Macalé faz campanha por "amor, ordem e progresso"

O irrequieto músico Jards Macalé, com 60 anos de idade e 40 de carreira, aproveita seu novo CD, Amor, Ordem & Progresso, para lançar aos quatro cantos sua indagação e indignação: por que a palavra amor não está no lema da bandeira nacional? Afinal, segundo ele, a nossa bandeira é inspirada na doutrina positivista do francês Augusto Comte, que defende "o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim". "Há anos, eu ficava intrigado por que só tem ordem e progresso, e não o amor", observa ele.Macalé não se considera um positivista, mas, neste caso, apóia o movimento que, no século 19, ia na contramão do idealismo, do conformismo. "Não sou positivista nem simpatizante, mas eu quero o amor", diz. "Na hora de se fazer o lema da bandeira, o amor foi tirado. E se o próprio positivismo apresenta o amor por princípio, quero fazer uma campanha cívica." Essa campanha cívica, instituída na forma de shows, deverá percorrer São Paulo, Rio, entre outros Estados, e certamente Brasília, de acordo com o próprio músico.Seu questionamento se dá logo no título do novo trabalho e se estende para cada uma das 12 faixas da obra. O amor e seus desdobramentos funcionam como elementos de unidade. O repertório foi idealizado por ele e o amigo Moacyr Luz. Macalé conta que a idéia original seria um disco com composições de Tom Jobim e Newton Mendonça. "Mas, no ano passado, descobri que já haviam feito essa homenagem, não sei quem." Do que seria um disco de tributo à dupla de compositores, sobrou Foi à Noite, uma das canções de Tom e Mendonça que Macalé sempre gostou. Entrou também Consolação, clássico de Baden Powell e Vinícius de Moraes, que abre o CD. Há outros clássicos da música brasileira, como Por Causa Dessa Caboclada, de Ary Barroso e Luiz Peixoto; Falam de Mim, de Noel Rosa, Éden Silva e Anibal Silva; Samba da Pergunta, de Pingarrilho e Vasconcellos; o partido-alto Roendo as Unhas, de Paulinho da Viola.O compositor revisita canções suas, de antigos discos, como Meu Amor me Agarra & Geme & Treme & Chora & Mata, Amo Tanto e Canção Singela e Pano pra Manga. Toda a proposta do disco é amarrada pela música Positivismo, de Noel Rosa e Orestes Barbosa. Diz certo trecho dela: "O amor vem por princípio, a ordem por base/ O progresso é que deve vir por fim/ Desprezaste esta lei de Augusto Comte/ E fostes ser feliz longe de mim." Amor, Ordem & Progresso resulta num belo trabalho, singelo e intimista, cheio de bossa e emoção, tendo como base violão, baixo, guitarra, percussão e a inconfundível voz de Macalé. É dedicado ao poeta baiano Waly Salomão, que morreu recentemente, e de quem Jards Macalé era parceiro de música e amigo por quase 40 anos.

Agencia Estado,

24 de julho de 2003 | 13h25

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