Luiz Bonfá é relançado em CD e trilha sonora nos EUA

Em 1962, cinco anos antes de compor o tema instrumental do seriado de tevê Missão Impossível, o pianista argentino Lalo Schifrin entrou nos estúdios A&R, de Nova York, na função de arranjador de um dos melhores álbuns da carreira do músico brasileiro Luiz Bonfá. O CD Luiz Bonfá Plays and Sings Bossa Nova foi relançado mês passado nos Estados Unidos pelo subselo da Verve, o Verve By Request (que também soltou recentemente álbuns de Edu Lobo, Sérgio Mendes, Marcos Valle e Mílton Nascimento gravados nas décadas de 60 e 70).Na semana passada, foi a vez de outro trabalho reunindo Bonfá e Schifrin chegar às lojas dos EUA. Mas dessa vez, eles não gravaram juntos. O "encontro" no álbum da trilha sonora de Missão Impossível 2 (ou M:i-2), é indireto. A música deste blockbuster do verão americano dirigido por John Woo e estrelado pelo ator Tom Cruise - a ser lançado nos cinemas americanos no dia 24 de maio e nos brasileiros, em 23 de junho - apresenta nova roupagem para o tema de Schifrin e a canção de Bonfá, Manhã de Carnaval, mais conhecida por ter feito parte de outra trilha, a do longa Orfeu Negro, do cineasta francês Marcel Camus, vencedor da Palma de Ouro e do Oscar de filme estrangeiro na década de 60.O tema de Missão Impossível, que rendeu dois Grammys a Schifrin em 1967 (na categoria de melhor tema instrumental, o musico bateu Chico Buarque, indicado para o Grammy daquele ano por A Banda), volta remixado com letras em rap do Limp Bizkit. Por sua vez, a canção Carnival, uma segunda versão em inglês (veja letras no link abaixo), para Manhã de Carnaval, ganhou uma versão gótica da roqueira Tori Amos com direito a batucada psicodélica e techno no final. Na trilha de M:i-2, as composições de Schifrin e Bonfá vem acompanhadas de hard rocks do Metallica, Rob Zombie e The Pimps.Ao ser avisado pela reportagem do Estadao.com.br sobre a inclusão da canção de Bonfá num filme de ação de John Woo, o filho único do mestre do violão, Luiz N. Bonfá, de 37 anos, que mora em Los Angeles e ocupa o cargo de diretor de operações da programação do canal Fox Kids Latin America, confessou-se surpreso com a notíca. Outra surpresa recente de Luizinho: um website (veja link abaixo) com 95% da obra de seu pai compilada e mantida por um professor da Universidade de Kyoto, no Japão.Saber dessas homenagens a seu pai - outra canção de Bonfá, Sambolero, fez parte das trilhas dos filmes O Primeiro Amor de um Homem (The Pallbearer), com Gwyneth Paltrow, e o independente Um Dia em Nova York (The Daytrippers), com Parker Posey -, porém, tem um resultado emocionalmente ambígüo para Luizinho. "É um enorme júbilo para nossa família que o trabalho de meu pai continue a ter esse reconhecimento no Exterior, principalmente nos EUA e Europa", diz o carioca por telefone de seu escritório, em Los Angeles. "Por outro lado, a dor de nossa família é indescrítivel, pois estamos impotentes diante da tragédia da doença de meu pai", conclui. Desde o início dos anos 90, que Luiz Bonfá, de 77 anos, e que mora no Rio de Janeiro, sofre do Mal de Alzheimer, uma doença degenerativa que destrói as células cerebrais. A doença que ataca só nos EUA 4 milhões de pessoas, debilitou muito Bonfá, que não mais toca o instrumento pelo qual ficou mundialmente reconhecido. "Durante a gravação de uma faixa do CD The Brasil Project, em 1992, o Oscar Castro-Neves reafirmou o temor que eu tinha dessa doença cruel estar realmente debilitando meu pai", explica Luizinho.O executivo de TV já não fala mais com o pai por telefone, porque este está incapaz de expressar-se coerentemente. Quando no Rio, ele nem sabe se Bonfá está ciente de sua presença. "Da última vez que fui visitá-lo, medi minha palma da mão com a dele, que era uma brincadeira que fazíamos quando eu era criança", conta. "Ele deu um sorriso e senti um brilho diferente no olhar dele", prossegue. "Minha esperança é a de que ele tenha me reconhecido".O último show de Bonfá nos EUA foi na casa noturna Fat Tuesday, de Nova York, em 1980. Depois do bem recebido álbum Bonfá Burrows Brazil, gravado em 1978 em parceria com o jazzista australiano Don Burrows, o músico brasileiro diminuiu o seu ritmo de trabalho. Em 1989, foi lançado Luiz Bonfá Non Stop to Brazil e, dois anos mais tarde, The Bonfá Magic (91). Ele ainda participou dos dois volumes de The Brasil Project, do mestre belga da harmônica Thoots Thielemans, no quais apareceu respectivamente nas faixas Manhã de Carnaval e Samba de Orfeu. Luizinho diz ter esperança que as gravadoras brasileiras voltem a relançar os trabalhos antigos de seu pai em CD. "Mas como já disseram no passado, o Brasil não tem muita memória para seus artistas", diz. Para reverter este descaso, Luizinho, nos últimos meses, vem trabalhando exaustivamente no processo de escolher composições para o violão de seu pai a serem reunidas num CD de, possivelmente, 17 faixas e a ser lançado pelo selo da família, o Bonfa Music, com o título de Luiz Bonfá, The Guitar Master. As composições já escolhidas estão num laboratório de Los Angeles especializado em limpar o barulho dos riscos no original em vinil. O programa para eliminar essas imperfeições é o Sonic Solutions, mesmo processo empregado na recente caixa Anthology, dos Beatles, e na ligação do pedido de socorro para a polícia feita pela ex-mulher de O.J. Simpson."Esse projeto que estou compilando retrata um lado técnico e versátil surpreendente de meu pai, sem falar nas harmonias lindas, certamente já esquecidas pelos fãs e nunca constatado pelo novo público", explica. "Meu desejo é introduzir à nova geração, essa turma que gosta de Rob Zombie, o lado quase genial de meu pai tocar", acrescenta. "Vou lançar primeiro nos EUA e depois no Brasil".Ao pesquisar gravações antigas de seu pai, Luizinho deparou-se com surpresas desagradáveis. Dois álbuns que podem ser encontrados em lojas do Rio foram pirateados. "São cópias ilegais, feitas sem a permissão de nossa família", explica. Sobre a versão de Tori Amos para a canção Manhã de Carnaval, Luizinho diz que ela foi aprovada. "Achei a canção muito bem arranjada e de um ritmo exótico que combina muito com o ambiante do filme de John Woo", explica. Luizinho não sabia da gravação de Amos porque os contratos são fechados com o publisher da música. No caso de Manhã de Carnaval, eles são gerenciados pela Warner Chappell. A Bonfa Music, empresa de publishing da família Bonfá, ou seja, Luizinho, suas tias e primos, possui o direito de quase duas dezenas de canções do músico entre elas Adventures in Space e Missal. Existem duas versões em inglês para Manhã de Carnaval. A Day in the Life of a Fool, vertida por Carl Sigman, que foi gravada por Frank Sinatra no álbum My Way, em 1969, e recentemente por Nana Moskouri em Falling in Love Again - Great Songs from the Movies. Já Carnival, a versão utilizada por Tori Amos, foi assinada por pelos primos Hugo Peretti e Luigi Creatore e também George David Weiss. A canção foi registrada em 1960 e seus direitos renovados em 1988. Em 1963, no estúdio Webster Hall, de Nova York, Perry Como faria uma das mais clássicas gravações da canção, incluída no álbum The Songs I Love. Três anos mais tarde, Como regravaria Carnival para o álbum Lightly Latin.Recentemente, Manhã de Carnaval foi gravada por José Feliciano, Plácido Domingo, Luiz Miguel e Virgínia Rodrigues (em seu álbum de estréia Sol Negro, de 1997). "Tenho uma relação muito afetiva com essa música, pois eu a cantava no coro do mosteiro de São Bento", explicou Virginia ao Estadao.com.br em recente passagem por Nova York. Outros intérpretes da mesma canção foram Joan Baez, Dexter Gordon e Quincy Jones.

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