Lugansky abre temporada do Cultura Artística

O pianista russo Nicolai Lugansky abre nesta segunda-feira à noite a temporada da Sociedade de Cultura Artística, que está completando 90 anos. No recital de hoje, ele interpreta os Noturnos op. 27 n.º 2 e op. 48 n.º 1 de Chopin, três peças do ciclo Vergessene Weiss de Medtner e os 6 Momentos Musicais de Rachmaninoff. Amanhã e quarta compõem o programa a Sonata em Fá Maior de Mozart, a Sonata Appassionata de Beethoven, as 6 Peças Op. 118, de Brahms e as Baladas n.º 3 e n. º 4 de Chopin. A escolha de Lugansky para abrir a temporada dos 90 anos é uma alusão à tradição do Cultura Artística de ter sempre um espaço reservado para grandes pianistas em sua programação: Claudio Arrau, Arthur Rubinstein, Magdalena Tagliaferro, para citar só alguns nomes. E Luganski, aos 28 anos, é figura cada vez mais ascendente no mundo musical. Seu talento começou a ser notado durante suas brincadeiras no que ele descreve como "um pianinho", presente de seu pai. "Eles acharam que eu tinha um bom ouvido e comecei a fazer aulas", diz ele em entrevista pelo telefone. Aos 18 anos, com alguns prêmios já nas costas, ele substituiu Maria João Pires em um concerto e o mundo passou a conhecê-lo, assim como os jurados de concursos como o Bach de Leipzig, o Tchaikovski ou mesmo o Rachmaninoff. Aliás, com o de Rachmaninoff seu nome tem sido bastante associado, com elogios a suas interpretações de peças do compositor. Último aluno de Tatiana Nikolaïeva, grande mestra do piano russo, Luganski falou ao Estado sobre sua carreira, as características da música russa e sua admiração pelo brasileiro Nelson Freire, que ele considera um exemplo, "um dos três melhores pianistas da atualidade". Agência Estado - De onde vem sua paixão por Rachmaninoff? Nikolai Lugansky - Ele é, entre os russos, meu compositor preferido, um artista genial, também um excelente pianista. Ouço suas gravações, que eu amo, e fico cada vez mais impressionado. E ele também era uma pessoa maravilhosa, um exemplo que procuro seguir. Como é ser considerado o herdeiro da grande tradição russa de pianistas? Luganski - Realmente não acredito nisso. Não me sinto como um representante de nada, meu trabalho é expressar da melhor forma os sentimentos do compositor. Acho uma grande sorte ter nascido na Rússia, ter tido a chance de estudar no Conservatório Tchaikovski, mas não gosto de me comparar a ninguém. Mas é possível falar em um ´jeito russo´ de fazer música? Luganski - A música russa tem duas grandes bases: as melodias populares e a tradição das antigas igrejas ortodoxas. Acho que em comparação, por exemplo, à música germânica, talvez os russos busquem menos a estruturação e a síntese, estamos preocupados com a melodia que serve como uma linha de canto. E essa é uma das principais características, talvez, do piano russo, a beleza do som pensado como aquele produzido pela voz humana. Ao que me parece, é uma maneira mais próxima à América Latina do que qualquer outro lugar do mundo. É isso que o sr. admira em Nelson Freire? Luganski - Nelson Freire tem tudo e é, na minha opinião, um dos três melhores pianistas da atualidade. Ele toca de modo natural, como é natural a própria vida, a floresta, a água. E a isso estão somados um enorme virtuosismo e um som magnífico, seja nos pianíssimos ou nos fortíssimos, o que é muito difícil de se encontrar. A sensação que tenho é de que ele simplesmente ouve a música e ela passa a fazer parte dele, saindo naturalmente ao piano. Artistas russos de gerações anteriores à sua costumam dizer que, em determinado momento, sob o regime soviético, era necessário deixar o país para desenvolver suas técnicas e carreiras. Hoje a situação é diferente? Luganski - Amo meu país, mesmo sabendo que a vida, nos últimos dez anos, tem ficado extremamente diferente e difícil. Esse tipo de escolha é bastante pessoal, mas acho, como já disse algum filósofo, que amar as belezas do próprio país é mais fácil que amar um país mergulhado em crises. Muitos músicos saíram, outros, como Pletnev, ficaram e obtiveram sucesso aqui dentro. Não pretendo deixar a Rússia, é onde estão minha família e meus amigos, apesar de ficar fora, em turnês, aproximadamente seis ou sete meses por ano. Serviço Nikolai Lugansky. De segunda a quarta, às 21 horas. De R$ 50,00 a R$ 130,00. Teatro Cultura Artística. Rua Nestor Pestana, 196, tel. 258-3616

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