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Luiz Claudio Ramos fala do trabalho com Chico Buarque, que traz show a SP

Músico se apresenta na cidade nesta quinta; ingressos para apresentações extras estão à venda

Lauro Lisboa Garcia/ESPECIAL PARA O ESTADO,

29 Fevereiro 2012 | 22h18

Desde o histórico encontro de Chico Buarque com Maria Bethânia em 1975, o maestro, arranjador e violonista Luiz Claudio Ramos vem trabalhando com o compositor desde o início de sua carreira de músico. Começou elaborando as harmonias com Chico naquele show do Canecão e fez os arranjos de base do disco. Seu primeiro destaque foi com o arranjo completo de Mulheres de Atenas, de outro trabalho antológico de Chico, o álbum Meus Caros Amigos, de 1976. Gradativamente, Ramos foi tendo papel mais claro na sonoridade de seus discos e shows e nas últimas décadas criou vínculo tão forte quanto o de Bethânia com Jaime Alem.

"A relação com Chico é de troca. É claro que o arranjador interfere na obra, como o músico, aliás todo mundo, até o engenheiro de som. O processo criativo sempre sofre interferências e é claro que eu, como arranjador e produtor tenho uma interferência maior, mas é sempre procurando preservar o espírito do que o Chico quer", diz Ramos, que assina a direção musical, os arranjos e regências e toca violão no show Chico, que estreou em Belo Horizonte em novembro e chega a São Paulo nesta quinta-feira para uma temporada que se estende até abril. Essa semana foram anunciados mais seis shows extras, entre os dias 30 de março e 8 de abril.

Há uma ligeira mudança no roteiro: Barafunda, uma das belas canções do novo álbum, agora está no bis, no lugar do medley com Sonho de Um Carnaval e A Felicidade (Tom Jobim/Vinicius de Moraes). Tom, porém, permanece em outro momento dos mais prazerosos do show. É quando Chico divide os microfones com o baterista e parceiro Wilson das Neves no duo de Teresa da Praia (parceria de Tom com Billy Blanco).

Há quem ache que os arranjos das canções do novo CD estão mais soltos no show, mas Ramos diz que são exatamente os mesmos, adaptados ao grupo. "É claro que no palco rola mais solto do que no estúdio. As músicas vêm sendo desenvolvidas, tudo vai amadurecendo. Muita gente acha que arranjo é uma coisa técnica, mas além da técnica tem também a parte criativa. Para isso você precisa de tempo para elaborar da forma que achar mais conveniente", diz o maestro.

Apesar de Chico manter-se na linha da tradição da canção brasileira, o CD traz pequenas ousadias, como a guitarra distorcida em Tipo Um Baião. Outras boas surpresas do show são a versão incendiária de Baioque e um trecho de Cálice (parceria com Gilberto Gil) em que homenageia Criolo, não só cantando a parte em que o rapper paulistano improvisou sobre sua canção, mas retribuindo a citação com versos inéditos. É um dos momentos de maior impacto do show.

"Chico continua se desenvolvendo através dos tempos", diz Ramos, que considera suas composições mais complexas nos últimos anos. "Vejo a obra de Chico como um todo. O rap é uma inserção relacionada ao que está acontecendo agora. Chico sempre foi ligado em coisas novas, apesar de ter como estrutura uma música que não varia muito em concepções. Ele é muito mais linear do que outros compositores, como Caetano Veloso, que é sempre a comparação mais direta que se faz. Caetano sempre foi mais camaleônico e como Gilberto Gil sempre experimentou mais. Chico é mais centrado na música brasileira tradicional, mas também nunca foi avesso a novidades, desde que trabalho com ele."

Ramos também foi convidado a elaborar uma suíte de 20 a 25 minutos sobre canções de Chico para tocar com a Osesp. "Ainda não escolhemos as canções, depois disso é que vou adaptar para arranjos sinfônicos. É um trabalho difícil." A data do concerto ainda não foi definida.

Um roteiro impecável. A estreia do show Chico em Belo Horizonte foi um grande acontecimento, com jovens fãs distribuindo folhetos com letras de clássicos do compositor para esquentar a plateia antes do show e tudo. Há uma grande diferença entre o público de teatro (lá foi no Palácio das Artes) e o de uma casa de shows com mesas onde se consome bebidas. Obviamente o comportamento muda de acordo com o ambiente e isso interfere no rendimento do show. "No teatro a concentração é maior, é natural que as pessoas em mesas, bebendo, conversem mais. Sem a menor dúvida o teatro é melhor. A música prefere a concentração", diz Ramos.

Além de todas as canções do álbum Chico (Biscoito Fino, 2011), o roteiro, que abre com O Velho Francisco e termina com a obra-prima Sinhá (parceria com João Bosco), traz diversos clássicos, muitos dos quais havia tempos Chico não cantava ao vivo, ou nunca cantou. É o caso de Geni e o Zepelim, A Violeira, Baioque, Valsa Brasileira, Choro Bandido, Ana de Amsterdam.

O tempo é um tema recorrente no impecável roteiro, desde a primeira canção ("vida veio e me levou") até as mais novas, como Essa Pequena, que fala da relação de um homem maduro de cabelos cinzas com uma jovem de cabelo cor de abóbora, referência evidente a sua namorada Thaís Gulin.

Há também uma série de canções femininas, muitas das quais foram gravadas por grandes cantoras, como Maria Bethânia, Zizi Possi e Elba Ramalho.

Além de Ramos, a banda é formada por Bia Paes Leme (teclados e vocais), Chico Batera (percussão0, João Rebouças (piano), Jorge Helder (contrabaixo acústico), Marcelo Bernardes (flauta e sopros) e Wilson das Neves (bateria). A direção de arte e os cenários são de Hélio Eichbauer) e a iluminação é de Maneco Quinderé. Não poderia ser melhor essa volta de Chico aos palcos depois de cinco anos.

CHICO BUARQUE

HSBC Brasil. R. Bragança Paulista, 1.281, tel. 4003-1212. Quinta-feira, 21h30. Esgotado. Shows extras: 30 e 31 de março e 1º, 6, 7 e 8 de abril. Vendas a partir de hoje pelo site ingressorapido.com.br. De R$ 120 a R$ 320.

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