha passado na TV. Era uma humilhação, horrível. Um desenho animado da MTV, por exemplo, para mim machucava muito (pausa). Era difícil, eu chorava demais. Realmente pode ser complicado passar por isso quando você tem 15 anos, mas se consegui passar e manter a sanidade mental, puxa, foi um aprendizado. Já caí e levantei algumas vezes, a vida pode ficar mais fácil agora.

Outra barra foi assumir seu namoro com Marcelo Camelo, não?

Sim, mas aprendi neste momento que quando você tem certeza do que quer, nada que as pessoas falam o abala. Quando tem paz, você não se abala mais porque está completo.

Você começa a carreira como uma artista da internet. Isso é diferente do caminho clássico que é tocar nos barzinhos, fazer shows maiores, chegar a uma gravadora. Não viver isso pode ser um prejuízo?

O que existe hoje é uma vivência virtual. O artista que coloca a musiquinha no YouTube, começa a divulgar para os amigos, faz seu primeiro vídeo. É a mesma coisa do que o cara que gravava suas músicas em um estúdio, levava o disco para a gravadora, fazia shows.

Mas o artista que não tem esse contato com as pessoas não sai perdendo?

Existe um aprendizado de palco, de como se virar com o público, de aprender a lidar com uma noite vazia sim. São coisas que realmente fazem falta para mim. Quando era mais nova, eu ligava para alguns lugares em busca de shows. Bares menores como o Café Piu Piu, por exemplo, mas ninguém deixava eu tocar porque eu era menor de idade. Foi aí que resolvi colocar minhas músicas na internet.

Você pensou em desistir?

Até pensei em não falar isso nas entrevistas, mas é minha história, não tem como mentir. Eu pensei sim em desistir por várias vezes, muitas vezes. E o mais bonito de tudo é que, com esse disco, não me resta nem mais uma pitada desse sentimento. Comecei outra etapa. Sei lá, me veio uma força...

As canções são todas assinadas por você. Como funciona sua cabeça de compositora?

Cara, minha cabeça é uma coisa complicada, é muito difícil ser eu (risos). Ah, não consigo dar uma entrevista e dividir a minha vida pessoal, os meus sentimentos e a minha profissão. Eu não acredito nisso, e os artistas que eu mais admiro são justamente os mais intensos. Olho um Tim Maia e penso, cara, o cara existiu com muita categoria, deu tudo dele, viveu com muita paixão. Eu sou assim, eu sinto demais. Tanto alegria quanto tristeza, mas me esforço para ser uma mulher solar.

A tristeza é mais inspiradora?

Sim, mas não diria a tristeza, diria a transformação. Quando você passa por uma dor, por um momento difícil, é porque está indo para algum lugar. Quem sente dor é porque vai passar por ela, não vai ficar ali.

E como você aprendeu isso?

Passando por ela.

Você parece mais articulada do que naquela entrevista no Domingão do Faustão. Não sentiu ali um choque ao participar de um programa que representa a velha forma de fazer sucesso que nada tem a ver com a internet que a criou?

Creio que tenha sido mais um choque entre o objetivo e o subjetivo. Tenho muita dificuldade em dar entrevista por causa disso. Para mim eu já acho louco o ser humano ter que se comunicar tanto com palavras, elas têm de estar em todo lugar. Veja a música, veja os animais. Eles sacam a gente, não precisamos da palavra.

Neste momento, a fita do gravador acaba e o repórter pede um tempo para virá-la.

Eu não sabia que fitas assim têm dois lados. Fui aprender depois que quando acaba um lado a gente pode usar o outro.

Um belo sintoma de que essa era analógica acabou...

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