Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

Mais engajada, banda Francisco el Hombre lança disco e critica Bolsonaro na música 'Bolso Nada'

'Soltasbruxa' fala sobre machismo, preconceito e desigualdade social. Grupo se apresenta em SP

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2016 | 05h00

O ano de 2016 foi transformador para os integrantes do Francisco el Hombre. A banda liderada pelos irmãos mexicanos Sebastián e Mateo Piracés-Ugarte conseguiu, de forma quase que sucinta, lançar um disco mais politizado e maduro que o antecessor, o EP La Pachanga! (2015).

Tal mudança sonora, entretanto, não fez com que o grupo perdesse seu ritmo contagiante, essência do quinteto. Soltasbruxa, que chegou às plataformas digitais no começo de setembro, mostra uma sonoridade eclética, dura e de um refinamento literário antenado ao conturbado momento político do País.

Em Bolso Nada, que conta com a participação de Liniker, a letra instigante traça o perfil do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC/RJ) com rimas fáceis, dançantes e realistas. “Quando a gente gravou o EP, estávamos em outro momento. Tínhamos feito muitas viagens pela América do Sul, uma turnê gigantesca por vários países. No ano passado, entretanto, coisas pesadas aconteceram. Tomamos calote de alguns produtores e fomos assaltados na Argentina, quando perdemos tudo, incluindo nossos instrumentos musicais. Foi um ano de altos e baixos. O Soltasbruxa é meio que uma sessão de descarrego”, afirma Sebastián.

Além das duras críticas a Jair Bolsonaro, a banda, que se prepara para o show de lançamento do disco neste sábado, 22, na Áudio Club, na zona oeste de São Paulo, também fala sobre machismo, desigualdade social e preconceito. Se, em La Pachanga!, a coisa ganhava um ar mais alegre e de superação, Soltasbruxa contrasta tal conceito.

A faixa homônima, que abre o trabalho, inclusive, traz uma sonoridade soturna e pesada. “Não tinha como ser diferente. Além de 2016 ter sido particularmente conturbado para todos os integrantes da banda, o Brasil viveu um dos piores momentos da sua história. Tudo isso reflete no som, nas letras e, obviamente, na sonoridade. Mas nosso ritmo dançante ainda está lá”, crava Sebastián. A banda gaúcha Apanhador Só também participa do disco. O conjunto aparece na mística Tá com Dólar, Tá com Deus. A canção faz uma sátira aos valores agregados do dia a dia corriqueiro de grande parte das pessoas. Salma Jô, vocalista do Carne Doce, empresta sua voz para Triste, Louca ou Má.

Superação. Formada também por Andrei Kozyreff, Juliana Strassacapa e Rafael Gomes, Francisco el Hombre viveu um grande drama em janeiro de 2015. A banda tinha acabado de chegar à cidade de Mendoza, na Argentina, para dar início a uma grande turnê pela América do Sul, quando foi assaltada.

O quinteto perdeu praticamente tudo: carro, roupas, instrumentos musicais e passaportes. Não sobrou nada. Assustados, os músicos cogitaram voltar para o Brasil para tentar minimizar os danos causados. “Perdemos todos os pertences, incluindo violão, guitarra, bateria e baixo. Não dava para continuar sem nossa matéria-prima básica. No entanto, tínhamos saído de casa com um propósito. A gente tinha que continuar aquilo de alguma forma, apesar de todas as dificuldades”, disse Sebastián, em entrevista ao Estado na ocasião.

Com ajuda local, o grupo deu a volta por cima, permaneceu na Argentina, pegou instrumentos emprestados, concluiu a turnê e foi até ao Chile, onde eles conseguiram se estabilizar. No fim das contas, se apresentaram na Fiesta Nacional de la Vendimia, um dos festivais de música mais importantes de Mendoza.

“Amadurecemos. Não queremos ficar associados apenas a esse fato, até porque, de lá para cá, muita coisa mudou, cara. Pelo acolhimento e pela ajuda, Mendonza estará para sempre do lado esquerdo dos nossos peitos”, complementa Sebastián.

FRANCISCO EL HOMBRE

Audio Club. Av. Francisco Matarazzo, 694, Água Branca, tel. 3862-8279. Sáb., às 22h. R$ 80

 

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