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Lolla nos Andes

Começa amanhã, no Chile, o festival de rock Lollapalooza, criado em 1991 e que pela primeira vez sai dos EUA

Jotabê Medeiros - O Estado de S.Paulo (enviado especial a Santiago),

01 Abril 2011 | 06h00

Os indies tomaram os Andes. O maior festival de rock da história do Chile começa amanhã. É como se o sonho americano tivesse sido transplantado para as montanhas da América do Sul - depois de 20 anos em território ianque, o festival norte-americano Lollapalooza, criado em 1991 pelo roqueiro Perry Farrell, atravessa a alfândega de seu País e chega ao Chile. De 60 mil a 80 mil almas são aguardadas no fabuloso Parque O’Higgins, de Santiago, nestes sábado e domingo. Promete ser um parque de diversões: todos os menores de 10 anos podem entrar em Lollapalooza gratuitamente, desde que acompanhados por um responsável com ingresso.

O clima já esquentou. A cantora Karen O, dos Yeah Yeah Yeahs, chegou antes. Esteve nesses dias preliminares percorrendo o deserto do Atacama e a Patagônia chilena, para fazer um tipo de "reconhecimento do terreno". A assessoria da Lotus Producciones, de Sebastian de La Barra (que realiza o festival no Chile em parceria com o criador do evento, Perry Farrell) informou que todas as 60 mil entradas colocadas à venda já tinham sido esgotadas e que já está trabalhando no Lollapalooza Chile 2012, no mesmo período do ano que vem.

Perry Farrell, há dois anos, anunciava que o Lollapalooza viria à América do Sul, mas cogitava o Brasil. Descobriu então que a concorrência aqui andava braba - o Brasil já tinha muitos festivais internacionais, "muitas namoradas", como ele definiu. Ao chegar ao Chile para tocar com sua banda, encontrou um parceiro ideal, Sebastian de La Barra, que o convenceu a levar o festival para a capital chilena e seu grande parque urbano. "Quando conheci Sebastian, notei que tinha a mesma disposição dos melhores produtores com que já tive o prazer de trabalhar. É inteligente, relaxado e consegue se divertir e trabalhar ao mesmo tempo", afirmou Farrell.

Perry Farrell foi um dos precursores do grunge com sua banda Jane’s Addiction, que formou em 1985. Em 1993, criou o Porno for Pyros, outro grupo muito singular na história do rock. Entre um e outro grupo, inventou o festival alternativo, com foco em questões políticas e ambientais, um festival-fórum que hoje está baseado no magnífico Grant Park, no coração de Chicago. Até o desenho Os Simpsons embarcou na onda - um dos episódios mostrou o festival Homerpalooza, em homenagem à festa.

No Chile, Farrell exigiu que se plantassem 20 mil árvores para compensar o efeito da invasão de pessoas no parque, e proibiram-se bebidas alcoólicas no Parque O’Higgins. "O parque tem um suave declive, com uma perfeita vista da Cordilheira dos Andes, muitas árvores e sombra. Um dos meus aspectos favoritos nesse lugar é uma grande cúpula que abriga até 10 mil pessoas. Está dentro de um parque de diversões com montanha-russa e as pessoas curtem por ali o dia inteiro", disse Farrell.

A banda de Farrell é uma das grandes atrações do festival. O Jane’s Addiction tocará com sua formação original, com Farrell, Stephen Perkins e Dave Navarro (ex-Red Hot Chilli Peppers). A banda Flaming Lips, grupo que mescla rock e psicodelia, liderada por Wayne Coyne, traz seu fabuloso circo de rock’n’roll ao festival. The Killers se apresenta em momento de distensão - o vocalista está em momento solo, promovendo seu disco.

Apesar de não descuidar do mainstream - estão escalados nomes como Kanye West, Cypress Hill, Devendra Banhart, Cat Power, Deftones (que se apresenta pela primeira vez sem seu baixista Chi Cheng, desde 2008 fora do palco devido a um acidente que o manteve em coma por 18 meses) e outros -, o Lollapalooza Chile é um festival de pop rock alternativo. Bandas das mais interessantes da nova geração, como Edward Sharpe and the Magnetic Zeros, Cold War Kids, The Drums, Datarock, Bomba Stereo e outros estão na jornada.

Os quatro palcos terão de tudo, e um deles, como é tradição, abriga a música eletrônica - o britânico Fatboy Slim, o holandês Armin Van Buuren e grupos como Empire of the Sun, Fischerspooner e Boyze Noise tocarão, além do anfitrião Farrell, como DJ.

O Chile nunca teve um festival internacional de porte. Os próprios organizadores têm estimativa modesta para essa primeira edição. Mas Perry Farrelll encara a mostra com um tipo de "intercâmbio cultural". Não por acaso está escalando as melhores bandas chilenas desta edição no Lollapalooza americano, em Chicago. São muitos heróis locais: Fother Muckers, Los Bunkers (que tocaram em Coachella), Como Asesinar a los Felipes, Fractal, Devil Presley, Matanza (no qual a crítica local aposta alto), Astro, The Gan Jas, Quique Neira, entre outros.

"Há uma série de requisitos prévios para se selecionar um destino. O número um é o espaço, que deve ser acessível e encantador e com capacidade para até 100 mil pessoas; portanto, próximo da cidade. Oferecemos o entretenimento e a cidade oferece cultura, hotéis, restaurantes e boates. Então, o mais importante são as pessoas. O povo de Santiago tem uma paixão por música contemporânea e um estilo de vida internacional. Perfeito."

Lollapalooza é uma palavra de origem etimológica desconhecida que, segundo o dicionário Oxford, emprega-se para se referir de maneira coloquial a "uma pessoa ou coisa que é particularmente impressionante ou atrativa". A enciclopédia Merriam-Webster alude a "um exemplo extraordinário". Embora de origem imprecisa, sabe-se que foi usada nos Estados Unidos desde 1896. O polemista, intelectual e jornalista norte-americano H. L. Mencken (1880-1956) escreveu que a expressão teria sido usada pela primeira vez nas lutas de boxe, na sua época, para descrever o nocaute - mas não existem provas disso. Bom, certo ou não, pelo menos durante dois dias o Chile sentirá o gancho de direita que o pop rock é capaz de desferir na juventude de um país.

 

1.A primeira edição do festival Lollapalooza, em 1991, incluía Siouxie and The Banshees, Living Colour, The Rollins Band, The Violent Femmes, Body Count, Ice Cube e The Butthole Surfers.

2. Em 1994, o grupo Nirvana seria a principal atração. Um dia antes de sua apresentação, em 7 de abril, a banda cancelou sem aviso prévio. No dia seguinte, Kurt Cobain foi encontrado morto (matara-se com um tiro na cabeça).

3.Lollapalooza foi interrompido em 1997, mas foi revivido por Perry Farrell em 2003 como uma mostra itinerante, correndo de cidade a cidade dos Estados Unidos. Em 2005, passou a ser fixo, em Chicago.

4.Farrell descobriu a palavra com a qual batizou o festival assistindo a um episódio de Os Três Patetas.

5.Em 1996, Farrell tentou criar um novo festival e abandonar o Lollapalooza. Seria o Enit, mas ele acabou voltando.

6.Em 2003, Farrell tentou fazer shows em 30 cidades entre julho e agosto, mas os preços altos afugentaram os fãs. Em 2004, voltou a ser uma mostra de dois dias, mas foi cancelada por causa da venda fraca de ingressos.

7.Farrell sempre teve o propósito de estimular o debate político e ambiental com sua criação. "Quero que haja confronto", dizia, em 1991.

8.Em 2008, o anúncio de que o candidato à presidência Barack Obama iria ao show de Kanye West em Chicago mobilizou a imprensa local durante dias.

9.Foi em Lollapalooza que se cunharam os termos "rock alternativo" e "nação alternativa"; quando entrou em declínio, em 1998, a revista Spin disse que sua enfermidade demonstrava a própria enfermidade do rock alternativo da época.

10.Em seu retorno, nos anos 2000, o festival passou a abraçar a chamada world music, trazendo artistas como os africanos Amadou & Mariam para seus palcos.

 

VÃO ESTAR LÁ

Edward Sharpe & The Magnetic Zeros

Lufada de visionarismo folk no pop contemporâneo.

Bomba Stereo

Hip-hop e cumbia em estilo que eles denominam electro-tropical

Devendra

O americano chama atenção por sua visão neohippie da música.

Empire of the Sun

Duo formado por dois pilares do rock alternativo australiano: Luke Steele e Nick Littlemore

Cold War Kids

Banda americana de Long Beach, Califórnia, que tem influências de gente menos óbvia, como Jeff Buckley e Tom Waits.

The Drums

Banda indie do Brooklyn que conecta o rock alternativo com as pistas de dança.

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