Danilo Sorrino
Danilo Sorrino

Luedji Luna canta sobre herança, hereditariedade e encontrar seu lugar no mundo

Disco 'Um Corpo no Mundo' foi lançado em 2017 e cresce com o tempo

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

02 Março 2018 | 06h00

De mala pronta para São Paulo, Luedji Luna ouvia palavras de encorajamento da mãe. Sem chororô – se houve, foi escondido, distante do olhar da filha em sua despedida de Salvador. Depois da partida, em 2015, a cantora só voltaria para casa dos pais para passar os Natais.

Viveria intensamente a nova cidade, a nova vida, a nova percepção de quem é, distante de casa, da sua origem. Foi um impacto deixar Salvador, morar em São Paulo, ela diz. Dessa pancada, veio Um Corpo no Mundo, o disco de estreia da artista de 30 anos. 

“A mudança foi o gatilho de tudo”, explica ela, de São Paulo. Nesta sexta-feira, 2, ela toca mais uma vez na cidade, no Sesc Belenzinho, a partir das 21h. Mostra o repertório do álbum lançado no fim do ano passado.

Em abril, ela fará uma temporada no teatro Centro da Terra, na zona oeste de São Paulo, com quatro shows, sempre às terças, para experimentar repertório de um segundo disco.

Um Corpo no Mundo é um trabalho para ser dissolvido na boca e o gosto às vezes é amargo – necessário como um remédio. E suas canções crescem com o tempo, tal qual a popularidade de Luedji.

Na última apresentação na cidade, em fevereiro, a cantora esgotou os ingressos do espaço Mundo Pensante, na Bela Vista. Era uma terça-feira, a casa abriria às 23h. Nesse horário, não havia mais ingressos disponíveis na bilheteria e muita gente ficou do lado de fora. 

Hoje, Luedji Luna surfa numa boa onda: é uma das cantoras mais interessantes da atualidade, pela voz, pela estética escolhida (é jazz, é afro, é samba) e pela sua escolha poética, de versos afiados, que sangram questões sobre as heranças negadas a ela e a tantos outros negros no País, descendentes daqueles que chegaram nos navios negreiros, sem identidade, sem humanidade. 

Ainda neste ano, a cantora participou do projeto Acorda Amor!, cuja direção artística era assinada por Décio 7, da banda Bixiga 70, e por Roberta Martinelli – apresentadora do programa Som a Pino, da Rádio Eldorado, do Cultura Livre, da TV Cultura, e colunista do Caderno 2, no Sesc Pompeia.

Entre outras vozes femininas de destaque dessa geração tão forte, como Liniker, Maria Gadú, Xenia França e Letrux, Luedji levou pessoas às lágrimas ao recitar o poema de Tatiana Nascimento, registrado na última canção do disco Um Corpo no Mundo: “O complexo de contenção: hospício é a mesma coisa que presídio / É a mesma coisa que escola / É a mesma coisa que prisão que é a mesma coisa de hospício / É a mesma coisa que as políticas uterinas de extermínio dum povo que não é reconhecido como civilização / Mas eu sei ser trovão”, vociferou ela. Arrepio e lágrimas. 

A força hipnótica de Luedji no palco vem se construindo aos poucos. Quando veio para São Paulo, aos 27 anos, ela já tinha o plano de viver de música na única mala trazida consigo. Vieram também duas músicas, Asas e Dentro Ali, composições datadas de 2012. São as únicas canções pré-Um Corpo no Mundo, mas que provam que aquele sentimento de não pertencimento e de busca pela sua essência e origem já estavam dentro dela, faltava algo. 

E veio, com um gosto amargo, na solidão. Luedji chegou a São Paulo com uma mala, mudou-se para a Barra Funda, frequentou o centro da cidade. “Não conhecia as pessoas daqui”, ela relembra. “Me deparei com uma solidão e percebi que não era representada na cidade. Vim de Salvador, que é a cidade do mundo com o maior número de negros fora da África. Em São Paulo, não me via nos lugares que frequentava”, ela explica.

Por viver próxima da estação rodoviária, via ali imigrantes haitianos e africanos a chegar à cidade, refugiados. “Eu ficava aliviada em perceber que não era a única”, ela conta. “E me lembrou da diáspora africana, que é não saber de onde eu vim, né? Qual é a nossa herança? Descendentes de italianos têm uma narrativa, é um avô que veio da região da Sicília. Eu não sei de qual das ‘áfricas’ eu vim”, conclui. 

Daí nasceu Um Corpo no Mundo, cujo título entrega esse descolamento e uma herança perdida. “É sobre a sensação de me sentir identificada com outro continente que não tenho como estabelecer uma conexão”, explica. Luedji planou nesse “não lugar”. E, no palco, encontrou seu espaço. Um lugar que é seu, por direito. 

LUEDJI LUNA 

Sesc Belenzinho. Teatro. Rua Padre Adelino, 1.000, telefone 2076-9700. 6ª (2), às 21h.  

Ingressos: de R$ 6 a R$ 20. 

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