Madura, Ana Cañas rencontra-se com a música

Cantora lança seu primeiro DVD após sete anos de carreira

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

10 de dezembro de 2013 | 20h25

Em 2007, a paulistana Ana Cañas lançou seu primeiro disco, intitulado Amor e Caos. O álbum – que, hoje, tem canções consideradas bobas pela cantora e compositora – surgiu de uma vontade de sair do universo dos bares, da noite, e se lançar de vez no mercado. Depois da estreia, vieram Hein? (2009) e Volta (2012). O DVD, no entanto, demorou um pouco mais: Ana lança, esta semana, Coração Inevitável, trabalho em que registra show dirigido por Ney Matogrosso.

 

 

“Foi um momento em que senti que valia a pena ter um DVD. Pela minha autocrítica, eu sabia que não estava pronta antes. Todos sabiam. Nunca tinha rolado um papo na Sony (sua antiga gravadora) sobre um DVD”, diz Ana. Segundo ela, tudo estava alinhado: havia uma sintonia com as ideias da diretora de vídeo Vera Egito, Ney aceitou dirigir o show, a gravadora queria e o empresário topou.

Gravado em maio no teatro Geo (hoje Complexo Ohtake Cultural), o espetáculo não é exatamente aquele comandado por Ney, que estreou no ano passado. Algumas mudanças foram feitas, principalmente em função de Nando Reis, convidado por Ana a participar da gravação. “Acabei deslocando Pra Você Guardei o Amor e, como o repertório é um esqueleto, naturalmente, mudei a inter-relação das músicas”, explica. Juntos, eles também cantam Você Bordado, composta por ambos. A set list tem, ainda, a inédita Traidor e a ultrapop Te Ver Feliz.

Entre as 22 músicas do show, 13 são assinadas por Ana, sozinha ou com parceiros. As restantes são regravações de grandes nomes como Chico Buarque e Tom Jobim (Retrato em Branco e Preto), Caetano Veloso (Escândalo) e Edith Piaf (La Vie en Rose). Para ela, esse equilíbrio é importante. “Cantar as minhas composições mais recentes me deixa confortável e é uma felicidade ver o público cantando. Já a possibilidade de cantar um Cazuza, por exemplo, me dá outros contextos”, diz, citando a frase “Somos iguais em desgraça”, de Blues da Piedade. “Como cantar isso? Tenho que acreditar, quase viver isso quando interpreto.”

Foi Cazuza, aliás, quem juntou Ana e Ney. Nos shows de Amor e Caos, ela cantava Carente Profissional, o que a levou a gravar, em 2008, o programa Som Brasil Cazuza, da Globo. Em outra ocasião, Ney a chamou para conversar. “Ele falou: ‘Escuta, esse negócio da bebida, você vai mesmo jogar o seu talento fora para privilegiar uma coisa que não te acrescenta praticamente nada?’”, lembra a cantora.

O puxão de orelha ocorreu em uma época em que Ana abusou do álcool, o que acabou transparecendo em suas apresentações. “A fama que me chegava era essa”, lembra Ney. “Falei sem moralismo, acho que a gente tem o direito de querer acabar alcoólatra, é uma opção. Só me questionei o porquê de ela fazer isso, se tem tanto talento.” A indagação surtiu efeito. Ana – que diz ter começado a beber para entender o pai, que morreu alcoólatra – se reencontrou musicalmente.

Para Ana, trabalhar com Ney foi sutil. “Ele não é incisivo, sempre responde com outra pergunta. ‘O que você...? Como você...?’ Ele faz com que, pelo próprio raciocínio, você atinja o que quer.” Ney partiu do repertório de Volta e pediu para que Ana tirasse as faixas mais pop e acrescentasse o que ela quisesse cantar. Ela fez questão de três músicas: Escândalo, Blues da Piedade e Retrato em Branco e Preto. O resultado é um espetáculo morno, apesar de, em muitas cenas, sensual. Apenas dois takes mostram o público, com quem Ana interage pouco. A ausência de reações da plateia dá ares de “show de estúdio”.

Ana canta em quatro idiomas. O espanhol aparece em No Quiero Tus Besos, que compôs com a mexicana Natalia Lafourcade. O inglês vem no jazz Stormy Weather, de Harold Arlen e Ted Koehler, e em Rock and Roll, do Led Zeppelin. E o francês está em La Vie en Rose e em L’Amour, da própria Ana. “Não falo francês. Joguei minhas poesias no Google Translate".

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