Luiz Melodia vem a SP em alta

A maldição não existe mais. Luiz Melodia ouviu por anos gente lhe dizer que não era deste mundo, que fazia música estranha demais para ser entendida, cabeça demais para cair no gosto popular. Assim como Itamar Assumpção e Jards Macalé, foi chamado de "maldito" por jamais ter boas vendagens. Mas é em estado de graça que Melodia chega a São Paulo para lançar Retrato do Artista Quando Coisa, segundo álbum que faz pela gravadora Indie Records. O anterior, Luiz Melodia - Acústico Ao Vivo, trabalho que no começo relutou muito em fazer, terminou por render o primeiro disco de ouro de sua carreira. Segundo a Indie, o CD vendeu até hoje 150 mil cópias. Retrato do Artista é a volta de Luiz Melodia, 51 anos, ao estúdio e à música eletrificada. Ao contrário do Acústico, que chegou sem a mínima idéia do barulho que faria, não esconde as intenções em colocar o "Negro Gato" nas paradas. É o que se percebe com mais evidência ao menos em duas canções: a bem festeira Feeling da Música e o reggae pop Levanta a Cabeça. Ainda que seja explicitamente duas das mais radiofônicas músicas que já assinou, Melodia, naturalmente, nega qualquer intenção mercantilista. "É difícil classificar se este disco é mais ou menos pop que os anteriores. Sinto é que fui mais eclético. Quem ouve percebe que há jazz, samba-canção, samba-funk, reggae, bolero." Questionado se a cabeça do artista, de fato, muda quando ele vende mais, responde: "Muda mas não no sentido de querer ficar se repetindo. As coisas têm de acontecer sempre de maneira natural para que nada fique mentiroso." O disco Acústico foi um marco não só no que diz respeito às vendagens. Em um pré-lançamento feito no Canecão, em novembro de 2001, jovens e adolescentes eram vistos em uma platéia que há pelo menos uma década não era renovada. E não se tratava de gente que conhecia apenas Pérola Negra. O show do Canecão, que teve um final um tanto esquizofrênico com passistas e uma bateria de escola de samba, será o mesmo que deverá ser mostrado em São Paulo, com exceção da parte carnavalesca. Quem poderá aparecer no Vila Mariana é o rapper Mahal, o garotão com quase dois metros de altura, filho de Melodia. O disco, aliás, é todo permeado por lembranças familiares. Enquanto musicava o poema de Manoel de Barros, Retrato do Artista Quando Coisa, o pai músico Oswaldo Melodia, já falecido, veio à cabeça por muitos momentos. Dizem assim os primeiros versos: "borboletas já trocam as árvores por mim / insetos me desempenham / já posso amar as moscas como a mim mesmo / os silêncios me praticam". Luiz Melodia - Amanhã e sábado, às 21h. Domingo, às 18h. Sesc Vila Mariana: Rua Pelotas, 141. Tel: 5080-3000. Ingressos: de R$ 7,50 a R$ 25

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