Caroline Bittencourt/Divulgação
Caroline Bittencourt/Divulgação

Los Hermanos promove carnaval sem fim no segundo show em SP

Banda encerra nova passagem pela cidade com apresentação mais longa, com 31 músicas, e fãs em êxtase

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2015 | 12h33

Era um êxtase anunciado. Previsto. Já visto. Ainda assim, impressiona. A segunda noite de apresentações do Los Hermanos em São Paulo, criada a partir das reclamações de que a anterior, sábado, 24, era entre os dias de prova do Enem, foi mais aconchegante. Trocou-se a gigantesca Arena Anhembi, com seus 30 mil fãs, para o aconchego do Espaço das Américas. Não estava cheio, abarrotado, mas era o suficiente para que o coro do público sobrepujasse as vozes de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante.

Era o suficiente para criar aquela catarse já velha conhecida de qualquer um que já assistiu a uma performance dos Hermanos – e talvez responsável, direta ou indiretamente, para o interrupção das inclusões da banda aos estúdios, embora essa justificativa seja apenas especulação. O fato é que se o quarteto carioca toca, o público entra em frenesi.

E acaba se tornando um ciclo. A distância dos palcos, na formação como banda, promove uma insanidade saudável do seus fãs. Se gosta do grupo, não vai perder a chance de vê-los ao vivo. Mesmo que as mais recentes turnês tenham acontecido com frequência, a última foi há 3 anos – até mesmo as gringas Iron Maiden e Metallica já passaram por aqui nesse intervalo de tempo.

Então, o show do Los Hermanos é um evento. E ponto. O caráter messiânico que a banda adquiriu com o passar dos anos, incomoda alguns. Nas a verdade é: show, meu caro, é feito para se assistir, cantar junto, se jogar dentro daquela atmosfera criada dentro do palco. Os discos estão aí para se ter a clareza sonora, canções cristalinas, etc.

O ponto, e mais impressionante, é como o grupo ainda formado por Rodrigo Barba (bateria) e Bruno Medina (teclado) foi capaz de crescer, ou pelo menos se manter na crista, dez anos sem um disco. As explicações jorram por todos os lados na internet e batem na tecla da revolução indireta promovida pelo grupo. Anna Júlia, primeiro hit do grupo, do álbum de 1999, foi o canto do cisne do pop rock nacional com cérebro. E, ainda assim, o quarteto decidiu subverter a fórmula do sucesso e apostar na direção contrária. Bloco do Eu Sozinho, disco que veio na sequência, tem mais sambas tortos do que canções pop jovem-guardista. Os Hermanos não seguiram por caminhos lógicos na sua discografia. Chegaram ao fim, ou neste dito hiato, com o vagaroso 4, álbum que é oposto a tudo o que se viu naquele hardcore com metais e algum festejo agridoce de Los Hermanos (o disco).

Mas essa análise é mercadológica demais para o que se assiste durante um show da banda. Eles são quem são, com o status de maior e última grande banda de pop rock nacional – chorem, indies –, porque sabem tocar no âmago de cada um. Me diga um jovem que, por volta dos seus 30 anos, que não tenha encontrado conforto em alguns versos de Camelo ou Amarante. Se isso não aconteceu, é porque esse pobre rapaz nunca teve o coração partido e, se teve, não encontrou a trilha sonora hermânica na sua fossa.

Los Hermanos, mesmo com os alegados vocais preguiçosos e alguns pretenciosismos nas suas letras, parece encontrar as fossas mais bem guardadas, aquelas deixadas para lá porque nunca soubemos como lidar com elas. São canções de amor, como tantas outras, mas que embalaram uma geração. E, com esses novos shows e turnês esporádicas, encontram novos fãs. Era fácil encontrar gente que, em 1999, quando saiu o primeiro disco, não tinha idade para entender o que é ter o coração partido. Gente embalado por canções dos discos, longe do frenesi durante o tempo em atividade da banda.

Diferentes gerações, idades distantes, cantam alto ao som dos Hermanos. E, entenda você, hater, eles não cantam para aparecer. Aquela catarse não é para eles, os músicos no palco. A catarse não é coletiva, por mais que sejam milhares de pessoas ali. São milhares, sim, mas cada um canta dentro do seu universo próprio. Cantam para si mesmos. Gritam para tirar de dentro, do coração, angústias que não precisa, ou deveriam, estar ali guardadas. Expurgam dores. Limpam as próprias almas. As cordas vocais arrebentadas, a voz rouca, pós-show do Los Hermanos, é sinal de leveza. 

Todo carnaval tem seu fim, já cantou Camelo em uma das canções mais icônicas do grupo. Na plateia, cada vive seu carnaval próprio. Tem fim, sim, mas é infinito dentro do seu próprio significado. 

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