Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

Lucas Santtana mescla música, cinema, arte e literatura em novo disco

Músico também faz críticas ao uso abusivo da tecnologia no inovador 'Modo Avião'

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

31 Maio 2017 | 06h31

A partir deste momento, todos os equipamentos eletrônicos, incluindo aparelhos celulares, deverão ser desligados ou mantidos no modo avião durante toda a leitura deste texto. Parodiando uma das frases mais ouvidas mundo afora em todas as viagens do setor aéreo, independentemente do idioma, quem levanta a questão, na verdade, é Lucas Santtana. Em Modo Avião, seu mais novo projeto musical, o sétimo de sua carreira, o cantor e compositor faz um convite íntimo à reflexão. 

Em tempos de escravidão tecnológica, no qual ficamos reféns dos celulares e do número de curtidas no Instagram e no Facebook, o músico baiano sugere uma pausa. Para ele, precisamos urgentemente de uma relação mais saudável com a tecnologia. “O Modo Avião é um jeito mais metafórico sobre os tempos que estamos vivendo. Isso tem piorado as relações humanas. O número de pessoas que toma remédio tarja preta aumentou gradativamente. Muita gente morreu no ano passado porque estava fazendo selfie em lugar perigoso. Estamos muito acelerados e ansiosos. Algo além do tempo. Precisamos parar”, diz Lucas em entrevista ao Estado.

Modo Avião, entretanto, é muito mais que um disco com músicas tranquilas. Além das 8 canções compostas por Lucas, há também um texto literário feito a quatro mãos por ele e o escritor e cineasta João Paulo Cuenca. O projeto caracteriza-se como uma história auditiva. É como ir ao cinema e assistir a um filme de olhos fechados, entendendo a narrativa do longa apenas por intermédio dos textos, das músicas e dos sons ambientes. O formato audiofilme inventado por Lucas, portanto, mistura música, literatura, cinema e arte dramática. “A primeira vez que eu tive a ideia deste projeto foi quando assisti ao filme Anticristo, do Lars von Trier, pela primeira vez. Achei bem chato. Me deu tanto sono. Pensei que aquilo era bom para dormir. Fechei os olhos e comecei a imaginar a história do longa. Ficava ouvindo só o som. Fiquei com isso na cabeça. Fiz essa experiência outras vezes também em casa. Comecei a achar essa brincadeira legal. Paralelamente a isso, tive a necessidade de dar um tempo com todas essas máquinas”, conta Lucas.

Em 2009, no disco Sem Nostalgia, Lucas já havia feito experiências com o som ambiente. Modo Avião, todavia, foi todo gravado com a microfonação binaural, que é bastante utilizada no cinema para captar o som ambiente das cenas. Os microfones normais permitem ao ouvinte uma audição 180º. O microfone binaural permite uma audição 360º. Os sons gravados com um microfone binaural proporcionam uma escuta surround e mais próxima do ouvido humano. Modo Avião é o primeiro disco na história da música brasileira a utilizar 100% esse tipo de microfonação. “Eu mesmo gravei trechos dos áudios no avião, na praia e no restaurante, por exemplo. Fui fazendo isso aos poucos, sem pressa”, lembra.

Para dar voz aos personagens da história de Modo Avião, Lucas convidou um time de atores de peso. Patrícia Pillar interpreta Maria; Georgette Fadel é Graciela; Mariana Lima dá voz a Alice; Aury Porto vive o personagem O outro; Maria Manoella representa a mulher do avião; Cadu Fávero, o garçom do restaurante; e Carolina Bianchi, a instigante Marina. “Cheguei a fazer testes com alguns amigos. Mostrei o projeto. Perguntei o que eles estavam sentindo. Cortei diálogos. Reduzi os tamanhos das músicas também justamente para que tudo tivesse uma fluidez sem a perda da atenção. O disco convida as pessoas a colocar o fone de ouvido e a fazer uma pausa. É justamente a mesma necessidade que tive comigo mesmo”, conclui ele.

Livro artesanal acompanha o Audiofilme

Um livro artesanal, costurado a mão e editado pela Lote 42, acompanha o audiofilme de Lucas Santtana. Com desenhos de Rafael Coutinho, a publicação mistura quadrinhos, pintura e desenhos. Escrito por João Paulo Cuenca, o livro ajuda o ouvinte a fazer uma imersão na história de Modo Avião. Os desenhos, portanto, estão diretamente relacionados ao enredo de Lucas e diálogos de Cuenca. “Elaboramos tudo com o maior cuidado do mundo. Eu realmente não queria fazer o livro só por fazer. O cuidado com ele, inclusive, foi até maior”, revela Lucas.

Questionado sobre a carreira de escritor, Lucas faz algumas ressalvas: “Tenho a pretensão de escrever um livro, mas não agora. Quero continuar trabalhando com esse formato de audiofilme. Quando eu tive a ideia para o projeto, fiz várias pesquisas e não encontrei quase nada parecido na internet. Busquei coisas que tivessem esse formato, com um texto literário, música e tudo mais. Não encontrei. Foi ruim porque eu não tinha referência nenhuma. Meio que fui fazendo e aprendendo”, salientou Lucas.

 

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