Lulu Santos, na velocidade do som

Aqueles aviões com símbolos dos Estados Unidos voavam tão perto de sua cabeça que pareciam poder ser tocados. Em 1958, então com 5 anos de idade, Lulu Santos morava quase que dentro de um centro de treinamento da Nasa, na cidade de Houston, Texas. Olhava para o pai militar da aeronáutica fazendo cursos com os especialistas americanos e imaginava-se, no futuro, como um ser de Jornada nas Estrelas.Aos 49 de idade, 21 deles com uma guitarra nas mãos, o músico até que tem algo de Doutor Spock. Os shows que faz de amanhã a domingo, no Credicard Hall, são comparados pelo próprio a "um filme de ficção científica da década de 50". Suas canções, grande parte retirada do recente álbum Programa, chega também com definição futurista: "pop rock interplanetário"."Sou do futuro. Sempre tive uma identificação muito grande com astronomia. O show e o disco deixam isso muito claro", diz o homem que tinha tudo para pisar na Lua antes de Neil Armstrong se não resolvesse virar artista. Seus delírios de criança foram materializados há dois meses, quando viajou à Rússia com sua equipe para gravar um videoclipe da canção Todo Universo em um avião russo IL-76 MDK, especial para simulação de vôos em gravidade zero.O interior havia sido ambientado para lembrar uma nave espacial. Foram feitos seis mergulhos de 25 segundos sem gravidade. No vídeo, Lulu vive num mundo cibernético que permite o teletransporte.Na música, um outro teletransportador tem sido usado para resumir suas mais de duas décadas desde que lançou Tempos Modernos, disco que lhe projetou como um satélite no espaço pop dos anos 80. Programa, com 13 canções novas - 11 delas assinadas pelo compositor - tem referências de álbuns noventistas como Mondo Cane, de 92, e do próprio semeador Tempos Modernos."A meu ver este álbum lembra muito mais minha fase dos últimos dez anos. O que mais o liga é o fato de as letras serem o motor das canções", auto-analisa. "Em minha primeira década fui mais uma tentativa do que viria a ser nos anos seguintes. Havia canções banais, que vinham de uma incapacidade que tinha de entregar letras para parceiros capazes, como foi Nelsinho Motta (co-autor de Como uma Onda).Foi a "banalidade" que cita o artista a razão de sua indisposição freqüente com os críticos. Não foi uma ou duas as vezes em que Lulu foi fustigado com acusações de ser um criador de recursos limitados, de ser oportunista, de ser arrogante. O que pode ser uma resposta veio com o lançamento de Acústico MTV. Quase um milhão de cópias foram vendidas até hoje."Extrapolei" - Sobre os 21 anos de música pop, o próprio fala melhor: "Há vários momentos em minha carreira em que extrapolei alguns limites. E não foi só com Liga Lá, em que manifestei as linguagens eletrônicas. Mas em todos estes momentos foi bom ter extrapolado para ver o quanto de água havia jogado fora da bacia."Começa então a remontar o quebra-cabeças: "De quatro em quatro discos fiz um que pareceu disparatado, que assustou o mercado. Meu primeiro nesta linha foi Normal, o que produzi e ficou mais pesado, mais pessoal e mais triste. Foi minha pior venda. Ele refletiu um estado de espírito da época. Depois veio Popsambalanço, de 1989, que trazia uma idéia do que seria o pop aborígene. Mondo Cane, de 92, é um dos álbuns que os críticos mais citam. Apesar de não terem sido entendidos, se fossem diferentes, eu não estaria aqui falando com você."Ir parar na Rússia foi uma brincadeira custosa em que Lulu Santos aparece como andróide do futuro para lembrar o que fez nos últimos 20 anos.Hospedado em um hotel americano cinco estrelas, não teve problemas com alimentação ou noites mal dormidas na imprevisível Moscou. De desagradável, nem a falta de gravidade dentro do avião aturada com o estômago vazio - como lhe pediram os especialistas - , foi tão incômoda quanto a burocracia da terra dos astronautas. Andar na rua era sempre uma aventura. Lulu perdeu as contas das vezes que foi parado e revistado pelos policiais russos. O jeitão de Doutor Spock pode ter contribuído para ser considerado suspeito de espionagem espacial.Lulu Santos. Amanhã e sábado, às 22h. Domingo, às 20h. Credicard Hall. Av. das Nações Unidas, 17955. Tel.: 6846-6000). Preços: de R$ 25 a R$ 75.

Agencia Estado,

01 de agosto de 2002 | 12h11

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