Loja da Teodoro, tradicional vitrine de músicos, vira bar

Todo sábado a vitrine da loja n.º 850 da rua Teodoro Sampaio, em São Paulo, vira palco das apresentações de músicos que mostram, em meio a olhares curiosos, a complexidade gerada pelos improvisos do jazz instrumental. O encontro já acontece há seis anos e é uma iniciativa de João Marcos Matic, de 33 anos, proprietário da loja Matic Instrumentos Musicais. "Isso aqui acontece todo sábado, no finzinho de tarde. E você só vê gente muito boa tocando", conta ele. A novidade agora é um bar dentro da própria loja, que está sendo inaugurado nesta sexta-feira.O bar abre com o início da Copa do Mundo na Alemanha, com o show da banda Zerró e Septeto, na vitrine, e no palco do bar, à noite, o Jazz Incorporation, com Mr. Paul (contra-baixo), Gigante Brasil (bateria), Palulo Paez (guitarra), Marco Mellito (sax-tenor) e Sérgio Moura (teclado)."Tenho todo o mês de junho agendado", diz Matic, orgulhoso. O bar vai funcionar de segunda a sábado, a partir das 19 horas. O preço para entrar é R$ 20, "porque os músicos merecem ganhar dinheiro, pelo menos R$ 100 cada", explica Matic. E vai tocar o que? "Vai ter de tudo: rock, salsa, funk, samba, jazz... Não vai ser só instrumental, como na vitrine. Mas o pessoal é o mesmo". As bandas trarão seus equipamentos, mas, se desejarem, poderão escolher qualquer um da loja. E olha que lá não faltam objetos de desejo para aficionados por instrumentos. Entre eles, pendurada na parede está uma preciosidade, uma guitarra custom anos 40 da marca Gibson, com selo comemorativo e tarraxas blindadas, além de outras particularidades.Matic conta como selecionou os músicos que vão tocar no bar. "Aqueles que conheço e sei que são bons indicam outros e assim por diante. É tudo no boca-a-boca, as pessoas ligam, perguntam se podem tocar e vêm. Foi assim que tudo começou na vitrine e é assim que vai ser com o bar". Para quem acha que tocar no bar é sinal de mais destaque, se engana. "Tocar na vitrine é mais honroso", diz Matic. "E quem não tiver passado por lá, não se apresenta no bar". Era uma vez uma vitrine... Quando Matic alugou a loja que hoje leva seu nome, em 1996, localizada em um dos maiores pólos musicais de São Paulo, a Teodoro Sampaio, ela era igual a todas as (muitas) outras lojas de instrumentos da rua: um ponto de encontro de músicos. De ponto de encontro Matic transformou a sua em um local onde se podia tirar um som, e um belo dia surgiu a vontade de levar tudo isso pra rua. Foi o que fez. "Mas aí a Subprefeitura de Pinheiros implicou e quebrei o vidro da vitrine pra colocar o pessoal lá. Assim ninguém mais enche e quem passa na rua curte do mesmo jeito". Os problemas com a então subprefeita do bairro, Beatriz Pardi, fizeram Matic fechar a loja algumas vezes entre 1996 e 2000. Nesse meio tempo, chegou a abrir um bar, o Morrison Rock Bar, ali perto, na rua Inácio Pereira da Rocha. "Não deu certo porque eles acabaram investindo em um som que não eu gostava, eletrônico. É repetitivo demais, acho que só estando louco mesmo para entender esse som. Gosto mesmo é disso que a galera faz nessa vitrine, é demais", diz. Matic, apaixonado por música, se inseriu nesse universo pintando baterias. Aos 23 anos comprou uma e fez algumas aulas, mas aprendeu mesmo ouvindo os músicos tocando em sua loja. Já passaram pela vitrine nomes como Lobão, Maurício Mader, Bocato, Gigante Brasil, Cuca Teixeira, Kiko Loureiro e Marcinho Eiras. Até hoje aconteceram mais de 280 apresentações, com um público que às vezes chega a 500 pessoas, segundo Matic. Geralmente, explica ele, tocam de quatro a cinco músicos, que recebem, juntos, R$ 100, "um valor simbólico, pra tomar cerveja". "O barato de tocar aqui é a energia", revela o baterista Ned Junior, apelidado de Nedinho, de 34 anos. Nedinho é filho do músico Nelson Ned, com quem já participou de turnês pela Europa. "É uma opção tentar carreira lá fora, mas tem que colocar na balança. O preço é o choque cultural", diz ele, que se apresenta esporadicamente na Matic e atualmente toca com o Trio Jazz de Luxe, com Daniel Grajew (piano) e Eduardo Malta (contra-baixo). No sábado, dia 27 de maio, Nedinho se apresentou na vitrine com seu outro grupo, o quarteto de Bira Marques (piano), que tem ainda Bruno Oliveira (sax) e Juan Paiacan (baixo). O interessante é que a multidão que se amontoa em frente à loja é bastante heterogênea. "O negócio do Matic é legal porque leva a nossa arte diretamente para a criança, que não entra em bar, e para pessoas que não têm condições de pagar para escutar a nossa música", diz Marcinho Eiras, o artista que desenvolveu, no País, a técnica rara do norte-americano Stanley Jordan de tocar duas guitarras ao mesmo tempo.Marcinho Eiras e suas duas guitarras Marcinho Eiras conta que tocar na vitrine é uma proposta irrecusável. "Você ganha pouco, mas pergunta se alguém não gostaria de tocar na vitrine do Matic? Todo mundo quer ir, é uma coisa de amor pela música. O mérito é dele. Ele fez uma coisa que todo sabia que daria certo, mas ninguém tinha coragem de fazer". O guitarrista foi um dos primeiros a se apresentar na loja, junto com o amigo e baterista Maurício Mader. Só não participou da primeira apresentação na rua porque estava com viagem marcada para a Europa. "Eu passei dois meses fora e, quando voltei, a loja do Matic estava bombando". Autodidata, o primeiro instrumento que Marcinho tocou foi um piano, aos 3 ou 4 anos. Do piano passou para a bateria, até conhecer a guitarra. Começou a treinar a técnica de Stanley Jordan meio de brincadeira, até que conseguiu fazer igual, o que, sem dúvida, diz ele, abriu muitas portas. O guitarrista já lançou dois CDs instrumentais - My Project (2000) e Gerações (2004) - e em breve lança o terceiro, em que Marcinho Eiras além de tocar, canta. Atualmente, integra a banda do programa da Rede Globo Domingão do Faustão, se apresenta nos bares Bourbon Street e Ao Vivo, ambos em Moema, com a banda Marcinho Eiras e You Guys, e dá aulas particulares de música, além de eventuais compromissos com a Tagima, marca de guitarras que é uma de suas patrocinadoras (ele tem cinco). E no bar do Matic, vai tocar? "Com certeza", responde ele prontamente.

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