Lulu Santos lança seu 25º disco, 'Luiz Maurício'

Músico faz incursão pela música eletrônica e pelo funk

Entrevista com

Lulu Santos

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2014 | 03h00

Nos 61 anos de vida do músico carioca, poucas vezes, Luiz Maurício, o nome que ele carrega na certidão de nascimento, se impôs a Lulu Santos, alcunha com a qual trilhou a bem-sucedida carreira artística. Dá para contar nos dedos quando isso aconteceu. Como na infância, no período em que morou em São Paulo com os pais e os irmãos, e precisou sacar seu Luiz Maurício às pressas. “Na década de 60, não era uma coisa boa para um menino de 7 anos ser chamado de Lulu, porque Lulu era Luluzinho, cachorro, e eu tinha pavor que minha família revelasse meu apelido”, lembra o músico. 

Outra vez, foi nos anos 1980, quando lançou o primeiro compacto simples - já em carreira solo - e foi obrigado pela gravadora Polygram a assinar o trabalho como Luiz Maurício. “Eles alegaram que Lulu não era um nome conveniente para um artista”, conta. Foi um tiro no pé. Afinal, àquela época, o músico era conhecido por ‘Lulu dos Santos’, principalmente por ter feito parte da banda Vímana e produzido trilhas sonoras de novelas. Sem aquela referência, seu projeto passou batido. 

Ele, então, pegou de volta o Lulu, apelido que ganhou da avó e com o qual se reconhece desde pequeno, e não o largou mais. E quem o chama de Luiz Maurício hoje em dia? “Eu mesmo (risos)”, brinca. “Luiz Maurício é o que faz besteira, que esqueceu a carteira, que se atrasou. Ele leva a culpa.” 

E Luiz Maurício volta a aparecer, agora no título de seu novo disco de inéditas, o 25.º da carreira - e desta vez, não foi por imposição de qualquer espécie. Afinal, Luiz e Lulu são uma pessoa só, e essa coexistência faz com que esse novo trabalho tenha tons biográficos mais acentuados do que normalmente aparecem em sua obra. 

Não só pela autorreferência no título e em uma das faixas, que ganhou ainda versão remix, como na fotografia que ilustra a capa do álbum: dele, com 5 anos, ao lado da mãe Vera, em frente à Casa Branca, em Washington, Estados Unidos, quando o clã Santos viveu na América. E a mãe dá um pito imaginário no filho pequeno: Luiz Maurício! Segundo o cantor, um gracejo do projeto gráfico que não se confirmou na cena real. “A capa é uma lembrança de que é necessário andar na linha às vezes. Quando se chama pelo nome completo, você já sabe.”

Atendem o telefone. Do outro lado da ligação, ao fundo, ouve-se uma trilha de rhythm and blues. A voz de Lulu Santos surge, então, na linha. Ele explica o que está ouvindo naquele momento. “É uma coletânea que acabei de receber pelo correio. Atlantic Rhythm & Blues, de 1947 a 1974, em nove volumes. Estou voltando a comprar discos”, conta Lulu Santos, em entrevista ao Estado, do Rio. 

Para ele, as novas formas de se consumir música podem ser limitadoras - quando a necessidade de atualizações operacionais periódicas obriga o usuário a deletar arquivos para liberar espaço de memória, quando se tem tudo arquivado na ‘nuvem’ e não se tem acesso a ela caso não haja Wi-Fi, entre outros problemas da modernidade. “Quando você vê, não tem seus discos à disposição na hora que precisa”, diz o músico e também jurado do programa The Voice Brasil, na Globo (leia abaixo). “Estou de saco cheio disso, quero meus discos.”

Guitarrista desde os 11 anos, Lulu cresceu consumindo LPs. E é a estrutura de unidade dos bolachões que ele imprime em seus álbuns, caso do novo disco, Luiz Maurício. Mas o trabalho tem uma “pegadinha”, como ele mesmo diz: o repertório começa com a faixa solta Luiz Maurício, remixada pelo seu parceiro de longa data na música, DJ Memê - a faixa original aparece mais adiante no repertório. “Quando revelo o que esta por trás daquilo que foi oferecido primeiro, em mais detalhe e profundidade, aí mesmo que vira um álbum. Ele se explica no decorrer de si próprio. Essa ‘pegadinha’ é porque, ao mesmo tempo, sou um artista contemporâneo, ouço música eletrônica, de pista.”

Mas Lulu não chegou ao resultado de seu Luiz Maurício tão rápido quanto ele imaginava. Foram quatro anos no total. Chegou a arquivar a primeira versão do disco, que ficou pronta em 2012 e, depois de uma segunda tentativa de reorganizar as músicas e não conseguir, em junho do ano passado, gravou o que precisava. “Quando eu estava com tudo pronto, e fiquei sozinho no estúdio, com meu engenheiro e o disco, aquilo ainda não estava me satisfazendo inteiramente. Eu conhecia tudo e nada me surpreendia, foi aí que comecei a convocar meu ouvido externo.” Leia-se DJ Memê. “Mandei (a canção) Luiz Maurício para ele e perguntei: ‘você pode melhorar isso?’. E ele: ‘acho que sim’. Ele decupou a música: a minha versão tem início com uma introdução de guitarra elétrica, aí vem a música, aí o cantor começa a cantar; é quando ela passa a ficar interessante, essa é a visão do DJ. O DJ manipula gente, ele fica olhando a pista e vê o que funciona.” Com essa faixa, chegava ao cerne do trabalho que, para ele, ali passou a fazer sentido. 

Luiz Maurício, o remix, dá o clima do que vem nas 11 faixas seguintes de Luiz Maurício, o disco. Tendo o pop como sua base, seu aliado, Lulu Santos estabelece todos os diálogos musicais que sua ampla barca de referências lhe permite. Gosta e acompanha a cena da música eletrônica, e continua trazê-la para sua obra. Além de Memê, neste disco, ele se uniu aos DJs Sany Pitbull e Batutinha, que assinam o remix de Sócio do Amor. “É um caso específico da minha crescente aproximação com o universo de música eletrônica genuinamente urbana e brasileira, carioca, que é o funk. É tão legítimo quanto qualquer outra forma mundial de música eletrônica contemporânea”, conceitua. No álbum, Sócio do Amor também é encontrada em versão original, e com a qual Lulu diz ter reencontrado um pouco do seu “amalgama pop”. 

Ele resgatou a parceria com Jorge Ailton e Alexandre Vaz, originalmente chamada (e gravada por Ailton em seu disco) como Chega de Longe, que, em Luiz Maurício, Lulu rebatizou como Michê (Chega de Longe Bis), com vocação para pista e com intervenção do funqueiro Mr. Catra - até última atualização, pai de 28 filhos. “‘Reloadei’ a música por meio do Memê, já com outras intenções. Fala de outro jeito. A história de michê apareceu, tinha um break grande, estava meio vazio. Pensamos, então, em chamar o Catra para explorar o assunto.” 

Com Dadi, ex-Novos Baianos e ex-A Cor do Som, fez SDV (Segue de Volta?) ‘contaminado’ pela linguagem recorrente nas redes sociais. Para expor seu lado músico, Lulu incluiu dois temas instrumentais, Blueseado e Drones (esta última funcionaria como uma sutil virada de lado A para lado B imaginários). “Luiz Maurício é um guitarrista primeiro. No momento em que realmente encontrei o instrumento, foi quando comecei a forjar uma identidade pessoal da qual sairia a pessoa que sou. Quando escolhi um instrumento, não escolhi ser um músico virtuoso, mas um artista daquilo, aquilo me revela.”

ENTREVISTA - LULU SANTOS - 'Depois do programa, é com eles'

Ao lado de Claudia Leitte, Carlinhos Brown e Daniel, Lulu Santos integra o júri do programa The Voice Brasil, que vai ao ar na Globo às quintas.

Fale da experiência como jurado do programa The Voice.

Estou ali porque sou o músico que sou, porque sou o artista que sou. A história é simples: eu estava em Miami, há uns 4 anos, e vi na programação de TV que ia começar um reality musical, que contava com o Cee Lo (Green). E adoro ele. Chegou de noite, começou o reality e falei: um negócio desse eu fazia. Seis meses depois, bateu na porta o convite.

Como tem sido as gravações?

É tão intenso que acordei pensando que aquilo que é democracia: não tem um estilo de música que seja posto como superior ao outro, todos são obrigatoriamente representados. Acho que ali a gente exercita uma forma de democracia a qual nós mesmos como brasileiros levamos um tempo... Para nós, ainda é um aprendizado, porque a gente é fruto de um período de ‘desopinião’. Aquilo é imersão total. Acho que o maior susto dessa história é: como tem gente talentosa que não tem oportunidade.

Você acha que, nesse formato de programa, que se propõe a revelar talentos, os artistas que ficam entre os finalistas ou são vencedores conseguem realmente visibilidade e sobrevida depois?

Desde o ano passado, quando ficaram disponíveis para download de compra todas as apresentações de todos os candidatos, eles estão competindo com quem está na parada, seja quem for. E em igual condição, porque estão ali fazendo dinheiro para eles, para os autores, para as gravadoras, e mantendo a indústria fonográfica viva. Depois do programa, é com eles, com o mercado e com público. Somos um programa de vozes, a gente não privilegia a criação, a gente privilegia a reprodução. Depois do SuperStar, por exemplo, que é um programa mais de banda, que tem trabalhos autorais, o grupo Malta está completamente colocado no mercado. Agora, se você não tem uma forma definida, não tem um encaixe com o mercado, nenhuma força estimula isso. Não há quantidade de exposição que faça um artista que não tenha uma proposta ou uma plataforma suceder. Eu estava indo a Petrópolis e tinha a cara do Bigode Grosso num cartaz maior do que qualquer cartaz eleitoral; é o Bigode ganhando um troco. De resto, é saber o que eles oferecem para o mercado.

No programa, você é duro quando tem de ser, mas também é muito emotivo. Isso é o Lulu mesmo? Não é o personagem criado para o jurado?

Não tinha como criar aquilo assim. A gente passa 5, 6 horas gravando, mas é 1h30 no ar, um tempo longo. Ninguém escreve aquilo, não tem dramaturgia. Ontem, eu estava me perguntando: o que é o reality? São os candidatos representando ou é que acontece com a gente? É em vários níveis. É o que acontece com as pessoas que estão em casa assistindo, é o que acontece com a gente por conta com o que acontece com os candidatos. Não tem como escrever aquilo. Senão eu tinha de ganhar um Oscar por episódio. Todos nós. Cinco clássicos de Lulu Santos

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