Cauê Moreno
Cauê Moreno

Luiz Thunderbird faz biografia impetuosa consigo mesmo

Escrita por quatro vezes e perdida por duas, 'Contos de Thunder' narra momentos dramáticos vividos pelo ex VJ da MTV durante sua dependência química e sua luta para se curar

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2020 | 05h00

Havia vida por trás dos aparelhos ligados na MTV que não se via em casa. Muitas vidas, algumas tão ou mais instigantes do que a biografia dos próprios artistas que eram entrevistados pela única emissora musical no País reconhecida por formar uma geração de músicos e de ouvintes de música nos anos 1990, mas que ninguém via. Até que o tempo faz seu trabalho, perdoando os pecados, absolvendo os delitos e deixando tudo mais leve para que o então VJ Luiz Thunderbird colocasse no papel as próprias memórias e os rastros de alguém que poderia ter sido entrevistado por si mesmo.

Thunder, aos 59 anos, lança um livro com suas lembranças de forma cronológica, como uma biografia, passo a passo, dos primeiros anos ao som de jazz, MPB e do violão Di Giorgio Classic que ganhou de presente aos oito anos, e que conserva até hoje, aos planos que ainda pode fazer. Duas pontas preenchidas por períodos de euforia com pesadelos que não imaginou ser tão terríveis e sonhos com os quais nunca sonhou, como ter estudado odontologia e aberto um consultório para viver como dentista, ser VJ de uma emissora como uma que nunca havia existido por aqui e ter formado uma banda em 1985, a Aerosol, e uma outra em 1986, os Devotos de Nossa Senhora Aparecida, para dar vazão àquilo que justificava sua existência, o rock and roll. Como alguns episódios da vida real não se represam em capítulos, há um desses períodos que se deita sobre todos os outros e simboliza o que sua família diria certamente ser uma vitória muito maior do que a fama que fez do filho uma celebridade do tamanho dos popstars que ele entrevistava: a longa recuperação de uma intensa dependência química em uma clínica de desintoxicação.

O livro se chama Contos de Thunder – A Biografia, o mesmo nome de um programa que ele apresentou em seu retorno à MTV, em 1996, às vésperas de sua visão com relação a algum futuro sem as drogas se tornar tão turva a ponto de fazê-lo simplesmente esperar pelo momento da morte. Escrita com a colaboração dos jornalistas Mauro Beting e Leandro Iamin, lançada pela Globo Livros, a publicação rende uma história por si só. Thunder já pensava em deitar suas memórias desde 2010, quando, como conta, estava “desiludido com a MTV e não conseguia ver um futuro”. “Foi muito bom que as coisas tenham acontecido daquele jeito.” Um ano antes, ele havia conhecido Beting, que estava começando a escrever a biografia de Nasi, o vocalista do Ira!, com ajuda de Leandro Iamin. Thunder começou a narrar suas histórias a Beting e, juntos, realizaram encontros entre 2013 e 2016, quando o jornalista perdeu todas as gravações.

Sem o material gravado das lembranças, mas com cada linha delas revolvidas na memória, resolveu ele mesmo escrever em primeira pessoa, recriando o passado com a ajuda dos irmãos, da mãe, de parentes, amigos e das pesquisas que pôde fazer. Quando havia reunido um bom calhamaço e refeito sua trajetória até 2014, foi sua vez de perder tudo depois que o computador sofreu um colapso. Já tomando a publicação da própria história como questão de honra, Thunder começou tudo de novo, lapidando ainda mais as passagens e massageando as lembranças que não haviam emergido nos primeiros depoimentos. “Escrevi esse livro então quatro vezes”, ele conta, dizendo que haveria ainda a quarta, no momento de fazer a revisão devolvida pela editora.

O tempo parece ter jogado a seu favor. Mesmo em episódios mais drásticos, e em outros onde poderia usar o momento da publicação para se vingar dando nome aos bois, como Rita Lee parece ter feito mesmo sob as proteções de um estilo bem-humorado e cativante quando lançou sua autobiografia, Thunder foi tão impetuoso consigo mesmo quanto criterioso quanto a citar ou não nomes de terceiros. Ele pensa assim: “Essa é a minha história que eu quero contar, e eu não sei se os outros que passaram por ela gostariam de aparecer. Não sei o que estão fazendo hoje, não sei se o cara que tomou ácido comigo quer aparecer tomando esse ácido no livro. Eu procurei mesmo não expor”.

O drama de sua história, por outro lado, dispensa coadjuvantes. Thunder soube que chegava ao fundo do poço no dia em que João Gordo, à época um dos roqueiros mais entorpecidos do meio, outro ex-VJ da MTV, se preocupou com seu estado de saúde. O livro caminha do menino ingênuo em direção ao adulto problema em uma escalada autodestrutiva bem faseada. “Minha relação com as drogas teve o namoro, o noivado, o casamento, o divórcio e algumas tentativas de reconciliação que não rolaram”, conta. 

O ano de 1997 é lembrado como o epicentro de sua tragédia pessoal, depois de passar um Natal se drogando no quarto, usando a freebase, a poderosa substância química capaz de provocar um redemoinho cerebral, enquanto a família se confraternizava na sala. “Ali, eu achei que fosse o fim, que não iria escapar. Eu tive muita sorte de ter um amigo que havia acabado de sair dessa nesse exato momento.”

Nasi era esse amigo. Sem que Thunder soubesse, e ao mesmo tempo em que já sentia a necessidade de fazer alguma coisa, o cantor falou com sua família sobre a Vila Serena, um centro de tratamento de dependências que havia tirado não apenas Nasi dos piores dias, mas também Renato Russo e, ao menos tentado, Raul Seixas. “Eu tocava no violão do Raul”, lembra. Economicamente falido, Thunder precisou pedir um empréstimo no banco para seguir seu tratamento e, nas poucas saídas que pôde fazer, sentiu os sinais do lado de fora: a disposição em se limpar seria apenas dele, o mundo não ligava a mínima para isso. “Quando eu fiquei limpo, deixei muito claro para as pessoas. Os amigos que seguiram usando se afastaram e alguns outros duvidaram de que eu estivesse mesmo sem usar.”

A linha fina que segura um ex-dependente, o trabalho, se rompeu por algumas vezes, quando programas que lhe davam grande prazer em fazer, como o Contos de Thunder, foram descontinuados e ele, demitido. Mas o quesito sorte, santo, ou seja lá o que for pareceu sempre a seu lado, pelos 14 anos em que lutou nos altos e baixos de Vila Serena. Apesar de dizer que a MTV “foi a maior aventura de minha vida”, as pessoas que ele cita na longa lista de agradecimentos, uma gente que não deixou que ele morresse, diriam que foi outra.

Luiz Thunderbird inaugura projeto solo com o single-clipe 'A Obra'

Além de manter seus trabalhos em seu canal no YouTube e com postagens em podscats, Thunder lança agora uma faixa para inaugurar o projeto solo Pequena Minoria de Vândalos. A faixa é uma versão para A Obra, hit dos anos 80 dos belo horizontinos da banda Sexo Explícito. O álbum terá algo entre disco music, punk rock, eletro rock e instrumentos bizarros para versões revisitadas de canções que dialogam e vociferam contra momento político atual. A faixa original é assinada por Rubinho Troll, John Ulhoa (Pato Fu) e Mario Marompas, que ganha aqui a pegada descrita em um release do projeto como 'punk jazz' e 'avant funk'. A banda base, gravada em regime de isolamento, com cada um em seu home studio, tem Thunderbird na guitarra, vocal, percussão, kazoo e efeitos, Gustavo Boni (Patife Band) no baixo, Caio Lopes (Gal Costa) na bateria, e Daniel Brita na guitarra, trombone e trompete.

 

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