Luhli e Lucina acertam o passo com belos CDs-solo

Luhli já foi Luli, Lucina já assinou Lucinha e Lucinda. Juntas, as compositoras e cantoras formaram durante 25 anos uma das mais magníficas parcerias da música alternativa brasileira. Separadas há quase seis anos, elas voltam agora com outros (novos e antigos) parceiros em dois belos CDs-solo, Luhli (Atração) e A Música em Mim (Duncan Discos), fecundos de boas idéias como nos tempos artesanais de jovens hippies. A mato-grossense Lucina faz show de lançamento hoje no Sesc Pompéia. No dia 15 de agosto, grava em Niterói um especial para o canal Brasil, que vai virar DVD com participação de Ney Matogrosso, Zélia Duncan e Joyce. A carioca Luhli não tem previsão de quando vem apresentar o trabalho ao vivo aos paulistanos.Uma no CD de Luhli, duas no de Lucina, aqui estão registradas três das cinco últimas parcerias da dupla. Todas primorosas. Banquete, que era para ser também o título do álbum de Luhli, versa sobre a criação do mundo e tem arranjo desenhado com inspiração na África (?o começo de tudo?), com vários instrumentos de percussão leve tocados pelo especialista Décio Gioielli.Corpo Canção - faixa de A Música em Mim enriquecida por arranjo de cordas da exigente Bia Paes Leme, produtora do CD -, sintomaticamente, fala de ?ventre para colher o que virá?, ?braço pra alcançar o fim do mundo?. Mais confessional, Ao Menos pode ser lida como um epitáfio honesto e afetuoso da relação pessoal e artística das duas, que somam mais de 300 composições juntas. ?Ao menos diz que valeu/ Ao menos diz que foi feliz/ Quando a tristeza vem assim de enxurrada/ A dor é água/ E a saudade é trampolim?, diz a letra. ?O tempo corta/ Mas, se for verdadeiro/ O que importa é ser inteiro/ Até o fim?, conclui.Sem obter grandes êxitos comerciais com gravações próprias, Luhli e Lucina cravaram hits como O Vira, Fala, Napoleão e Bandolero na voz de Ney Matogrosso (seu intérprete mais assíduo e notório desde os tempos de Secos & Molhados), Frenéticas (É Que Nessa Encarnação Eu Nasci Manga), Rolando Boldrin (Êta Nóis), Nana Caymmi (Primeira Estrela), entre outros. Pioneiras na produção independente de discos, a partir de 1979, elas também foram originais no estilo de vida comunitário e revolucionário. Durante 15 anos constituíram família com o mesmo homem não menos talentoso do que elas, o fotógrafo Luiz Fernando Borges da Fonseca, num sítio em Mangaratiba, no Rio; cada uma com dois filhos dele. Mas veio um tempo negro e o sofrimento insuportável decorrente de um câncer não apenas tirou a vida de Luiz, mas se alastrou pela coexistência harmônica de ambas. ?As duas plantas já não cabiam no mesmo vaso, porque a raiz de uma estava matando a da outra?, lembra Luhli, numa metáfora poética. ?Quando o vaso quebra a gente acha que é o fim, mas não: é a libertação.? A relação ficou ?pesada, amarga?, e para não destruir o construído, como diz a letra da tocante Êta Nóis, foi cada uma para seu lado, não sem muita dor. Os lançamentos simultâneos dos CDs são coincidência, mas é inevitável procurar neles a redenção mútua de uma arte depurada pelo tempo e pela intimidade, ?pedras preciosas garimpadas por muitos anos?. ?O afeto e a afinidade musical são muito maiores do que o que afastou a gente?, conclui Luhli.Traços peculiares de cada personalidade, então, afloram agora, como bem observa Lucina: ?O fato de estarmos aparecendo isoladamente ao mesmo tempo dá bem a idéia de quem é quem. O que aparece como característica minha é a escola de harmonia, que é muito forte, e a melodia mais simples. Luhli tem mais a linha do blues e do country. É uma coisa mais tribal do que eu?, diferencia. Lucina, que já tem outro álbum-solo, Inteira pra Mim (1998), sempre fez mais música do que letra. Sua segunda parceira mais constante é a antiga admiradora Zélia Duncan, com quem coleciona 60 canções desde 1990. Algumas Zélia gravou, outras duas - Coração Inquebrável (com curioso arranjo de flautas e percussão de Fábio Luna) e o tango Enfim - estão em A Música em Mim. Lucina tem timbre vocal parecido com o de Zélia, o que facilita a realização da parceria. ?Ela não precisa nem mudar de tom quando faço uma música?, conta. As vozes de ambas, aliás, se entrelaçam à perfeição no folk-blues Oxford Street (letra de Sonya Prazeres). Os outros parceiros são Lenita Lopez (na ótima faixa-título, uma balada que teria tudo para ser hit radiofônico, se os programadores tivessem algum senso), Paulinho Mendonça (aquele de Sangue Latino, outro hit dos Secos & Molhados), Vicente Barreto (no baião Música na Feira) e Joãozinho Gomes (Samba da Zinha). A diversidade rítmica não é determinante. Nos encontros com Zélia e Bia para escolher o repertório, a idéia que prevaleceu era mostrar a compositora madura que Lucina é. Jovens músicos recrutados por Bia criaram texturas delicadas para cada faixa, dando unidade a elas. ?O disco é a expressão da maturidade?, resume ela, que restabelece com ele o vínculo com a musicalidade herdada da bossa nova, do início da carreira nos anos 60.ResistênciaLuhli também debutou naquela época dos festivais com um disco-solo frustrante (para ela). A idéia era dividir este segundo sem Lucina, cerca de 40 anos depois, com Goielli, que é músico pesquisador daqueles que ?tem um em um milhão?. ?Mas o trabalho foi tomando um caminho mais pop, e ficou um disco de balada, canção e blues.? Seu álbum homônimo é bem mais cru do que o de Lucina. A economia de instrumentação tem a ver também, claro, com pouca verba para investir na produção. O CD tomou corpo, aliás, por insistência de um antigo admirador, o guitarrista Ney Marques, que toca com o sertanejo Leonardo. ?Ele me disse que achava um absurdo eu ficar tanto tempo sem gravar e quando ficou pronto seu estúdio me chamou. Gravei todas as bases, ou seja, eu com meu tambor e meu violão?, conta a cantora. ?Ney conseguiu tirar férias de Leonardo e foi cobrindo com a guitarra tudo que eu tinha feito. Ele tem um jorro criativo lindo. Tem gente que acha que músico bom é o que bota muita nota. Ney coloca o que é necessário?, defende.Luhli recriou com muita propriedade três de seus sucessos gravados por outro Ney, o Matogrosso: Bandolero (dela e Lucina), Fala e O Vira (parcerias com João Ricardo). ?O Vira me dá grana até hoje. É incrível como uma música tão simples me sustenta?, brinca. É a sua canção mais gravada. Além de Ney, artistas populares como Sandy & Junior, Frank Aguiar e a Banda Cheiro de Amor, entre outros, a têm em seu repertório.?A idéia de Fala é um diálogo meu com a guitarra de Ney (Marques). Regravei essas músicas para dizer quem eu sou. Depois mergulho na emoção?, explica. ?O disco é meu cartão de visitas, para mostrar que estava viva.? O mergulho na emoção tem quatro parcerias com Alexandre Lemos, uma com Danilo Lemos, outra com Tatiana Rocha, além de Lucina, duas que assina sozinha (jeito Gris e Quase Festa, dois de muitos sopros de beleza), uma versão para a clássica Cry me a River. ?Esta música é um símbolo para mim, uma medida de intérprete.?Ela que costuma presentear os outros com canções (até trabalha por encomenda com esse intuito) agora registra duas jóias que ganhou de amigos: Na Face da Terra, de Itamar Assumpção, e Lê, de Alzira Espíndola. ?Alzira tem a obra vanguardista mais importante na música brasileira. Sua proposta minimalista foi além de Itamar?, elogia.Exercendo trabalho social em ONGs com ?grupos difíceis?, como mães de crianças de rua e prostitutas velhas, com quem realiza oficinas de música, Luhli também escreve poemas e contos. Está envolvida em uma série de projetos diferentes, incluindo quatro discos além deste. ?Um é de samba e choro, outro infantil, tem um de umbanda dancing, mas diferente da tecnomacumba de Rita Ribeiro, e outro mais de raiz.? O empecilho para a realização é que falta grana, como sempre faltou. Numa entrevista em 1980 ela e Lucina já se ressentiam de ser ?uma árvore carregada de frutos que ninguém come?. Os poucos discos que conseguiram lançar, todos independentes, fora de catálogo e raros hoje, não são suficientes para representar a grandeza de sua obra. ?Mas não posso ficar triste porque minha música não toca no rádio. A gente tem que resistir.?

Agencia Estado,

20 de julho de 2006 | 19h23

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