Tiago Queiroz|Estadão
Tiago Queiroz|Estadão

Mahmundi lança seu 1º álbum recheado de sintetizadores e elementos eletrônicos

Álbum promove catarse saudosista e reforça sonoridade retrô da cantora

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2016 | 05h00

Mahmundi, ou simplesmente Marcela Vale, de 29 anos, chega ao Mirante 9 de Julho, na Bela Vista, em São Paulo, trajando uma camiseta branca ligeiramente amassada. Um pouco atrasada para a entrevista, coloca uma blusa de lã de três cores para se proteger do frio que faz na gélida manhã de terça-feira. Habituada a altas temperaturas, a garota, que nasceu no Rio de Janeiro e mora há apenas 5 meses na capital paulista, ainda tem dificuldades para se locomover na cidade. “Caiu uma árvore na rua da minha casa. Tive de fazer outro caminho. São as surpresas da vida”, diz ela, ainda assustada com a tempestade que devastou a metrópole no dia anterior à entrevista.

Surpresa. Essa talvez seja a palavra que melhor resuma a trajetória musical de Mahmundi. Ela, que acaba de lançar seu primeiro disco de estúdio, o homônimo Mahmundi, e se apresenta no próximo dia 5 de junho no próprio Mirante, onde conversou com a reportagem do Estado, começou sua carreira no Circo Voador, no Rio.

Lá, enquanto trabalhava como técnica de som, conheceu dois produtores de peso: Liminha e Miranda (Carlos Eduardo Miranda, produtor e diretor do selo StereoMono, da Skol). Ambos passaram a dar orientações musicais para a garota que queria sair do backstage e ir para a frente dos palcos. “Foi uma escola, aprendi muita coisa. Mas pretendia gravar minhas músicas, fazer shows. Um belo dia pedi demissão. Ninguém acreditou quando isso aconteceu. Foi de um dia para o outro”, lembra ela.

A artista fazia trabalho braçal, na maioria das vezes. Enrolava cabo, carregava caixas e montava palco. Justamente por isso, ouvia muitas críticas. “Alguns me diziam que aquilo era trabalho para homem. O maior preconceito, por incrível que pareça, vinha das próprias mulheres. Elas me questionavam se aquilo era coisa para uma garota fazer”, revela. “Quem é o responsável pelo espetáculo?”, perguntavam. Respondia em alto e bom som: “Eu, senhora. Por quê?”, complementa.

Baterista de ofício, Mahmundi se apaixonou por Phil Collins aos “vinte e poucos anos”. O hitmaker britânico multi-instrumentista foi a grande inspiração para que ela assumisse as baquetas e tocasse, inclusive, na banda da igreja. Posteriormente, passou a cantar e a tocar violão. 

O pai chegou a jogar fora discos e mais discos do Kraftwerk, Led Zeppelin e vários outros grupos dos anos 1980. “A igreja foi importante, mas minha formação não vem só daí, como muitos falam. Meu pai se converteu e, com isso, os hábitos musicais da família também mudaram”, conta ela.

Todos esses elementos são cruciais para entender a breve, porém intensa trajetória e sonoridade de Mahmundi. A garota synthpop e r&b, vencedora do prêmio de Nova Canção do Multishow em 2014 pelo sucesso Sentimento, é forte candidata a nome da música em 2016. “Conversava com Emicida sobre isso há três semanas. Não quero parecer pretensiosa, mas a gente trabalha tanto que o resultado não assusta, não. É uma consequência pelo tanto que trabalhamos, sabe?”

Com um álbum recheado de sintetizadores e elementos eletrônicos, o primeiro trabalho de Mahmundi, lançado pelo selo Skol, foi composto e produzido por ela mesma, embora Miranda tenha dado alguns pitacos e coordenadas para ajudá-la. “Eu e Miranda temos uma ótima relação, mas as pessoas se enganam quando dizem que ele me produziu. Não foi bem assim”, afirma.

As 10 faixas que compõem o trabalho são impactantes e mostram uma voz potente e madura. Diante disso, não demorou muito para que surgissem as primeiras comparações. A primeira da lista foi a cantora Marina Lima. “Todo mundo, na verdade, me fala isso. Eu particularmente não me importo. Acho até bom ser comparada a ela, alguém que admiro tanto.”

Intensidade sonora. Mahmundi começa o disco com a emblemática Hit e termina ao som da potente Sentimento. As canções são pops, de letras fáceis e virtuosas, como há tempos não se via na voz de nenhuma outra cantora nacional. Toda a veia poética da cantora fica evidente na faixa Azul, que ganha tons dramáticos e, ao mesmo tempo, serenos na voz da jovem carioca.

Se Céu encantou com Tropix e Fernanda Abreu, após 10 anos sem lançar nada, se revigorou ao som de Amor Geral, Mahmundi se destaca pelas referências dos anos 1980. A MPB nacional nunca esteve tão forte e bem representada pelo gênero feminino. “Houve uma melhora, mas ainda está longe do ideal. Acho que podemos promover uma mudança nisso aí. Nina Simone, Rita Lee e Elis são minhas grandes referências nos palcos. Grandes mulheres e artistas.”

A cantora gravou seu primeiro EP em 2012. Efeito das Cores era “amador”, confessa ela, mas serviu de base para o que viria posteriormente em seu primeiro disco de estúdio, algo mais consolidado. “Passo muitas horas em casa estudando música e buscando timbres diferentes. Acho que a música faz parte da minha essência”, diz.

Em 2013, veio o segundo EP, Setembro. Mais maduro, sua produção explora um território marcado pelo R&B e o soul. Desta vez, entretanto, há também nítidas referências dos anos 1990, que movimentam batidas, sintetizadores e até mesmo as vozes em efeitos de transformação. Vem, Leve, Quase Sem Querer, Arpoador e Prelúdio quase que transportam o ouvinte para um Rio de Janeiro filtrado pela saudade. “Gosto de São Paulo. É uma cidade culturalmente muito rica. Tem sempre alguma coisa para fazer, um show para assistir. O leque de opções é bem grande nas duas cidades, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo”, conclui.

MAHMUNDI

Mirante 9 de Julho. Rua Carlos Comenale, s/nº, Bela Vista. Dom., 5 de junho, às 16h30. Grátis. 

 

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