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Lou Doillon estreia na música e dispensa credenciais familiares

Filha da atriz e cantora inglesa Jane Birkin com o cineasta francês Jacques Doillon, artista lança o despretensioso e original 'Places'

Thiago Mattos, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2012 | 07h00

Nascida e criada entre o glamour das câmeras e das passarelas, Lou Doillon circulava por mundos onde não se sentia propriamente em casa. Filha da atriz-cantora inglesa Jane Birkin com o cineasta francês Jacques Doillon - portanto meia-irmã da também cantora Charlotte Gainsbourg -, passou a vida sendo frequentemente associada a esses nomes já conhecidos e seguia entre filmes e desfiles, flashes e fama. Agora, suas credenciais familiares podem não ser mais tão necessárias.

É o que atesta o lançamento de Places, seu álbum de estreia que deve chegar ao Brasil no começo de 2013 (embora já esteja disponível no formato digital pela loja virtual da Apple). Despretensiosamente original, Places ajuda a derrubar o mito de que criaturas que nasceram para as passarelas jamais deveriam entrar em estúdio. Chama atenção a maturidade incomum de quem acabou de se descobrir em um novo métier.

“O disco é um mapa de lugares. Alguns de verdade, outros do coração e do corpo, lugares que eu conheço e não conheço, que quero conhecer e de onde estou fugindo”, diz a cantora, por telefone, em entrevista exclusiva ao Estado. “Comecei atuando quando era muito jovem, talvez pelos motivos errados. Também era complicado ser uma modelo porque as pessoas não gostam de uma garota que lê muito ou tem uma opinião sobre tudo.”

Em inglês e em casa. Apesar de viver na França, Lou não se identifica com o cenário musical de seu país. Suas canções fogem da língua de Rimbaud e Baudelaire como se ali também soasse estranha; sente-se mais à vontade para falar de intimidades na mesmo idioma em que se comunica com a mãe. “Eu encontro uma relação entre som e significado em inglês que sinto falta em francês. As letras sempre vieram naturalmente para mim assim.”

O fato de não se tratar apenas de mais uma francesa-que-canta-em-inglês joga a seu favor. Sua figura exótica chama mais atenção pela franqueza que usa para se expressar do que pela sensualidade com que canta - e sensualidade é o que não falta, seja no jeito, no timbre ou no visual. Sua voz rouca mistura melodias suaves a temas angustiantes e faz de Places um belo début. O piano insistente, a vassourinha marcante na bateria e a guitarra discreta entram em harmonia com o tom confessional e desesperado de seu canto grave. Com as reservas que devemos guardar às comparações, está muito mais para Patti Smith do que Serge Gainsbourg. “A felicidade raramente é uma coisa que motiva da mesma maneira que a raiva ou o ódio”, afirma Lou, revelando sua preferência pelas temas conflituosos do amor.

Desde a primeira faixa, I. C. U., a cantora derrama toda a perturbação de seu desamparo que segue até o fim do disco. A letra fala de uma alma manchada pela separação e atormentada pelo fantasma de um amor perdido, que lhe segue como uma sombra.

Outras canções seguem pelo mesmo universo, vez por outra contrastando uma melodia timidamente mais animada com letras que exalam conflito. “Oh, estou cansada / Oh, estou partida / Tento sorrir / E engulo os espinhos / Estou ácida / Devastada / E tento fingir / Que estou bem / Comigo mesma”, dizem os versos de uma das mais leves do disco, Make A Sound.

Lou assume sua fragilidade feminina e dedica o álbum inteiramente aos homens. “Há mulheres na música pop enviando a mensagem de que são fortes e independentes. Sempre tive um problema com isso, pois me sinto muito feminina. Realmente amo os homens, preciso deles e é assim que é. Não me diminui em nada dizer que posso ficar de joelhos por um homem.”

E assim ela segue reconhecendo também as fraquezas daqueles que admira. “Não gosto de generalizações mas às vezes os homens podem ser impulsivos, covardes e assustados. Muitos dos meus amigos deixariam uma garota por outra e a maioria das minhas amigas simplesmente deixaria um cara, porque não há tanto esse medo de ficar sozinha. Acho que deve ser bem difícil ser um homem hoje em dia, muitos querem continuar sendo garotos e isso se torna um problema, inclusive para as mulheres”, diz.

Com um tom predominantemente autobiográfico, Lou não demonstra vergonha ao assumir seu sofrimento diante de perdas, nem de sucumbir diante da dor - por mais estranho que possa ser uma mulher com toda sua beleza e riqueza chorando dores de cotovelo pelos cantos. “Mesmo que você seja uma mulher com trabalho, dinheiro, felicidade e não tenha um homem, isso é o que realmente importa no final”, afirma.

Sua sinceridade direta chama atenção também por um tipo de engajamento corajoso. Lou bate de frente com outro tabu, mas por um prisma em que poucos pensaram. “A coisa mais importante para um artista é que sua arte seja conhecida, e se as pessoas fazem download sem pagar porque estão quebradas, por mim tudo bem. Prefiro ter minha música ouvida. O problema para mim está nas grandes corporações que ganham dinheiro independentemente da pirataria, já que alguém está pagando para ter internet.”

Por toda a sensibilidade e entrega da artista, pela energia que extravasa de modo delicado, passeando pelas onze faixas de Places, fica claro que Lou Doillon encontrou seu lugar.

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