Michael Latz/Divulgação
Michael Latz/Divulgação

Maestro alemão interpreta Bach hoje no Teatro Municipal

Helmuth Rilling faz mais uma turnê da Academia Bach Stuttgart, conjunto criado por ele nos anos 60

João Luiz Sampaio - O Estado de S.Paulo,

07 de maio de 2012 | 10h01

O maestro alemão Helmuth Rilling não pensa duas vezes. Qual a importância da Missa em Si Menor? “É um legado precioso deixado por Bach para a humanidade”, ele responde sem hesitar. “São obras como essa que nos fazem lembrar como a música pode promover o diálogo entre os seres humanos.” Rilling já gravou a peça cinco vezes. Em quantidade e qualidade, tem lugar garantido entre os principais intérpretes da obra do compositor: em apenas quinze anos, gravou toda a sua obra vocal, num total de 172 discos. Não que ele se incomode com a pecha de especialista. Mas faz questão de ressaltar, definindo seu credo de artista: o sentido do trabalho do músico é a reinvenção constante. “Em muitos sentidos, minha relação com essa música mudou muito. E continua a se transformar.”

Rilling desembarcou no fim de semana em São Paulo. Aos 78 anos, encara mais uma turnê da Academia Bach Stuttgart, conjunto criado por ele nos anos 60. Vindos da Colômbia, eles vão interpretar a Missa em Si Menor hoje no Teatro Municipal. É a última obra de Bach. Uma síntese de sua criação - tão mítica quanto a própria trajetória de seu autor. O compositor Johannes Brahms, por exemplo, dizia nunca ter ouvido algo tão “grandioso e sublime”. “Custa-me a acreditar que algo assim tão sublime e tocante possa ter sido obra de um homem”, escreveu a um amigo após uma apresentação da peça.

Rilling concorda. “É particularmente interessante que, mesmo que Bach faça uso de trechos de outras peças de sua trajetória ao escrever a Missa, ele atinja aqui um todo coeso e coerente, que demonstra claramente sua evolução como compositor. No início de sua trajetória, Bach está muito próximo da tradição da música litúrgica barroca. Com o tempo, no entanto, em especial depois que começa a escrever concertos, ele ganha uma nova estatura.” Essa evolução fica clara, segundo Rilling, a partir de uma análise de suas cantatas. “Bach escreveu cerca de 300 cantatas, das quais conhecemos pouco mais de 200, uma vez que as demais se perderam. Ter gravado todas elas, podendo observá-las em conjunto, foi uma experiência fascinante. Como músico, é interessante ver de perto um compositor como Bach trabalhando no seu cotidiano, peça após peça, vislumbrando seu processo criativo.”

Ex-aluno de Leonard Bernstein em Nova York, Rilling conta que sua relação com a música de Bach vem da infância. “Nasci em uma família de ministros luteranos. Por conta disso, desde a infância a música litúrgica, sacra, foi parte importante de minha vida. E isso significa, claro, uma relação especial com Bach.” E quando diz que essa relação está se reinventado constantemente, a que se refere Rilling? “Depois de tocar uma obra como a Missa centenas de vezes, você muda, aprende, fica mais experiente. Mas mesmo depois de todo esse tempo, percebo que me transformo às vezes de um concerto para o outro. Cada apresentação que você faz de uma peça precisa ser nova. Você precisa tentar fazer coisas que nunca experimentou. E isso diz respeito tanto a pequenos detalhes da obra como também à sua arquitetura geral.” A arquitetura, diz Rilling, é fundamental. “Qual o peso de cada movimento da Missa? Como ele se relaciona com os demais - e com o todo?”.

Para o ano 2000, quando foram lembrados os 250 anos de morte do compositor, Rilling encomendou ao argentino Osvaldo Golijov uma nova obra que evocasse o universo bachiano, A Paixão Segundo São Marcos. Da mesma forma, a Academia Bach de Stuttgart tem se aberto à experimentação com peças inéditas. Para o maestro, trata-se da necessidade de pensar nos ecos que a obra de Bach tem em nosso tempo. Nas últimas décadas, o movimento da música historicamente informada buscou aproximar nossa interpretação do modo como as obras eram interpretadas na época do compositor. Com isso, lembra Rilling, aumentou a compreensão que temos do momento em que ele viveu, das questões que o preocupavam em especial. “Mas insisto que cada época precisa desenvolver sua relação com essas grandes obras. E uma das marcas de nosso tempo é justamente a multiplicidade. Há muitas maneiras de se fazer Bach hoje, desde a utilização de instrumentos de época à manutenção de sua música no repertório de orquestras tradicionais. Vivemos uma realidade bastante rica. Não há por que brigar com isso.”

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