Mario Ruiz - EFE
Mario Ruiz - EFE

Lollapalooza Chile termina com saldo favorável

Soundgarden e Johnny Marr fazem shows memoráveis em Santiago

Jotabê Medeiros, Santiago do Chile - O Estado de S.Paulo

31 de março de 2014 | 10h55

Para começar, a recomendação: há dois shows imperdíveis no Lollapalooza: Johnny Marr e Soundgarden. Duas jornadas memoráveis do rock’n’roll. Foi o saldo que ficou da segunda noite do Lollapalooza Chile, um comboio que levou 160 mil pessoas em dois dias ao Parque O'Higgins de Santiago e está desembarcando no Brasil no próximo final de semana.

O resto fica assim: Arcade Fire é o show mais grandioso do festival, mas longo demais, e talvez percussivo demais. New Order é uma farra muito maior do que já foi há alguns anos, quando de sua primeira reunião – agora está com uma parafernália visual de impor respeito; a banda de Julian Casablancas é um equívoco, como se fosse um Strokes com vontade de ser metal, mas que não é nem metal nem Strokes; Portugal. The man: com, esse ainda é um embrião de um show. Vampire Weekend anda precisando de uns anabolizantes.

Johnny Marr, ex-Smiths, munido apenas de sua guitarra e o velho cabelo de mod temporão, fez o dia valer muito mais. Ao primeiro solo, desvelou-se toda a linha evolutiva da guitarra do britpop, que ele inventou, e as canções dos Smiths que sobrevieram ao longo do show trouxeram uma espécie de redenção para quem estava entupido de derivativos. “There is a light that never goes out”, diria o espírito de uma Londres indomável que ainda vive nessa figura meio congelada no tempo que é Johnny. Com sua fleuma britânica, ele foi empilhando as fundamentais, como How Soon is Now? E Bigmouth Strikes Again. Marr ainda esmerilhou uma do Clash que é simplesmente oportuna para esses tempos de exorcismo de golpes: I Fought the Law.

Mas o Soundgarden, cuja reunião reacende o sinal de perigo grunge, foi o fecho ideal da noite. Em sua primeira turnê pela América latina, eles entraram após um show interminável do Arcade Fire, que estava desfrutando de sua faceta Olodum na festa. “Não sei porque demoramos tanto para vir até aqui. Daqui de cima dá para ver que vocês estão ótimos”, disse o cantor Chris Cornell. Outro toque de guitarra veio esquentar a noite fria de Santiago, dessa vez de Kim Tahil. Notável inventor do instrumento. Obrigatório para quem gosta. Eles abriram com Searching with My Good Eye Closed, e foram esquentando com Spoonman, Let me Drown e Rowing, até chegar em Black Hole Sun e Jesus Christ Pose.

Os Pixies não fizeram um show memorável, mas também nunca são de se jogar fora. A nova baixista, Paz Lechantin, é apenas uma instrumentista de sessão, sem muita personalidade. Falta muito para chegar a uma Kim Deal – e seus solos, como em Hey, são inócuos. O New Order estava bem: até o dono do festival, Perry Farrell, saiu da toca para ir ver a banda, que encerrava a jornada.

As novidades tão esperadas não deram em nada. Portugal. The Man começou seu show com problemas de som, mas quando estes foram resolvidos o grupo mostrou que ainda não tem cacife para um palco principal de um festival. Sua porção Ziggy Stardust não é alienígena, seus falsetes têm cheiro de banda de botequim. Já nova diva Lorde veio com um caminhão de bases programadas e derramou sua porção “teen angst” e seu cabelão em cima das garotas iniciadas, que já a seguem pelo planeta. A cantora neozelandesa é mais neogospel do que neosoul. Sua vontade de ser Amy Winehouse é grande, mas ainda precisa de algo mais do que uns dois pilotos de botões e uns coros gravados ao seu lado.

Kid Cudi (codinome de Scott Mescudi) é um estranho caso de um show muito chato que arrebanha muitos fãs. Não dá para dançar muito suas bases de quase hip hop, quase dub, quase reggae. Fica no meio de um monte de coisa. E ele ocupou um palco, no gigantesco ginásio que abrigava a eletrônica, trezentas vezes maior que ele em Santiago. Talvez se reduzirem suas pretensões.

Grupos tradicionais, como o veterano Inti Illimani, fizeram shows de grande apelo, muito sólidos em conceito e convicção. Para alguns jornalistas argentinos que estavam na área de imprensa (o Lollapalooza chega a Buenos Aires no meio da semana pela primeira vez), nada superou o grupo mexicano Café Tacuba. Têm senso dionisíaco e também faro dramático. De fato, o efeito da banda sobre o público latino-americano foi espantoso. Resta saber se seria igual para um público brasileiro gigantesco.

O repórter viajou a convite da produção 

Tudo o que sabemos sobre:
LollapaloozaSoundgarden, Arcade Fire

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.