Macunaíma: a inspiração de Iara Rennó

Cantora paulista lança disco inspirado na obra de Mário de Andrade

Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo,

04 Agosto 2008 | 18h13

A música em Macunaíma – O Herói Sem Nenhum Caráter já tinha sido trilhada pelo próprio Mário de Andrade, só faltava alguém para transformar tanta prosa ritmada em canções. Coube à compositora e cantora paulista Iara Rennó assumir a empreitada. "Não fui eu que escolhi Macunaíma, foi ele que me escolheu", diz Iara. O resultado está no ótimo CD Macunaíma Ópera Tupi, que ela lança pelo selo do Sesc com show nesta terça-feira, 5, na unidade da Vila Mariana. A primeira tiragem de 3 mil exemplares, patrocinada pela Petrobrás, vem sendo distribuída gratuitamente para bibliotecas públicas, ONGs, fundações de cultura e centro de formação de professores. "A idéia é fazer o CD chegar às mãos de professores de literatura, para que eles possam fazer uso disso em aula", diz Iara.   Veja também: Ouça trecho de 'Jardineiro'   O próprio autor se referiu a Macunaíma como uma "rapsódia" literária, com "processos de composição improvisada, tirados de cantos tradicionais ou populares", como Iara lembra no encarte do CD. Acontece que ela nunca pensou em fazer no disco um resumo operístico do texto. Utiliza trechos de prosa – como a introdução na faixa-título que abre o CD e tinha sido gravada antes pelo grupo Dona Zica, do qual é uma das integrantes –, e outros em versos e diálogos. As trovas bailantes das faixas Jardineiro e Bamba Querê, por exemplo, parece que já sugeriam aquela música, aqueles arranjos. A forma de hip-hop/raga em Dói, Dói, Dói dialoga com a eterna modernidade do texto.   "O livro, claro, tem um fio condutor, que é a saga do herói, só que justamente a riqueza dele são as historietas paralelas, que acontecem no meio do caminho, essa colagem de temas, que são essas coisas recolhidas do folclore", diz. "O disco funciona da mesma maneira, cada música é independente, cada uma é um assunto, uma referência, como canto de pedinte, canções do bumba-meu-boi. Rudá é uma oração ao deus indígena, que provavelmente parece ser mais uma coisa da cabeça dele do que referência folclórica, nem em forma nem em conteúdo. Ele usa essas referências nas formas, como algumas quadrinhas, mas elas têm essa independência, essa liberdade de estar na história e paralela a ela."   Iara trabalhou com oito produtores e cerca de 70 músicos e convidados no disco – Kassin, Arrigo Barnabé, Siba, Moreno Veloso, Benjamin Taubkin, Tom Zé, Barbatuques, Tetê Espíndola, Dante Ozzetti e outros – trazendo idéias, instrumentos e arranjos diferentes. Há programações eletrônicas, percussão, viola caipira, metais, percussão corporal (caso dos Barbatuques em Quando Míngua a Luna), etc. Isso poderia resultar numa "colcha de retalhos", como Iara chegou a temer, mas acabou obtendo daí uma trama de ricas sonoridades, que variam a cada faixa.   Ela diz que desde o início da idéia do projeto, há nove anos, sentia a necessidade de juntar muita gente de diferentes linguagens e lugares do Brasil para realizá-lo, "justamente para convergir com essa diversidade que tem no livro", dessa "viagem" de Macunaíma. "Ao fazer, fui vendo que funcionava, embora os temas de cada música tenha essa independência. Não sei se é pela força de uma coisa que já está aí há 80 anos, vivendo, mas tem um fio condutor, hoje em dia não é muito comum ter um disco assim inteiro sobre um tema. Enfim, estou presente em todas as músicas, não só cantando, mas na co-produção, na direção geral das coisas. Aí foi surpreendente, porque mesmo os produtores não ouvindo o trabalho dos outros teve umas coisas em termos de sonoridade que confluíram. O resultado ficou orgânico."   Das 14 faixas do CD, 11 já eram trechos versificados, e 3 com textos da própria prosa, que naturalmente foram mais difíceis de musicar. "Porque mesmo a prosa tenho essas aliterações, essas repetições e essa cadência, tive de cortar algumas coisas, mas não acrescentei nada, nenhuma palavra", diz. "Naipi, a história da índia que virou cascata, é muito bonita. Deu muito trabalho, tive de cortar muito para sintetizar, mas consegui passar isso de alguma forma."   Nenhum convidado ou músico que participou do CD vai estar com ela no palco hoje. Iara diz que foi uma nova aventura formar a banda e reinterpretar aqueles arranjos para o show. O baterista Curumin montou um banco de samples com material do próprio disco. É uma estréia-solo das mais arrojadas e, como espera a autora, deve ter vida longa.   Serviço Iara Rennó. Sesc Vila Mariana. Teatro (608 lugares). Rua Pelotas, 141, tel. 5080-3000. Hoje, às 21 horas. R$ 16  

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