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Mais afiada do que nunca, Rita Lee lança CD e DVD

Cantora sai da toca e, tão divertida quanto ranzinza, grava trabalhos ao vivo após os 40 anos de carreira

Fernanda Brambilla, do jornal da Tarde,

26 de maio de 2009 | 10h29

Rita Lee já foi contestadora, rebelde, ovelha negra em letra e música. Hoje sexagenária, a cantora mantém a cabeleira vermelha brilhante, mas a ex-Mutante está mais amolecida do que polêmica, tão divertida quanto ranzinza e lança CD e DVD gravados ao vivo em meio às próprias contradições, mesmo depois de ultrapassar os 40 anos de carreira.

Coisa da idade? Não, segundo ela, sua idade é de criança. “Estou com três anos e meio. O nascimento da Ziza (a neta) foi um marco zero na minha vida”, diz a avó Rita Lee na entrevista que concedeu por e-mail ao JT.

Se por um lado Rita Lee se diz realizada no palco, toda felicidade é desmistificada ao admitir, ainda hoje, que cogita ‘acabar com Rita Lee’ para fazer qualquer outra coisa da vida. “‘Acabar’ no sentido de mudar de profissão, sim, penso nisso todos os dias, desde que comecei”, afirma a cantora. O radicalismo prossegue no hábito que tem de não se ouvir mais do que o extremo necessário. “Nada meu que já foi mixado em imagem ou som eu gosto”, justifica a artista, que se julga perfeccionista e super CDF. “Tenho lua em virgem e só acho defeito, então, melhor não ver nem ouvir.”

Mergulhada em suas contradições, a mesma Rita Lee reconhece que não se sentiria realizada em outra vida: “Provavelmente, estaria infeliz pra caramba, obesa e frustrada”, diz.

Do rótulo de artista contestadora ela também desdenha: “A única causa da qual sempre carreguei bandeira é a da defesa dos animais, mesmo assim, faço longe dos holofotes”, afirma Rita, que se vê distante do discurso politizado. “Acho um saco quando o artista carrega sua plataforma política ou idealista por onde vá”, reclama, para logo provocar. “Aliás, existe alguém mais chato do que o Bono Vox?”

Ultimamente, nas horas vagas, não só o U2, mas qualquer banda é suficiente para irritar os ouvidos exigentes de Rita Lee - mais do que fugir dos modismos, ela prefere não ouvir voz alguma. A cantora só escuta música instrumental, das clássicas ao jazz, das eletrônicas ao new age, sem palavra falada ou cantada.

As peculiaridades não param por aí. Por bem, ela avisa aos jornalistas: quem fala ‘com certeza’ quando vai responder a uma pergunta tende a tirá-la do sério.

Mas Rita Lee não é toda ranzinza e isso bem se vê ao vivo. Em frente a uma plateia lotada que a acompanha a cada verso, ela se envaidece e conta que se sente muito melhor do que aos 30. “Balzaquiana, achei que estava no fim da vida. Me olhava no espelho e via madre Teresa de Calcutá. Uma coisa terrível”, diz do alto do palco do Vivo Rio, na gravação ao vivo. Mas isso passou e, hoje, ela se sente toda faceira. “Eis-me aqui, aos 63 anos de idade, toda brejeira. Afinal, rock não é mesmo coisa para maricas.”

É também no palco que ela curte a autoimagem. Rita se acha ‘gordinha’, ‘bunduda’, ‘coxuda’. “Eu odeio ser gostosa”, se diverte durante o show, e provoca o público: “É que eu sou meio machinho.” Os olhares surpresos são a exata reação que ela esperava. “Vocês se espantaram por quê? Vocês não são modernos?”

Ao ver veteranos como Roberto Carlos comemorarem em gala os 50 anos de carreira, Rita toma o lado oposto e não se anima com efemérides. “Não tenho ideia do que vai me acontecer amanhã...”, ela despista, para logo lembrar o que a mantém na ativa após tantos anos na estrada. Seu prazer de trabalhar com música, assim como o das pessoas em ouvi-la, continua inigualável.

Mas a melhor prova de que Rita Lee está longe do fim ela dá ao vivo, em sua reverência a Chuck Berry, com Roll Over Beethoven. “Aos 80 anos, ele está lá, fazendo shows com aquele passinho de ganso.”

A paulista Rita Lee escolheu um palco carioca para a gravação do CD e do DVD ao vivo do Multishow. O repertório mescla hits e sucessos antigos como “Cor de rosa choque”, “Vingativa”, “Mutante”, e as inéditas “Tão” e “Insônia”. Na gravação, “Bwana” teve o refrão trocado para “Obama”. No palco com o filho Beto e o marido Roberto de Carvalho, Rita gravou também o forró “O bode e a cabra”, paródia de “I wanna hold your hand”. “Queríamos gravar, mas a dona Yoko (Ono) sempre vetou. Finalmente a ‘japa’ liberou, então fizemos questão de incluir.”

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