Madredeus apresenta novo repertório

Pedro Ayres Magalhães, violonista e compositor do grupo lisboeta Madredeus, deu muita risada quando viu, na trilha sonora do filme Amor Cego _ comedinha rasa hollywoodiana com Gwyneth Paltrow _, uma canção do seu conjunto, Oxalá. "Como é que eles, lá em Los Angeles, chegaram a essa música tão remota, tão fora dos seus padrões?", diverte-se.Mas o fato é que o Madredeus nunca foi tão globalizado. Desde que lançaram o primeiro disco, há 18 anos (Os Dias da Madredeus, gravado na igreja do Convento de Xabregas e lançado em 1987), eles venderam meio milhão de cópias de cada um dos seus cinco discos em 30 países mundo afora. E conquistaram as multidões.Exemplo disso é que seus shows agendados em São Paulo, no Teatro Alfa, desta sexta-feira até domingo, ficaram lotados e foi necessário abrir uma apresentação extra, na segunda-feira, às 21h. O grupo traz ao Brasil um espetáculo inédito, batizado de Movimento, título também de seu álbum mais recente pela EMI."Nosso primeiro disco tinha uma carga de juventude, de naivité, um sopro de pureza", avalia Pedro Ayres, medindo as duas pontas da existência do Madredeus. "Este disco agora nós estamos considerando como uma consagração do nosso trabalho, uma obra que tem mais movimento, é mais complexa, estamos mais afinados", afirma o compositor, que também define este como "o melhor" e "o trabalho mais ambicioso" do seu grupo.Principal nome internacional da música portuguesa, o grupo ganhou essa projeção mundial quando foi convidado para compor a trilha sonora para O Céu de Lisboa, filme de Wim Wenders, em 1995. Compuseram e gravaram Ainda. "Àquela altura, nós estávamos pesquisando em estúdio para um novo disco, e o filme de Wenders nem sequer tinha roteiro, foi inteiramente desenvolvido com a música", lembra Magalhães. "O filme foi importante para nós, nos deu reputação, projeção", considera.Mas o caso de amor instantâneo com o Brasil é anterior. O Madredeus veio pela primeira vez ao Brasil em 1994, para apresentações no Teatro Municipal de São Paulo, durante o Festival Internacional de Teatro de Ruth Escobar, conterrânea do grupo _ ela os tinha ouvido em Paris. "Na época, estávamos lançado o álbum de 1994, O Espírito da Paz", lembra Magalhães.Fizeram tanto sucesso que também forçaram um espetáculo extra, para mais de mil pessoas na Casa de Portugal, e um show no Parque do Ibirapuera para 30 mil pessoas.O grupo ainda emplacou cinco músicas na trilha sonora da minissérie Os Maias (que Pedro Ayres lamenta ainda não ter visto) e voltou ao Brasil em 1999 e em 2000. Neste ano, fez shows com Gal Costa, no projeto Pão Music, do grupo Pão de Açúcar, em shows abertos em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e Belém do Pará. No Ibirapuera, dessa vez, foram cerca de 90 mil pessoas vê-los. Formado pela diva Teresa Salgueiro e mais Pedro Ayres (violão clássico), José Peixoto (violão clássico), Carlos Maria Trindade (sintetizadores) e Fernando Júdice (baixo acústico), o Madredeus sofreu alterações na sua formação original.Saíram Rodrigo Leão, Gabriel Gomes e Francisco Ribeiro _ e, junto com eles, o acordeão e o violoncelo que davam um certo clima ibérico ao som do grupo. Pedro Ayres Magalhães discorda veementemente que o grupo tenha perdido essa "pegada". "Nunca fui tão ibérico quanto agora, com os dois violões e as fantasias para guitarra e voz", pondera."Um empresário do show business chegou a sugerir que convidássemos outros dois músicos só porque tocavam aqueles instrumentos", conta Magalhães. "Mas nós dissemos: não, meu amigo! Eles eram músicos, mas também eram antes de tudo amigos, nos dávamos bem, não vamos substituí-los como se fossem números."Pedro Ayres é um sujeito de opiniões francas. "Há uma grande desorganização na indústria do show biz no Brasil", ele afirma. A turnê do Madredeus, que os empresários tiveram tempo de sobra para preparar, acabou ficando cheia de improvisações.Recentemente, o Madredeus recusou convite para participar de uma superprodução cinematográfica (a produção também os queria atuando), o filme Luthero, sobre o líder protestante. "O grupo se dedica a fazer música ao vivo, desenvolvendo concertos e repertório, e isso nos tomaria muito tempo", considera o compositor.No entanto, não se furtaram a participar de uma gravação sinfônica com a orquestra estatal da Rádio Flandres, da Bélgica, que se dedica ao repertório contemporâneo. "Há um ano e meio, estávamos em Antuérpia fazendo um concerto e recebemos esse convite", recorda-se o músico. Eles convidaram então o compositor, arranjador e maestro português António Victorino de Almeida (que vem a ser o pai da atriz e diretora Maria de Medeiros) para trabalhar com o grupo.Madredeus já tinha relações com a família de Almeida _ fizeram música, no álbum As Brumas do Futuro (EMI) para o filme Capitães de Abril, de Maria de Medeiros. Então, em abril, com os arranjos do pai de Maria, eles foram a Bruges, a Veneza belga, e, com a orquestra de Flandres, gravaram um disco com 25 canções, ao vivo, que será lançado no dia 20 de outubro. Além do álbum, que Pedro Ayres prevê tornar-se "o mais popular do Madredeus", gravaram também um DVD, com músicas no sistema surround.

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