Maestro argentino Daniel Barenboim é acusado de bullying

Maestro argentino Daniel Barenboim é acusado de bullying

Segundo denúncias, maestro pode ser inspirador, mas também assustador

Alex Marshall / Christopher F. Schuetze  , The New York Times

27 de fevereiro de 2019 | 03h00

Daniel Barenboim, um dos maestros mais famosos do mundo, é conhecido por fazer o que quer. Ele fundou uma orquestra (o West-Eastern Divan, um grupo jovem de músicos de todo o Oriente Médio), um conservatório (o Barenboim-Said Akademie) e uma sala de concertos (o Pierre Boulez Saal).

Em 2001, ele rompeu com uma proibição informal de longa data em Israel e conduziu uma peça de Richard Wagner, um antissemita amado pelos nazistas. Ele costuma dar o tipo de declarações políticas que a maioria dos músicos evita.

Barenboim, de 76 anos, é considerado há muito tempo intocável em Berlim, onde é diretor musical da Staatsoper – a principal casa de ópera da cidade – e regente principal da orquestra, a Staatskapelle. Ele se relaciona com políticos da cidade e usou sua influência para garantir que a companhia de ópera receba o saudável subsídio anual de 50,4 milhões de euros (cerca de US$ 57,4 milhões) do governo de Berlim.

Mas começaram a surgir fissuras na imagem do maestro, pois Barenboim foi acusado de intimidar e humilhar os membros da Staatskapelle. As acusações foram divulgadas em todos meios alemães de comunicação e houve pedidos de intervenção dos políticos.

Um porta-voz de Klaus Lederer, a principal autoridade na área de cultura de Berlim, cujo departamento fornece a maior parte do financiamento da Staatsoper, disse que Lederer pediu à companhia de ópera que indique um terceiro para investigar o assunto.

Barenboim rejeitou as acusações. “Nasci na Argentina, então há um pouco de sangue latino no meu corpo e fico aborrecido de vez em quando”, disse ele à RBB, uma emissora alemã.

Em uma troca de e-mails com The Times, ele negou ter intimidado alguém. “Praticar o bullying é humilhar alguém e implica a intenção de querer causar mal a alguém, de até mesmo ter prazer nisso. Isso não está no meu caráter.”

Willi Hilgers, que tocou tímpano na Staatskapelle, afirmou no Facebook que Barenboim repetidamente o humilhou na frente dos colegas. Como resultado, ele disse que sofreu “de pressão alta; depressão; de insegurança sobre sua capacidade de tocar tímpano”. 

Barenboim garantiu que as acusações são parte de campanha para impedi-lo de continuar como diretor musical da Staatsoper. “O fato de essas acusações terem surgido agora, exatamente quando estou em negociações para renovar meu contrato além de 2022, me faz pensar se as pessoas realmente foram agredidas, como dizem ter sido, por que falar sobre isso agora, neste exato momento?”, explicou o regente.

“Em certos momentos tensos usei um tom áspero do qual me arrependi. Mas isso foi tudo. Não sou um cordeiro tímido, mas também não sou prepotente.”

As acusações contra Barenboim surgiram em fevereiro na VAN, revista online de música clássica, que entrevistou mais de uma dúzia de funcionários atuais e antigos da Staatsoper, citando-os anonimamente. O artigo descreve um líder “que pode ser inspirador e generoso, mas também autoritário, imprevisível e assustador”.

Hilgers, de 56 anos, afirmou pelo Facebook que seus problemas com Barenboim começaram na temporada da Staatsoper em 2001-02, em uma apresentação de Götterdämmerung, de Wagner. No primeiro intervalo, Hilgers lembrou ter dito a Barenboim que estava com enxaqueca, deixando o maestro ciente, caso perdesse a concentração.

No ato seguinte, Barenboim iria bater o ritmo dos solos dos tímpanos com uma mão e um pé, como se estivesse instruindo uma criança, levando Hilgers a se sentir humilhado. Barenboim disse em um e-mail: “O tocador de tímpano que você mencionou tinha um belo som e belos timbres, mas tinha uma debilidade rítmica.” Barenboim admitiu ter “algumas divergências com Hilgers”.

Leo Siberski, de 49 anos, é agora o diretor musical do Teatro Plauen-Zwickau, na Alemanha, e tocou trompete na Staatskapelle sob Barenboim de 1992 a 2003. Ele testemunhou explosões de Barenboim com os músicos e começou a vivenciá-las após pedir a ele um ano sabático, em 1996.

Siberski contou ter pedido demissão como o principal trompete da orquestra para “sair da linha de fogo”. Agora, ele próprio um maestro, ele disse ter adotado uma abordagem diferente com os músicos com os quais trabalha. “Há um enorme abismo entre a dor de músculos cansados e feridas emocionais profundas, causadas por ataques à dignidade.”

Barenboim admitiu que o mundo está mudando. “Mas uma orquestra não pode funcionar se o tempo todo sua dinâmica for colocada em votação democrática. Alguém tem de liderar, tomar decisões e ser o responsável final.” / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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