"Make Believe" faz Weezer candidato a melhor de 2005

De vez em quando, bem de vez em quando, Rivers Cuomo larga os seus retiros espirituais, as suas aulas no curso de Inglês de Harvard e suas esquisitices a granel, pega sua guitarra, seleciona uma dúzia de canções em sua produção diária de uma ou duas e abençoa o resto da Humanidade com um novo álbum de seu grupo de rock, o Weezer. São 12 anos de carreira, só cinco CDs e 56 canções - fora um punhado incluído como bônus numa edição especial de seu primeiro disco - nessa balada. Cuomo acaba de pôr na rua o extraordinário Make Believe (lançamento nacional da Universal), que rivaliza em qualidade com aquele Weezer de 1994, capinha azul contendo as já clássicas Buddy Holly e Say It ain?t so.O som do Weezer, você há de se lembrar apesar dos hiatos, é uma síntese perfeita entre o pop dos anos 50 e 60, o pop metal dos anos 70 (Cuomo é fã do Kiss) e o pós-punk dos anos 80. Em suma: uma banda de rock alternativo para os anos 90 e além. Já em termos de imagem, tão importante quanto o som desde o advento da MTV, o Weezer simplesmente não se parece com uma banda de rock. São quatro caras - Cuomo (voz e guitarra), Brian Bell (guitarra e vocais), Pat Wilson (bateria) e, em Make Believe, Scott Shriner (terceiro baixo de sua história) - com jeito de ?nerds?, usando óculos e camisas listadas. Um visual que ajuda bastante o culto dedicado ao grupo nas universidades americanas.Este visual também é trabalhado em clipes engenhosos e engraçadinhos, capazes de misturar a banda com os personagens dos seriados de TV Happy Days e Muppets, por exemplo. No novo álbum, produzido por Rick Rubin, o clipe da música Beverly Hills foi gravado na famosa mansão do dono da Playboy, Hugh Hefner, com Cuomo e seus amigos ?cê-dê-éfes? cercados por modelos peitudas. Há trechos do clipe inseridos na faixa multimídia do CD, um making of de dez minutos que conta com entrevistas dos membros da banda, exceto, naturalmente, Cuomo. Talvez estivesse meditando em algum ponto remoto dos EUA, talvez estivesse fechado em casa com as luzes apagadas.A esquisitice do cabeça do Weezer não parece ser só uma jogada de marketing. Ela mantém a vida dos outros integrantes da banda em permanente tensão. Eles hesitam antes de se declararem ?amigos? e mantêm uma relação de amor e ódio com seu líder. A revista Rolling Stone dedicou-lhes uma capa pela primeira vez no começo deste mês. Qualquer banda de rock venderia a mãe em prestações para conseguir isso. Cuomo, porém, disse que só falaria com a repórter Vanessa Grigoriadis se conseguisse acomodar o papo antes de se meter num retiro em Yosemite. Se não, ficava para uma próxima. ?Por um lado, pensei ?Jesus, como você pode fazer isso com a gente? Nós trabalhamos duro por 12 anos e finalmente conseguimos a capa e você ferra tudo com uma frase??, contou Bell à repórter. ?Então, outra parte de mim diz ?Esse cara tem colhões!? Mesmo sendo realmente egoísta.? (Cuomo afinal falou à Rolling Stone. Dois encontros cronometrados de uma hora cada um.)Quem apenas vê o clipe festeiro de Beverly Hills ou apenas escuta o poderoso gancho rítmico-melódico da canção, periga perder sua melhor parte, a letra. Nela, Cuomo faz uma crítica ácida à Califórnia onde mora quando não está em Harvard e, ao mesmo tempo, examina sua própria inadequação a ela: ?A verdade é que eu não tenho chance/ É algo em que você nasce/ E eu simplesmente não me encaixo/ Não, eu sou apenas um caído idiota sem classe/ E sempre vou ser assim/ É melhor viver minha vida/ E ver as estrelas atuarem.?O CD, todo ele excelente, tem outro ponto alto em We Are All on Drugs, também animadaça - artificialmente animadaça. Nela, Cuomo investe contra a galera que passa o tempo inteiro drogada como Johnny Rotten, dos Sex Pistols, investiu contra abortos por motivos estéticos em Bodies. O rock, até o praticado por malucos, pode ser bastante sensato. A letra ironiza a sensação de bem-estar proporcionada pelas drogas, alerta para a ressaca paranóica e avisa que largá-las não é fácil. Fecha com dois versos que se aplicam tanto aos usuários de drogas quanto aos de meditação transcendental: ?Eu quero atingir um plano superior/ Onde as coisas nunca mais sejam as mesmas.?No terceiro ponto alto do CD, The Other Way, Cuomo assume um discurso antimessiânico travestido de apenas mais uma canção de amor. De início ao violão, antes da entrada em cena daquelas guitarras, imensas e pesadas como as paredes de água de Mavericks, ele se explica: ?Eu quero te ajudar/ Mas não sei como/ Eu quero te confortar/ Mas não consigo me expressar/ Eu tenho muitos temores/ Sobre rejeição/ Eu tenho muitas memórias/ Da dor/ Eu sempre fui/ Um pouco tímido.? Singelo e brilhante para um astro de rock que supostamente deveria encarnar a autoconfiança de sua geração, um cara hábil o bastante para moldar uma canção memorável a partir de um ?ô-ô-ô-ô? (Peace).Rivers Cuomo passou os últimos dois de seus quase 35 anos de vida sem manter relações sexuais (com garotas orientais, mania sua). Canalizou sua libido para a meditação e para um álbum que, no entender deste colunista, é o melhor de 2005 até agora. Música, letra e imagem tornam esse nativo de Nova York uma espécie de versão roqueira do conterrâneo Woody Allen. Contudo, os possíveis paralelos não se esgotam aí. O estado americano que ele(s) enxerga(m) como uma filial boba-alegre de Gomorra se parece tanto com o de Pergunte ao Pó e de Abaixo de Zero, respectivamente dos escritores John Fante e Bret Easton Ellis, quanto com o de Hotel California, o LP dos Eagles. Ou seja, uma terra pródiga em promessas frustradas. O Weezer, entretanto, há muito já se concretizou.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.