Lou Reed, o bardo de NY, vem a SP com "Ecstasy"

Aos 57 anos, com um casamento sólido (com a cantora performática Laurie Anderson) e uma banda sólida (que já atravessa quatro anos tocando consigo), o bardo norte-americano Lou Reed desembarca este fim de semana no Brasil para sua segunda aventura nos trópicos. Traz consigo a turnê de Ecstasy, seu mais recente e festejado disco.À base de muito tai chi e abstinência alcoólica, Lou Reed parece ter-se tornado indestrutível. Ao lado de Bob Dylan e Neil Young, é um dos mais criativos e inquietos músicos do rock e rock é um termo insuficiente para descrever tudo o que ele faz. É também o mais arredio e contido dos superastros que restaram dos anos 60, o que às vezes leva as pessoas a definir o músico como arrogante."Eu não sou rude", diz a inconfundível voz gutural ao telefone. É Lou Reed, falando por telefone à reportagem na noite de segunda-feira, de Buenos Aires. "Apenas estou mais interessado nos fãs e esse sujeito é apenas um crítico", afirmou, comentando artigo de um jornalista americano que escreveu que o cantor "é rude com a gente, mas essa é uma das razões pelas quais o amamos".Reed tem o pavio curto, principalmente com jornalistas. Chamou Ann Powers, do New York Times, de estúpida. "Oh, a natureza da besta", ironizou. Brincando, ele diz que às vezes é a favor da "pena de morte" para "certas pessoas" e que certamente deve ser bom para essas pessoas que não esteja no poder. Um exemplo? "Gente que dirige seus carros perigosamente", ele diz.Reed não é de fato rude, mas também não é de muitas palavras. "No Brasil, gostei principalmente das pessoas, é um povo muito musical", ele disse. "Tirei muitas fotos do Rio de Janeiro com uma câmera - costumo fazer exposições com as minhas fotos", contou. "Lembro-me também de ter comprado uma bola de futebol de salão no Rio."Louis Firbank, o Lou Reed, não é completamente alheio ao que acontece pelo mundo - muito pelo contrário. "O coração de um poema, para mim, está sempre ligado a uma experiência real", ele diz em um dos textos de sua mais nova colaboração com o diretor Robert Wilson, o espetáculo PoeTry (anteriormente, tinham feito a ópera Time Rocker juntos). "É um projeto muito estimulante, para o qual eu fiz os textos e as canções", lembrou Reed.Ele também diz que conhece quase todas as bandas que se inspiraram, ao longo de três décadas, na mitológica banda que liderou nos anos 60, o Velvet Underground (ao lado de John Cale, Sterling Morrison, Maureen Tucker e a cantora Nico). "Gosto de todas elas, são fantásticas, especialmente o Sonic Youth", ele revelou.Outra surpresa: Lou viu e aprovou a modelo Mila Jovovich cantando Satellite of Love, um dos seus hinos underground, na trilha e em cena de O Hotel de Um Milhão de Dólares, de Wim Wenders. "Ela é extremamente bela e eu adoro a cor dos seus olhos", confessou. "Também gostei do filme", complementou, dessa vez sem demasiado entusiasmo.Entre as novidades da carreira de Lou Reed, está a reedição de uma de suas obras mais controversas, o disco Metal Machine Music, lançado em 1975 e considerado um dos mais experimentais, difíceis (ou incompreensíveis) dos álbuns de rock de toda a história. O próprio Reed, nas notas originais do encarte do disco, admitiu: "Muitos de vocês não gostarão disso e eu não vou amaldiçoá-los por isso."Era puro ruído, sem melodias ou vocais. Mas Metal Machine Music virou um cult das vanguardas. "As pessoas disseram que antecipou o rock industrial", ele comentou. "Não foi muito ouvido e eu o usei basicamente como base para exposições em galerias e performances", lembrou. "Agora, eu mesmo supervisionei a remasterização e o relançamento."Outro lançamento é Pass Thru Fire - The Collected Lyrics, que reúne as letras de Reed. Mas não é da combinação entre letras e poemas, teatro e rock, palavras e canções que surge o trabalho de Lou Reed? Para que separar as coisas? "Sim, a combinação dessas coisas forma uma grande parte do meu trabalho, mas há canções que subsistem sem o suporte rítmico e são essas letras que reúno em Pass Thru Fire", ele disse.Difícil - Lou Reed volta ao Brasil com a mesma banda com a qual veio há três anos: o baixista Fernando Saunders, o guitarrista Mike Rathke e o baterista Tony ´Thunder´ Smith. Conhecido por seu gênio difícil e por ter alternado diversos parceiros ao longo da carreira, é surpreendente que Lou se mantenha há tanto tempo com o mesmo grupo."O que eles têm de tão especial?", indagou. "Têm espírito forte, isso é que é o mais importante", ponderou. Com o grupo, ele começou a atual turnê de Ecstasy, em 6 de junho em Seattle. Tocou lá no Benaroya Hall, a casa erudita da Seattle Simphony - um pequeno ultraje, já que nenhuma banda de rock tinha pisado antes no local.O show atual de Reed baseia-se muito particularmente nos diálogos entre as guitarras do cantor e a de Rathke, que conspiram contra a tradição de solos longos e virtuosísticos do rock setentista. Eles fazem muito barulho e tocam riffs circulares, hipnóticos, velozes.Entre as canções que certamente estarão no show há as do disco novo, como Paranoia Key of E, Ecstasy, Rock Minuet (a resposta ano 2000 de Reed ao seu próprio clássico Walk on the Wild Side), a longuíssima Like a Possum (18 minutos de duração). Do disco anterior, vem a belíssima Set the Twilight Reeling. E, das mais antigas, comparecem Sweet Jane, Vicious, Future Farmers of America, Mad e The Blue Mask.A entrevista é curta, dura apenas 15 minutos, e é o próprio Reed quem avisa, polidamente, que "é a última questão". Elogia a polidez do repórter e se despede. O telefone mudo fica zumbindo no ouvido - e uma meia dúzia de questões que nunca serão respondidas.Lou Reed é o grande bardo nova-iorquino, o primeiro a cantar o lado escuro da vida, a incorporar à sua lírica o estilete, o travesti, as drogas pesadas e o homossexualismo. Ele nasceu em Freeport, Long Island (Nova York), em 2 de março de 1943, e aos 17 anos foi enviado pelos pais (Toby e Sidney) para um manicômio. Era demasiado rebelde. Durante oito semanas, foi tratado com choques elétricos.Depois, saiu, estudou jornalismo e letras na Syracuse University - onde conheceu um dos seus mentores intelectuais, o poeta Delmore Schwartz - e passou a tocar numa bandinha adolescente chamada The Shades. Depois, fundou uma banda-projeto que forneceu as bases para boa parte do rock que se seguiu, o Velvet Underground. Passou a freqüentar as vanguardas nova-iorquinas, tornou-se amigo de Andy Warhol e tocou em sessões históricas no extinto Max´s Kansas City em Nova York.Tocou apenas três vezes no Brasil, uma no Rio e duas em São Paulo. Se você não foi a nenhuma delas, não perca mais essa chance.Lou Reed. Terça (14), às 21h30. De R$ 25,00 a R$ 120,00. Credicard Hall. Avenida das Nações Unidas, 17.955, tel. 5643-2500. Patrocínio: ZIP.NET.

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