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Mahmundi lança álbum orgânico e solar sobre o convívio

Depois de dois discos centrados nas programações eletrônicas, cantora ressurge com banda para um trabalho conceituado nas canções

Julio Maria, O estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 05h00

A cantora Mahmundi se lançou no mundo dos álbuns em 2016 depois de dois EPs promissores, com um disco que buscava suas referências nos anos 80. Um projeto de bases eletrônicas feito com computador emprestado e fluido nos caminhos de uma intuição que dizia muito do que pensava e a seu jeito. Dois anos depois, já fazendo algumas passagens para a canção menos dura, falou de amor em Para Dias Ruins, quando o mundo ardia em ódios de classe e universais e os cantores precisavam empunhar suas armas para serem, inclusive, cantores. Agora, em um 2020 distópico, com boa parte da população sentindo os sinais emocionais de um distanciamento social de quase 70 dias e sem prazo de terminar, Mahmundi volta falando dos poderes do encontro com Mundo Novo, seu terceiro álbum, feito antes de o planeta fechar para descontaminação.

Mundo Novo tem primeiro o espírito dos álbuns do mundo antigo: são as pessoas, e não as programações, que tocam os instrumentos, lado a lado, sem máscaras de proteção de identidade nem álcool em gel. Pela primeira vez, Mahmundi criou uma banda e chamou um músico, Frederico Heliodoro, para entender seus pensamentos, compor arranjos com intenções muitas vezes transpostas da música instrumental e funcionar como um eficiente coprodutor.

As composições ganharam a brevidade da vida das canções que talvez Mahmundi buscasse desde o início e as letras, em vez de traduzirem a alma desprotegida dos confinados, trazem sensações que os dias de quarentena podem estar anestesiando: um amor, simples ou complexo, entre duas pessoas. Assim, parece soar tão necessário hoje ouvir algo como “eu me conheço mais olhando pra você” ou “em você eu tenho o que faltava em mim / e descubro o que tenho de melhor pra te oferecer”, de Convívio, quanto os hinos de solidão desolada que começam a brotar de lives e de discos feitos em regime de confinamento.

São sete músicas curtas, sendo apenas uma delas, No Coração da Escuridão, uma regravação da original feita por Jorge Mautner e pelo baixista Dadi. Sem Medo, a primeira a sair pelas redes, é um reggae soul assumidamente pop, com frases dizendo que “tudo é pra aprender, tudo é pra evoluir.” Em outro campo, Nós de Fronte é uma balada “djavanista”, não nos tempos mas na aura, com todo o tremor que Mahmundi sente quando aproximam seu nome do de Djavan, dizendo que “mesmo num mundo doente, temos uma fome gigante de viver.” 

Nova, outra balada pop, hit de rádio fácil e certeiro do mundo velho dos anos 80 de onde Mahmundi saiu, com a suavidade de uma tarde de outono na sacada de um prédio de 2020. “A vida é tão franca e tão cheia de mistérios”, ela diz na canção. “Vai ver você não viu ainda, vai ver você fica muito tempo nessa nova TV.” Vai, composta por Frederico Heliodoro e produzida por Davi Moraes , pede apenas que o outro vá, que abra um sorriso e vá. E é a voz de seu parceiro coautor em algumas canções, Paulo Nazareth, que abre o disco em uma faixa curta de um áudio dizendo que “somos plurais, o convívio é a nossa condição... Quem só te imaginava à distância pode te conhecer mais de perto... E é assim que a gente conhece a gente mesmo”. Mais uma vez, uma prática de aproximação que parece cada vez mais tão distante.

Mahmundi, nome artístico de Marcela Vale desde que tudo começou a dar certo, nasceu e se tornou cria de Marechal Hermes, na Baixada Fluminense. Ela foi técnica de som por anos em lugares como o Circo Voador, na Lapa, até pular para o outro lado do balcão. Sua música não é o depósito de sua história, ou ao menos não a de toda, e quem a ouve, como já aconteceu, pode querer cobrá-la de uma postura militante mais escancarada. Sobre essa espécie de pedágio artístico que se tornou o engajamento verbal mesmo de quem se engaja de outras formas, ela diz o seguinte: “Eu já tive casa assaltada, arma apontada pra minha cabeça três vezes, meu irmão é policial, meu pai é mecânico, minha mãe é professora e eu sou uma artista. Eu fui aprendendo e estou aprendendo sobre militância com o tempo, começando a entender melhor sobre tudo isso.” 

Ao mesmo tempo que reconhece todas as legitimidades das causas sociais, Mahmundi diz que acha pouco resumir um artista a elas. Gritar por direitos e fazer afirmações pode ser um ato vivo também em um disco feito na garra ou em uma singela canção de amor. “Eu quero ser quem eu sou, eu quero ser uma artista.”

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