Reprodução Facebook
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Madonna fala consigo mesma em novo disco

Faixas já liberadas de ‘Rebel Heart’ abordam ritmos como rap e dubstep e temas como a seita Illuminati e a rivalidade

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

23 Dezembro 2014 | 14h52

Madonna teve razão em liberar seis faixas de seu próximo disco, Rebel Heart. As versões que “vazaram” há alguns dias eram realmente faixas de trabalho precárias, e há abismos entre algumas delas e o disco finalizado – Devil Pray, por exemplo, é definitivamente uma outra música no álbum oficial.

As seis canções (uma sétima vazou na segunda, 22) mostram uma capacidade inacreditável de se autorreciclar infinitamente, o que não é absolutamente uma novidade no caso de Madonna. A própria capa do álbum é uma citação do disco Erotica, de 1992, clássico de Madonna. 

A canção Ghosttown, por exemplo, é a baladona retrô do lote. Romântica até a medula, é uma reafirmação de que Madonna acredita na vida compartilhada, no amor que permanece quando tudo o mais desaba. Os climões de teclado ao final, só teclado e voz, parecem evocar a fase mais ingênua e de heroína pop da cantora, tipo Live to Tell. Mas é só uma das facetas.

Iniciando com um dedilhado de violão, Devil Pray (cuja letra traz Madonna de novo desfibrilando sua noção de pecado e blasfêmia, uma oração para a Virgem Maria) tem aquela abertura meio aflamencada que lembra La Isla Bonita, por exemplo, mas é um pouquinho mais envenenada. Também lembra Don’t Tell Me, do álbum Music. Por outro lado, tem um sabor meio clássico de House of Rising Sun, uma coisa meio western.

A primeira faixa, Living for Love (que foi o single mais ouvido esta semana e colocou Madonna de novo no topo das paradas), é prova de que ela bebeu na própria fonte, emulando canções como Express Yourself e Like a Prayer, com um pianão de R&B tingindo um vocal soul-gospel.

A batida reggae de Unapologetic Bitch dá um toque de “dancehall do criolo doido” ao lote de canções, mas tem pinta de que vai virar um hit inapelável. Bitch, I’m Madonna, a derradeira do disco, com o apoio de Nicki Minaj, é um rap fútil ao estilo madônnico.

Interessante é que Madonna nunca se furta ao prazer de dialogar com seu momento nas canções. Desta vez, vai até bem longe. Alega, por exemplo, que não é da sociedade secreta Illuminati, mas como sempre dizem que ela pertence ao grupo, resolveu fazer uma música “esclarecedora”, defendendo a luminosidade da seita. “Não são pentagramas ou bruxaria/ Não se trata de topa tudo por dinheiro/ Não é magia negra ou Gaga/ Gucci ou Prada/ Pilotando um gato dourado”, canta.

Ela disse o seguinte a respeito: “Illuminati é uma música que eu compus entre março e abril. As pessoas estão sempre usando a palavra Illuminati, mas eles sempre se referem a isso da forma incorreta. Muitas vezes me acusam de ser membro dos Illuminati e eu acho que na cultura pop atual, os Illuminati são vistos como um grupo de pessoas poderosas e bem-sucedidas que estão trabalhando nos bastidores para controlar o universo, em vez de pessoas com consciência, pessoas que são iluminadas”.

Na letra, a mídia seria a culpada pelas interpretações equivocadas, ela afirma. Acusa também ignorância. “Rihanna não conhece a nova ordem mundial”, canta. Encarando do ponto de vista de Madonna, parece que virá então uma explicação alternativa fantástica, mas é só baboseira. “É a iluminação que iniciou tudo/ Os pais fundadores escreveram isso na parede.”

Musicalmente, o rap-canção Illuminati é uma viagem sombria de Kanye West que é exatamente o oposto do que a música declara. É obscurantismo puro, uma daquelas missas negras que fizeram o décor de seu último show. Parece que, a qualquer momento, vão desfilar por um corredor pessoas com capuzes pontudos na cabeça. E as vozes sintetizadas enchem um pouco a paciência no final.

De qualquer maneira, a eletrônica do disco de Madonna não está mais à frente do seu tempo, é muito Avicii para ser sincero. Cheio daqueles truques de paradinha, recomeço, paradinha, recomeço. Ela sempre foi esperta em cooptar produtores e eles continuam ali, como Diplo. O problema é que ela parece um pouco farta já desse negócio de continuar brigando pelo pódio. Tem pinta de que vai considerar a aposentadoria.

Rebel Heart seria uma explanação de uma dicotomia entre rebeldia e romantismo tranquilo. É o álbum que sucede MDNA, lançado em 2012, e estará disponível no dia 10 de março.

Madonna ficou muito magoada quando surgiram na internet as faixas que ela planejava liberar só em março. Ela definiu a ação dos hackers como “estupro artístico”, há uma semana. “Eu esperava lançar meu novo single, Living for Love, no Dia dos Namorados, com o restante do álbum chegando na primavera. Prefiro que meus fãs ouçam versões integrais das canções em vez de faixas incompletas que estão circulando. Por favor, considerem essas seis canções como um presente de Natal antecipado.”

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