Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Madonna faz show 'cabeça', com digressões étnicas e pegada mais roqueira

Cantora limou os excessos e centrou no virtuosismo de seus bailarinos e de si mesma como performer

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2012 | 20h11

Pense, dance, pense. O show MDNA é do tipo “cabeça”, com pretensões reflexivas, com digressões étnicas, e isso pode ser um porre em certas alturas do espetáculo. Afinal, sempre se espera de Madonna um arrastão de dancefloor, um tobogã de mundanidade e liberação. Ela faz a sua parte, mas não é só o que tem ali.

A parte Leste Europeu, por exemplo (com Madonna requentando sua alma cigana do tempo de La Isla Bonita com um set que tem o apoio tático do Kalakan Trio. Ela canta com eles Open Your Heart, cercada de “rebeldes” antifranquistas, como se estivesse em volta de uma fogueira. É uma visão um tanto quanto enfadonha e turística da cultura do País Basco e da Espanha mítica das Carmens - visão que turva até o intelecto de um Woody Allen, por exemplo. 

Madonna dança em cima de um trem que atravessa uma Índia cenográfica, um trem para Darjeeling que só penetra na butique dos brâmanes, nunca na essência espiritual. Bom, mas é Madonna, seria querer demais profundidade.

O show tem uma pegada roqueira mais forte - e espero que os roqueiros não me queiram mal por dizer isso. É mais soturno, dark, até mais opressivo em alguns momentos. Labaredas e homens-gárgulas, torturas e execuções. Não é um passeio no sedã rosa da Penélope Charmosa.

Há artesanato e há merchandising no show (do esforço vocal real aos tênis Adidas dos clowns). A cantora definiu o concerto, mais conceitual, como “a jornada de uma alma de dentro da escuridão para a luz”, analisando o fato de que, em cena, está escaramuçando sua própria maturidade - o ponto alto é quando ela canta Like a Virgin no centro de tudo, em versão acústica, acompanhada apenas de um piano.

Ainda assim, é uma maturidade um tanto quanto mimada. Madonna ainda se irrita com as rivais que surgem postulando seu lugar de Rainha do Pop, como Lady Gaga, e responde a ela duas vezes. “Só existe uma rainha dance, e é Madonna”, afirma Nicki Minaj, no telão. O sistema de projeções e elevadores é revolucionário, em termos técnicos. Nada igual foi feito antes com essa excelência técnica.

Para estabelecer uma diferença entre o show de Madonna e o de Lady Gaga: ambos são muito bons, mas Gaga ainda é muito Broadway, muito pesada e barroca. Madonna limou os excessos, tirou as tralhas da frente, centrou no virtuosismo de seus bailarinos e de si mesma como performer. Gaga evita menos os erros, Madonna tem medo de errar. Ambas vitaminaram seu som com uma batida fenomenal, muito difícil de ser encontrada em outro lugar que não seja seus megashows.

O show começa com um banho de sangue e termina com uma celebração. O telão exibe cenas em um cemitério, detendo-se em palavras-chave colhidas em lápides: imortalidade, memória, esperança, fé, morte. E termina com um manifesto: “O amor está acima de tudo”. O amor pelo pop é eterno, eis porque Madonna pode alugar seus fãs com suas digressões de superestrela cadente. E o que é melhor: ela ainda está em movimento, e para a frente.

COTAÇÃO: Ótimo

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