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Los Hermanos na cabeça

'Ventura' é eleito por fãs o melhor entre 30 álbuns brasileiros; 'Clube da Esquina' fica em 2° lugar

Emanuel Bomfim - O Estado de S.Paulo,

08 de setembro de 2012 | 08h08

Foram, ao todo, 11 dias de votação intensa. No páreo, estavam 30 discos, uma paleta abrangente e heterodoxa de grandes momentos da produção musical no Brasil. Poderia ser uma lista com 50, 100 ou até mais. Há material farto para abastecer uma ambição perseguida por jornalistas e produtores ao longo da história, repetida frequentemente e sempre fruto de discussões acaloradas: elencar os melhores. Desta vez, porém, havia uma diferença substancial, ao recusar o sabor do filtro da “cricrice” para delegar à audiência, pelo simples clique no mouse, a responsabilidade de escolher o melhor entre 30 selecionados pela redação.

A adesão foi imediata, fruto da divulgação dos veículos envolvidos e promotores da ação: a Rádio Eldorado FM, o Caderno2+Música e o portal Estadão.com.br. No princípio, leitores, ouvintes e internautas distribuíram suas preferências de maneira “orgânica”, sem a interferência de campanhas diretas ou indiretas. Por três dias, a enquete foi marcada por uma disputa equilibrada entre três clássicos setentistas: Clube da Esquina, Elis & Tom e Construção, de Chico Buarque.

Assim como o efeito de um terremoto, a onda demorou a ser sentida por canais organizados de fãs e simpatizantes de um artista na internet. Quando chegou, o impacto foi imediato. O termômetro sobre a classificação passou a ganhar outro fator de análise relevante. Além da espontaneidade da escolha, agora se provava da estrondosa capacidade de mobilização dos fãs plugados. No imediatismo do Facebook, em questão de horas, Ventura, do Los Hermanos, assumiu a liderança. E com larga vantagem. Algo em torno de mil votos à frente do segundo, Clube da Esquina. Uma liderança jamais ameaçada desde então, mas que viu a diferença cair pela metade até o encerramento das votações, no dia 4 de setembro.

É bem verdade que não foi só a comunidade dos barbudos que promoveu seu disco nas redes sociais. Em momentos diferentes ao longo dos 11 dias, outros artistas convidaram seus seguidores a participar do pleito. Via de regra, quão mais recente era o disco, maior era o reforço de votos - em tese, pelo perfil mais jovem do participante. Mas há outro elemento importante nesta análise: a relação que existe entre os fãs e seus ídolos. E, nesse ponto, três artistas desfrutam uma “paixonite” aguda de sua audiência quase religiosa: Los Hermanos, Legião Urbana e Raul Seixas. Tanto que os três ficaram no “top 5” da lista, com Ventura em primeiro, Dois, da Legião, em terceiro, e Krig-ha, Bandolo!, de Raul, em quinto.

O envolvimento exacerbado de fãs desvirtua, mas não invalida o valor da eleição. É da natureza das paixões produzir algo que foge à racionalidade calculada. Estar entre os 30 já era sinal do reconhecimento da obra, pelo seu valor artístico e sua projeção entre os ouvintes - critério muitas vezes ignorado em muitas listas. Todos estavam aptos a ganhar, até mesmo aqueles órfãos de um marketing mais certeiro.

Clube da Esquina, que ficou na segunda posição, é um caso simbólico. Apesar de representar uma das revoluções estéticas mais importantes da nossa música, os músicos que dali surgiram pouco fizeram para se perpetuar ao longo das décadas, diferentemente do processo vivido pelos artistas da Tropicália, em especial Caetano Veloso e Gilberto Gil. Basicamente, só Milton Nascimento conseguiu se manter na crista. Ao contrário de Ventura, vale ressaltar, o Clube chegou ao topo essencialmente conduzido por votos espontâneos, e não por correntes em redes sociais. Curioso o fraco desempenho dos baianos na enquete. Tropicália, no entanto, foi bem e fechou o “Top 10”.

Há outro fato peculiar no resultado, jamais esperado em eleições com tantos concorrentes: um empate. Aconteceu com Acabou Chorare, dos Novos Baianos, e o disco homônimo do Secos e Molhados, que dividiram o oitavo lugar com 1.168 votos. É até bonito ver um empate entre trabalhos tão importantes e próximos assim. Ambos tiveram no rock um farol para a construção de uma linguagem própria.

Ainda poderia se fazer uma série de menções honrosas, mas o maior merecedor delas é Cartola, que ficou na 14.ª posição. Difícil crer que seus votos tenham vindo de mobilizações virtuais, e não dos apreciadores de seu samba registrado nesse disco de 1976, com clássicos absolutos como O Mundo É Um Moinho e As Rosas não Falam. Evidencia um legado que está longe de cair no esquecimento e enfraquece a teoria de que a web seja terra onde os fracos de seguidores não têm vez.

Pouco mais de 25 mil votos, nestes 11 dias, fizeram da enquete uma “desculpa” para algo mais nobre do que a mera disposição do ranking. É muito provável que se recomeçássemos a mesma eleição hoje, fatalmente teríamos outro resultado. Nem as contradições de uma enquete na internet podem minar a saudável discussão sobre elementos que retrataram a evolução cultural de um País sedento por música e aberto à inovação.

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