Wilton Júnior / Estadão
Wilton Júnior / Estadão

Maestro Arthur Verocai encontra o seu tempo e prepara novo disco

Arranjador lançou um álbum clássico em 1972, redescoberto somente anos depois

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2016 | 03h00

É julho de 2016 e, em uma movimentada loja de discos de Londres, a voz disparada pelas caixas de som posicionadas nos cantos do espaço canta em português. Situada em um bairro moderninho da capital inglesa, a Rough Trade – loja física do todo descolado selo de mesmo nome – colocava para girar uma reedição do primeiro e praticamente ignorado disco do maestro e arranjador carioca Arthur Verocai. É o disco de 1972, o primeiro dele, que faz balançar a cabeça daqueles jovens ingleses de bigodes, bonés, cabelos coloridos e calças que terminavam na altura das canelas. 

Voltamos no tempo, para 1972. Arthur Verocai, o álbum, sai pela gravadora Continental sem qualquer trabalho de divulgação. “O disco, simplesmente, foi para as lojas”, explica o arranjador, hoje aos 71 anos. Algumas canções do trabalho, como Caboclo, Dona das Meninas e Na Boca do Sol, até chegaram a tocar em rádios cariocas, mas sempre nos horários mais infelizes. “Minhas músicas tocavam de madrugada”, ri o maestro. 

O bom humor tem, entre outras razões, a viabilização de um novo disco. O quarto álbum de Verocai sairá até o fim deste ano, pelo Selo Sesc, e promete manter a essência de fusão de gêneros – jazz, soul, samba, bossa nova – com a delicadeza pura dos arranjos de metais e cordas que transformaram o álbum de estreia em uma relíquia que pode ser encontrada por R$ 1 mil. 

Verocai conversa com o Estado antes de voltar ao Studio Aurea, no Jardim Botânico. Está em pleno processo de mixagem das 10 canções que vão compor o trabalho. O título, contudo, ainda é dúvida. “É a parte mais difícil”, brinca Verocai. “O título e a capa.” A diversidade dos gêneros presente no trabalho sugere um título que remeta a “eclético”, como conta o maestro, mas nada ainda está definido, ele garante. 

A banda central coordenada por Verocai no trabalho tem nomes que figuravam já na ficha técnica do álbum lançado há 34 anos. O trio Serginho Trombone (trombone, obviamente) Luiz Alves (baixo) e Robertinho da Silva (bateria e percussão) o acompanhou daquela vez. Eles estão acompanhados por Ivan Miguel Conti Maranhão “Mamão” (bateria) e Alex Malheiros (baixo), ambos do Azymuth, Itamar Assiere Valente Junior (piano e rhodes) e Ricardo Verocai (piano), filho de Verocai. Nas vozes, as participações incluem nomes contemporâneos, tal qual Criolo, Seu Jorge e Mano Brown – esse último, conta o maestro, canta em vez de versar. Danilo Caymmi também participa do álbum. O novo disco reergue a carreira de Verocai, que tem entre seus trabalhos recentes os arranjos delgados que abraçam as canções de amor do disco de estreia de Marcelo Jeneci, Feito Pra Acabar, de 2011. E redime a própria injustiça sofrida à época. 

O baque, de tão grande, fez com que Verocai desistisse da música – em partes. Passou a aceitar trabalhos em publicidade. E, vez ou outra, gravava com algum artista que usava seu estúdio. O retorno ao hábitat só se deu 40 anos depois, com o álbum Saudade Demais – título, aliás, que parece dizer muito sobre a distância da criação musical. Veio, então, Encore, pelo selo inglês Far Out, em 2008. Era o começo do redescobrimento. 

E, como um aglutinador de musicalidades, o maestro foi redescoberto justamente por aqueles que fazem da mistura a sua base para os versos. Arthur Verocai, o disco, se encontrou com o hip-hop e se encaixaram. São aproximadamente 30 samples (ou seja, trechos) de músicas de Verocai usados por nomes como Ludacris, Curren$y, Little Brother, Mad Skillz, entre tantos outros. Em 2009, a prestigiosa revista de jazz nova-iorquina Wax Poetics publicou um perfil de Verocai cujo título desvendava o mistério em torno do insucesso do seu disco: Man Out of Time, ou “homem fora do seu tempo”. Enfim, em 2016, Verocai encontrou o tempo ao qual pertence. 

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