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Lucinha Araujo compara holograma de Cazuza a filme 'Ghost'

'Quem sabe eu vou ficar como a mulher do filme?', comenta a mãe do cantor

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2013 | 19h15

No dia 4 de abril de 1958, Maria Lúcia Araujo deu à luz (e ao mundo), Agenor de Miranda Araujo Neto - o Cazuza. Desde então, sua vida nunca mais foi a mesma. Após acompanhar o sucesso e a doença do filho, fundou a Sociedade Viva Cazuza, onde trabalha cuidando de crianças soropositivas. Às vésperas do show no qual Cazuza aparecerá em forma de holograma, Lucinha -- como é conhecida -- falou ao Estado.

Você consegue pensar no que o Cazuza estaria fazendo hoje?

Eu acho que ele estaria pensando, ainda, que o Brasil não mudou a cara dele. E isso é ponto pacífico. Ele pediu tanto ‘Brasil mostra a sua cara’ e, até hoje, o Brasil não mostrou a cara. O que ele estaria fazendo eu não sei, mas eu sei que seria uma coisa de vanguarda. O Cazuza era muito à frente do tempo dele. Há muito tempo que eu não curtia tanto as letras dele como agora, nesse musical que está em cartaz aqui no Rio [refere-se a 'Cazuza - Pro dia nascer feliz, O Musical].

E o que você achou do musical?

Eu vou toda semana porque foi a única coisa que sobrou pra mim. Sinto saudade do meu filho, vou para lá e vejo o pessoal cantando. O Emílio Dantas faz o Cazuza muito bem. O sentimento que eu tenho não é nem de sofrimento, é de saudade. Todo mundo sai de lá chorando, mas eu não choro. Não é que eu não tenho sentimentos. É porque eu vou para lá para matar as minhas saudades dele. Qual é o outro jeito? Só com o disco não resolve. Os vídeos eu já vi inúmeras vezes. E lá é outra forma. Eu vejo o público aplaudindo de pé, de todas as idades. Velhinha de cabeça branca, a rapazeada que não conheceu ele. Você não pode calcular a emoção e o prazer. É um prazer saber que meu filho não morreu, porque uma pessoa que deixa uma obra como ele deixou, não morre. Fica pra sempre, como Noel Rosa, que morreu com 26 anos e até hoje se canta e se fala dele.

Agora o Cazuza vai aparecer em forma de holograma. Você já viu uma prévia?

Não vi nada. Eles contratam uma pessoa pra fazer os movimentos. Eu não sei nem o que é holograma porque eu sou das antigas, tenho 77 anos. Eu nunca ouvi falar nessa palavra. Eles me mandaram o rosto à medida que foram captando as imagens. Aí eu dizia ‘menos bochecha, ele não tinha furo no queixo…’. Dei uma mãozinha apenas. Eu não sei o que vai ser da minha cabeça às sete horas da noite de sábado em São Paulo. Holograma é uma coisa de fantasma. Quem sabe vai ser ‘Ghost’ e eu vou ficar que nem a mulher do filme?

E o que ele acharia disso?

Eu não faço muita ideia. Talvez ele até nem gostasse. Eles têm feito só de gente morta. Fizeram do Renato Russo. Eu não vi, mas me disseram que não foi bom. Mas aquilo não foi feito por técnicos, quem fez foi o filho dele. O menino não pode ter experiência pra isso. E esse do Cazuza foi mandado fazer fora do Brasil. Não sei se vai ser melhor ou pior. Em matéria de beleza eu sei te dizer: o Cazuza dava de dez no Renato. Mas em matéria de talento, não, eles se equivaliam. Eu também não vou ser tão cabotina pra dizer que o Cazuza era mais talentoso que o Renato Russo.

Você acha que o público que vai ao show é mais o pessoal que não conhece e quer conhecer, ou mais o pessoal que vai matar a saudade do Cazuza?

Eu acho que vai ser bem misturado, viu? Como no musical. Tem gente matando saudade e gente jovem querendo conhecer. Fiquei impressionada mesmo com o pessoal jovem e com os velhinhos de cabeça branca. As velhinhas vão de van, todas cantando Brasil, batendo palma. É emocionante. Outro dia teve uma velhinha que queria ir pro camarim pra falar com o Cazuza, dizendo que era amiga dele. Eu li até no Ancelmo [Gois, colunista do jornal O Globo] isso. Queria entrar de qualquer jeito. Diziam ‘Minha senhora, mas o Cazuza morreu há 23 anos!’. Devia estar doida, porque dizem que estava com a camiseta escrito ‘Maconha’. Então, devia estar doidona e queria ver o Cazuza.

Com o passar do tempo, as músicas dele mudam de sentido pra você?

Você sabe que o Emílio Dantas me disse que nunca tinha curtido Cazuza, mas se apaixonou pelas letras. Ele disse ‘Eu era burro. Eu não entendia o sentido daquelas letras. Agora é que eu entendi tudo. Pô, que cara genial!’. E sabe que comigo acontece muito isso? À proporção que o tempo vai passando, a gente vai entendendo a profundidade, é uma coisa impressionante.

Quando você ouviu 'Só as mães são felizes pela primeira vez', a sua reação foi de espanto. Você mudou a opinião sobre a música?

Era aquele negócio de eu ser burra também, né? O garoto não era burro sozinho. Eu fui ver com Ney Matogrosso no Canecão e era uma das últimas músicas do show. Ainda era Barão Vermelho. E quando ele disse ‘Só as mães são felizes’ eu falei ‘Opa, essa música ele deve ter feito pra mim’. Me achando, né? E no final ele termina dizendo ‘Quem nunca quis comer a sua mãe’. Eu não caí porque estava sentada, se eu tivesse em pé eu tinha caído. Eu falei ‘Ney, mas o que que é isso? Que música é essa?’. Ele dizia ‘Lucinha, isso aí é uma licença poética de uma letra. E essa frase nem é dele, é do Jack Kerouac’. Mas eu fiquei passada com aquele final. A música foi proibida pela censura e tudo. Eu não entendia. Aí eu falei ‘Cazuza, que merda é essa de você ficar falando absurdos de mim? O que é isso?’. E ele disse ‘Nada, deixa de ser ignorante. E essa frase não é nem minha, e isso é uma coisa figurativa. ‘Só as mães são felizes’ quer dizer que as mães podem tudo’. E aí eu fingi que entendi. Hoje em dia eu compreendo. Tudo é poesia. Você vê Augusto dos Anjos: 'escarra nessa boca que te beija'. Cazuza era o Augusto dos Anjos do rock.

Com tantas homenagens, você ainda se emociona?

A gente não pode deixar de se emocionar. Fico alegre que meu filho não tenha sido esquecido e me emociono porque tenho muita pena de ele ter ido embora. É um misto de alegria e tristeza, sempre. Eu penso nele toda hora. Tem ‘Sociedade Viva Cazuza’. Eu falo o nome dele o dia inteiro. Eu peço até conselho. Quando alguém pede pra musicar algum poema dele, eu digo ‘Cazuza, fulano me pediu pra musicar. Me dá um sinal, pra ver se você quer?’. É só ligar o rádio do carro e tá tocando Cazuza. Isso aconteceu muitas vezes. A gente tem uma ligação telepática. Ele me disse antes de morrer ‘Mãe, onde você estiver eu vou estar sempre com você’. E eu sinto essa presença dele perto de mim. E eu acompanho as homenagens. A Cássia gravou um disco só de Cazuza e eu acompanhei tudo. Sabe velha metida? Eu me meto em tudo! No dia que ela cantou 'Só as mães são felizes' eu estava lá. Foi emocionante. E ela nem conheceu o Cazuza. Viu uma vez só no Morro da Urca, e diz que ele não deixou ela entrar no camarim porque não sabia quem ela era. Deve ter sido muito gentil, né?

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