Los Hermanos instiga comentário gostei, não gostei

Nos últimos dois meses, tenho ouvido de viva voz ou lido em e-mails a mesma pergunta, repetidas vezes: ?O que você achou do novo disco dos Hermanos?? Quase sempre ela puxava uma segunda pergunta: ?Não vai escrever sobre 4, não?? Eu respondia: Não, por enquanto não pretendo escrever, porque não achei nada muito diferente do que já se leu por aí.Eu não tinha a menor pressa. Concordei quando, há algum tempo, nas entrevistas que concedeu quando lançou Noites do Norte, Caetano Veloso disse que o afã de pôr na rua comentários sobre certas obras periga resultar em injustiça ou irrelevância. Elas precisam de sucessivos banhos de suco gástrico para serem bem apreciadas. Ironicamente, o alerta de Caetano foi sempre publicado ao lado de resenhas do seu CD. Estavam todos surdos.Caetano, acho, gosta dos Hermanos. Eu também. E já o superior Ventura, de 2003, CD anterior dos quatro barbudos cariocas Marcelo Camelo (voz e guitarra), Rodrigo Amarante (voz e guitarra), Bruno Medina (teclados) e Rodrigo Barba (bateria), havia me exigido duas semanas de digestão. Só aí escrevi positivamente sobre ele, noutro lugar. Um pouco depois, eu e o Paulo Roberto Pires entrevistamos os dois cantores-guitarristas aqui para o site.Portanto, do meu ponto de vista, nada havia de anormal em não escrever de imediato sobre 4. Na verdade, talvez eu nunca viesse a escrever sobre o disco. Nada errado com ele, mas comigo, por eu não achar o que tinha a dizer relevante em relação ao que já se tinha dito. Curiosamente, porém, longe de refluir, a tal maré de perguntas parece vir se avolumando nas duas últimas semanas. Minha impressão é de que ninguém está ainda muito seguro do que achou do CD. Eu também não. Este texto, então, tornou-se uma (auto-)investigação.Reli as mensagens sobre 4. Vi que elas se dividiam quase irmãmente em quatro blocos. O primeiro elogiava: ?Gostei e acho que tem tudo a ver com os velhos discos.? O segundo ponderava: ?Gostei, mas não tem nada a ver com os velhos discos.? O terceiro reconhecia: ?Não gostei, mas acho que tem tudo a ver com os velhos discos.? E o quarto lamentava: ?Não gostei porque acho que não tem mais nada a ver com os velhos discos.?Um CD que suscita em gente que gosta dos Hermanos tal diversidade de comentários é, no mínimo, instigante. Por que, caramba, ele não me suscitava um único comentário digno de ser escrito? Justamente porque, no final das contas, eu me descobri em todos os quatro blocos, perdido na tensão gostei/não gostei, tem/não tem a ver. Ofereço a seguir quatro ou cinco versões diferentes (e não necessariamente excludentes) do que hoje sinto sobre 4.Versão gostei/tem a ver. Os discos da banda nunca foram iguais uns ao outros. Isso já é um valor em si numa época em que quase ninguém se arrisca a sair do figurino. O ska-hardcore Los Hermanos (1999) era diferente de tudo o que se fazia na época. O pierrô-de-cabaré Bloco do Eu Sozinho (2001) era diferente até de Los Hermanos. E Ventura, em sua incrível diversidade interna, era diferente dos dois anteriores. 4 segue a senda: dribla qualquer expectativa que se possa ter tido, exceto a de que seria um trabalho íntegro. Versão gostei/não tem a ver. Os três primeiros CDs dos Hermanos tinham em comum não só a mudança incessante, mas também o fato de que ela sempre terminava por achar uma veia pop qualquer. Aqui, não. As 12 faixas de 4 são o ponto mais distante a que Los Hermanos já chegaram da desprezada Anna Julia. Não há ganchos fáceis, refrões pegajosos, ritmos marcados. Há apenas vislumbres de belas melodias, como em Dois Barcos e, sobretudo, Horizonte Distante. Estamos em pleno terreno do pós-rock.Versão não gostei/tem a ver. Romper quase totalmente os vínculos com o pop tem um preço para uma banda - até segunda ordem - de rock. Los Hermanos nunca tiveram medo de pagar para ver. Entretanto, o mergulho demandado joga a apreciação de 4 para o futuro. Outro disco com um número de título, V, da Legião Urbana, demorou anos até ser reconhecido (inclusive por mim) como a obra-prima que é. Curiosidade: a introdução de Sapato Novo, de 4, mais parece uma passagem de Metal contra as Nuvens, de V.Versão não gostei/não tem a ver. Outro fim de semana, os garotos de uma casa na vizinhança fizeram um churrasco ao som de Ventura (têm bom gosto). Nunca ninguém fará um churrasco ao som de 4. Falta ao novo disco a velha qualidade de contrabandear letras e arranjos complexos por baixo de um boa dose de digestivo, assobiável. Aqui, a muamba está exposta, desconfortável, em harmonias estranhas e letras fragmentadas.Versão todas as opções anteriores: perguntem-me de novo sobre 4 daqui a um ou dois anos, por favor. Até lá, vou continuar tentando decifrar o disco.P.S.: Aos órfãos de Los Hermanos e Bloco do Eu Sozinho só posso recomendar, sem nenhuma ironia, o primeiro CD do quarteto Ramirez, também carioca. A referência aos velhos Hermanos é tão escancarada que se assume como reverência. A faixa Matriz até poderia figurar, sem fazer vergonha, nos dois primeiros discos dos barbudos.N

Agencia Estado,

20 de setembro de 2005 | 18h38

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