Wilton Junior/Estadão
Coleção. IMS já possui 20 acervos musicais, mas acréscimo do acervo Leon Barg é celebrado pela instituição  Wilton Junior/Estadão

Maior acervo particular de música brasileira de 78 rpm é adquirido pelo IMS

Acervo Leon Barg, reconhecido como a mais importante coleção de música popular brasileira de discos de 78 rotações, passa a ser preservado pelo Instituto Moreira Salles; novo site vai disponibilizar o material

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

28 de julho de 2019 | 03h00

Os esforços de preservação da música popular brasileira no século 20 têm um nome unânime entre pesquisadores e colecionadores: Leon Barg (1930-2009). Radicado em Curitiba na maior parte de sua vida, foi na capital paranaense que Barg reuniu o maior acervo particular de discos de 78 rotações de música popular brasileira do País. São cerca de 31 mil lançamentos das primeiras seis décadas dos 1900 que agora têm nova casa: o Instituto Moreira Salles.

A estimativa do IMS é de que a coleção corresponda a 80% de toda a discografia nacional lançada no período: de artistas célebres como Carmen Miranda e Francisco Alves – a grande paixão musical de Barg – mas também de títulos pouco conhecidos de gravadoras pequenas de todas as regiões do Brasil.

É importante destacar a diferença entre os discos de 78 rotações e os discos de vinil (que funcionam a 33 rotações). Os 78, mais antigos, apesar de tamanho semelhante, eram feitos de outro material (geralmente goma-laca), armazenavam menor tempo de música e foram comercializados em larga escala até a década de 1950, quando o LP se popularizou de vez. Os 78 pegaram também duas fases de gravação musical: a mecânica, de 1902 a 1927 – com sons captados por meio de cornetas, a partir da vibração no ar, e a elétrica, de 1927 a 1964 – já com o uso de microfones. A diferença na qualidade de reprodução é enorme, mesmo nos arquivos já digitalizados.

A coordenadora de música do IMS, Bia Paes Leme, explica que a intenção da entidade é oferecer ao público o maior material para pesquisa possível, e mesmo com os 20 acervos que o instituto abriga atualmente, a discografia ainda estava longe de ser completa – é material de gente como José Ramos Tinhorão e Humberto Franceschi.

“Eles não foram colecionadores preocupados em completar o ‘álbum de figurinhas’”, explica Bia. “Nós entendemos que precisávamos completar o álbum. Ao invés de recortes curatoriais, tentar ampliar ao máximo, porque a música desse período é um patrimônio nacional. Leon Barg era reconhecidamente o maior colecionador do Brasil. Admirado e amigo de todos, tão diligente e dedicado a isso que viajava o Brasil inteiro de carro em busca dos discos.”

O fato de Leon buscar o melhor exemplar de cada lançamento é também um fato importante, lembrado por colegas e especialistas. “Ele trocava comigo, 10 discos por 1, porque a minha versão estava melhor”, conta o pesquisador e colecionador cearense Nirez. “Quem chegou mais perto de completar essa coleção foi ele.” 

Entre as obras mais raras do acervo de Leon Barg, está o primeiro disco gravado pelo “Rei da Voz”, Francisco Alves (com O Pé de Anjo e Fala Meu Louro), lançado em 1920, e a interpretação de Carmen Miranda para o choro Se o Samba É Moda, lançado pelo selo Brunswick.

O compositor, escritor e pesquisador carioca Sandor Buys concorda que o acervo de Barg era o maior de música popular brasileira do período, e ainda atenta para outro fato. “Não existem mais matrizes dessas gravações lançadas em 78 rotações. Muitas gravadoras queimaram para vender a peso de metal. Isso torna as coleções de discos muito importantes, porque é o registro que sobra”, explica. Um dos esforços mais significativos na preservação desse material, diz, foi o do próprio Leon Barg, com a criação da gravadora Revivendo (leia aqui).

Os discos do acervo já foram transportados de Curitiba para a sede do IMS no Rio de Janeiro. As próximas fases englobam higienização, catalogação completa, digitalização das canções e a colocação à disposição de pesquisadores e público – trabalho previsto para iniciar em 2020.

“A operação foi inacreditável”, conta Bia. “Foram três caminhões, os discos foram embalados em caixas de madeira especiais. A transportadora mandou uma equipe de seis homens, e mais três da nossa equipe foram supervisionar. Levamos seis dias para embalar. Eram caminhões novos, com uma suspensão maravilhosa (risos), sem empilhar as caixas. Agora, está aguardando um espaço para começarmos a trabalhar aqui.”

Ela conta que o IMS vai colocar no ar um site chamado Discografia Brasileira. “O site está pronto”, diz Bia. “Vamos colocar no ar o acervo de discos que já temos, mais as digitalizações do Leon”, explica, lembrando que existem sobreposições. “Com a notícia do acervo, acredito que vamos conseguir que outras instituições colaborem, além de pequenos colecionadores. Eu mesma conheço alguns que possuem várias coisas que não temos. A ideia é construir e reunir nesse site o maior acervo de gravações de 78 rotações existente.”

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Gravadora Revivendo, de Leon Barg, teve destaque nos anos 1980 e 90

Empresa comercializava LPs e CDs feitos a partir das gravações originais das canções da primeira metade do século; parte do acervo do colecionador foi adquirido pelo Instituto Moreira Salles

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

28 de julho de 2019 | 03h00

“Leon Barg, o caçador de insucessos” – essa era a manchete do Caderno 2 do dia 16 de novembro de 1988, noticiando o 16.º lançamento da gravadora Revivendo. A empresa criada por Leon Barg em Curitiba no ano anterior pretendia soprar vida no seu rico acervo de música brasileira em 78 rotações, e lançar as canções em formatos mais atuais: primeiro o LP, depois o CD. Na ocasião, cinco discos eram lançados, entre eles Dalva de Oliveira com Roberto Inglez e sua Orquestra, Emilinha Borba, e gravações inéditas em LP de Sônia Carvalho, Mário Reis e Helena Pinto de Carvalho.

“A música brasileira sempre machucou meu coração”, disse Leon Barg ao jornalista Luís Antônio Giron. Desde o momento de criação da gravadora a intenção era, segundo Barg, preservar e divulgar autores e cantores pouco conhecidos do público brasileira, da música do passado. A mesma intenção se mantém nas irmãs Lais e Lilian Barg, que trabalharam com Leon em vida, e agora cuidam da transferência de uma parte do acervo para o Instituto Moreira Salles.

Nascido no Rio em 1930, Barg se mudou ainda criança para o Recife, onde foi enfeitiçado pela voz de Francisco Alves no rádio. O mosquito da música o picou, e a coleção de discos foi algo que o acompanhou a vida toda. Representante comercial, numa de suas viagens conheceu a esposa Eva, em Curitiba, para onde se mudou em 1954. Lá, adquiriu uma tradicional loja de música e no fim dos anos 1980 criou a Revivendo, trabalhos que manteve até o fim da vida em 2009 – ele morreu no mesmo Rio de Janeiro onde nasceu, em uma de suas viagens em busca de discos. A gravadora colocou no mercado mais de 70 LPs e 250 CDs, recuperando digitalmente uma parcela do acervo, e também editou dois livros: Francisco Alves – As Mil Canções do Rei da Voz (1998), de Abel Cardoso Junior, e mais recentemente, o Livro de Partituras: Carnaval (2015), organizado por Lilian a partir da coleção do pai.

Após a morte de Leon, as filhas iniciaram um esforço de preservação que agora culmina na transferência do acervo – houve especulações para distribuir as músicas comercialmente em meio digital, mas o custo financeiro foi um empecilho. Atualmente, a Revivendo atua no mercado de discos usados e ainda comercializa CDs do catálogo.

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O que é um disco 78 rpm?

Os discos eram vendidos sem encartes, motivo pelo qual muitas das informações sobre eles vêm apenas do selo colado ao centro

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

28 de julho de 2019 | 03h00

Todo disco plano feito a partir de 1898 até o fim dos anos 1950, e que rodava a 78 rotações por minuto é chamado de “78”. O material mais comum é a goma-laca e eles comportavam de 3 a 5 minutos de gravação em cada lado.

Os tamanhos comercializados poderiam variar de 25 a 30 centímetros de diâmetro, e os discos eram vendidos sem encartes, motivo pelo qual muitas das informações sobre eles vêm apenas do selo colado ao centro.

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​Evolução: A tecnologia da reprodução e gravação de sons até o LP​

Como as novas invenções permitiram a reprodução de sons gravados ao longo da história

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

28 de julho de 2019 | 03h00

1857 - Fonoautógrafo

O aparelho inventado pelo francês Édouard-Léon Scott de Martinville é a primeira tecnologia de gravação de sons, mas ainda incapaz de reproduzi-los. O objetivo era o estudo visual das ondas, gravadas em papel ou madeira (em formato de cilindro) a partir da vibração sonora do ar.

1877 - Fonógrafo

Thomas Edison e sua equipe inventam o fonógrafo (ao lado), o primeiro aparelho de som capaz de gravar e   reproduzir sons, também a partir de  um cilindro, de estanho, fixo na máquina. 

1886 - Cilindro removível

Quando Alexander Graham Bell e Charles Tainter aprimoram a invenção de Edison e possibilitam a remoção do cilindro dos fonógrafos, a comercialização começa a pegar. Na mesma época, Edison desenvolve o cilindro maciço de cera, garantindo mais durabilidade.

1888 - O disco

O alemão radicado nos EUA Emile Berliner patenteia a criação do disco plano, e seis anos depois os primeiros objetos são comercializados nos EUA, feitos de vulcanite (espécie de borracha). O formato de gravação ainda é primitivo, mas a produção ganha força e volume. 

1910- O 78 rpm

O disco de goma-laca (ao lado) de 78 rotações por minuto se transforma no principal produto de comercialização de sons gravados no mundo. 

1924 - A gravação elétrica

Diversos experimentos ao redor do mundo introduzem a gravação elétrica, com o uso de microfones para ampliação do sinal sonoro. Antes disso, o processo era mecânico.

1948 - O LP e a fita magnética

O disco de vinil de 33 rotações por minuto é introduzido no mercado comum pela Columbia Records. Esse formato substitui em larga escala o 78 até o fim da década de 1950. No mesmo ano, a gravação em fita magnética revoluciona a indústria musical.

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