Clélio Tomaz/Leia Já
Clélio Tomaz/Leia Já

Lulu Santos cai nas graças de Roberto

Com raro respaldo do Rei, cantor interpreta Jovem Guarda em disco

Roberto Nascimento,

31 de maio de 2013 | 22h21

Como se sabe, conseguir o aval do Rei para mexer em qualquer aspecto de seu legado – vida ou obra – é quase milagre. Que o digam os biógrafos e escritores obstruídos anualmente pela Justiça ao tentarem relatar íntegras ou partes da história. Ou até mesmo o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que este ano usou Detalhes em propaganda institucional e provou a ira da corte mais popular do Brasil.

Entretanto, o endosso de Roberto Carlos chega, sim, e quando chega tende a privilegiar os sinceros. Foi com esse respaldo que Lulu Santos desceu do palco em 2012, no último show de uma série organizada pela Sony Music, em que cantou o repertório do Rei. Na ocasião, Roberto estava na plateia e se disse emocionado com o trabalho. Em seguida, autorizou a realização de um disco por um intérprete brasileiro pela primeira vez desde que Maria Bethânia gravou sua música, em 1993.

O resultado é Lulu Canta & Toca Roberto e Erasmo, que chegou às lojas em maio. "A proposta original era que eu cantasse artistas estrangeiros. Sugeriram Beatles, eu disse ‘não’. Propuseram Elvis, eu disse ‘nem a pau’, não cabe a mim fazer uma releitura dele", conta Lulu, em entrevista ao Estado, sobre a proposta que originou também o show de Sandy com o repertório de Michael Jackson.

Mas a Roberto, disse sim. A proposta de Lulu Canta & Toca Roberto e Erasmo é ressuscitar a efervescência da Jovem Guarda. Para isso, gravou arranjos com ênfase na música que influenciou a cena. Sua guitarra ecoa Chuck Berry, sua banda bebe na raiz de r&b que nutriu o iê-iê-iê.

"O que eu fiz foi acelerar o r&b que tem na história. Evitei que os arranjos lembrassem ou fossem um fac-símile da Jovem Guarda. Quis mesmo ressuscitar a influência, a linguagem que eles tentavam recriar. Fama de Mau, por exemplo, é uma resposta própria e original, antes da invasão inglesa, ao r&b. A música tem uma identidade própria. E como eu tenho um gosto reverencial pelo blues, resolvi fazer desse jeito", conta o guitarrista.

A banda, com Chocolate na bateria, Jorge Ailton no baixo e Hiroshi Mizutani, no órgão, impressionou Erasmo Carlos, que rapidamente os convidou para acompanhá-lo em estúdio.

Entre as popularíssimas canções da MPB nacional (As Curvas da Estrada de Santos, Festa de Arromba e Emoções), tocam vinhetas que ressaltam o DNA musical da Jovem Guarda. "Nestas faixas, principalmente em Boogaloo, quis fazer referências explícitas ao jeito brasileiro de processar o soul americano. Da mesma forma que o reggae é um mal-entendido jamaicano com o r&b, o iê-iê-iê é a nossa leitura da música negra dos EUA", conta Lulu, cujo fascínio pela história do soul é nítido tanto em suas interpretações de Roberto Carlos, quando em sua conversa.

"Eu tenho um vinil do Bo Didley assinado pelo Erasmo. Ele me deu esse disco há mais de 20 anos", conta. "Sempre meditei sobre esse amor pelo primitivismo do blues. A música da dupla se presta bastante a isso. E a sensação é que a raiz mais soul vem das contribuições do Erasmo."

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