"Lucia di Lammermoor" estréia 2. ª no Municipal

Mostrada pela primeira vez em 1984, no Teatro Colón, a montagem de Lucia di Lammermoor, ópera de Gaetano Donizetti, que estréia segunda-feira em São Paulo, traz poucas diferenças em relação a sua versão original. Os cenários e figurinos são os mesmos, no entanto, o elenco - composto por estrelas internacionais como a soprano June Anderson e o tenor Frank Lopardo - e a direção cênica - assinada pela argentina Marga Niec - procuram dar à montagem nova vida. A regência será de Reinaldo Censabella, que estará à frente da Orquestra Sinfônica Municipal.Para Marga, que já foi assistente de direção no Scala de Milão e que já dirigiu diversas óperas em terras brasileiras, o grande desafio é mostrar de modo sutil a opressão, em sua opinião, o ponto principal da trama, que se passa na Escócia de fins do século 17. "Pretendo mostrar isso ao público sem que seja muito visível, quero que as pessoas sintam a opressão, mas não a percebam", explica. Para tanto, ela quer que todos os envolvidos na produção, orquestra, figurinos, iluminação e atores, trabalhem de forma integrada na recriação de tal ambiente. "O trabalho com os cantores tem sido muito interessante, eles entenderam aquilo que eu quero e agora só resta ensaiar: essa é a única forma de fazer um trabalho bem-feito."A ação de "Lucia di Lammermoor", inspirada no romance "The Bride of Lammermoor", de Walter Scott, acontece na Escócia, por volta do ano de 1700. Enrico (Mariusz Kwiecien), irmão e guardião de Lucia (June Anderson), quer proibir o romance de sua irmã com Edgardo (Frank Lopardo). Quando este parte para a França, ele forja cartas que comprovem que ele teria abandonado Lucia. Desolada, ela aceita casar-se com Arturo (Luciano Silveira), como queria seu irmão. No dia do noivado, Edgardo volta e amaldiçoa a amada. Momentos antes do casamento, Lucia aparece no salão do castelo e, após dar sinais de loucura, cai morta. Edgardo, quando fica sabendo da morte de Lucia, também se mata.Ambiente - Apesar das mudanças feitas pelo libretista Salvatore Cama, Marga acredita que o libreto traduz muto bem o ambiente e a essência do livro de Walter Scott, que inspirou Donizetti a compor a ópera. "Há a troca da mãe pelo irmão como opositor ao amor de Lucia e Edgardo, talvez a principal mudança, e, além disso, alguns personagens acabam ganhando maior importância como Enrico, uma espécie de Iago (personagem de Otello, de Verdi) que, de certa forma, resume toda a ação", indica. "As mudanças ajudam no processo de caracterização e possibilita, com mais clareza, criar a atmosfera que a ópera precisa."Um dos pontos altos da trama, segundo a diretora, é a presença de personagens fortes e interessantes. "Lucia encarna o romantismo da mulher e seu encontro com Edgardo revela o cavalheiro andante de seus sonhos, o homem pelo qual ela havia esperado, o que está bem descrito no livro e reproduzido de maneira interessante na ópera." Para ela, Enrico e Edgardo, apesar de inimigos mortais, possuem um ponto em comum. "Os dois têm uma herança familiar que se impõe em suas vidas: a luta dos dois, na verdade, é em busca da mesma coisa."O tenor norte-americano Frank Lopardo, que interpreta Edgardo, acredita que a vida do personagem gira em torno da decepção e da perda. "Durante toda a sua vida, ele viu aquilo que amava ser tirado dele e agora, após perder sua família, tem de viver longe de Lucia, seu grande amor."A opressão não se mostra apenas em relação a Lucia. O padre Raimundo, por exemplo, também aparece envolvido em um jogo de interesses que guia suas ações. "Se, no início, ele age em busca da reconciliação, durante a ópera, ele se mostra com medo: se Enrico perde, ele, por fazer parte da corte, perde também."Em Arturo, amigo de Edgardo que, durante a ópera, se volta contra ele, há também o interesse econômico. "Ele é prepotente, arrogante, pois sabe que é uma figura salvadora e que sobre ele vai cair uma herança que lhe interessa."Em meio a todo esse jogo de interesse, Marga acredita que a mensagem da ópera é a de que a opressão tem limites. "Não importa como você quer pressionar, só é possível ir até um certo ponto, pois, se a resistência é muito grande, você também perde."Lucia di Lammermoor. Ópera em 3 atos de Gaetano Donizetti. Dias 18, 21 e 26/9 às 20h30; 24/9, às 17 horas. DeR$ 15,00 a R$ 90,00. Vendas na bilheteria do teatro somente em dinheiro ou pelo tel. 5589-8202. Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/n.º, tel. 222-8698

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