Lobão volta às bancas com disco ao vivo

Lobão está de volta e isso significa discos em bancas de jornal. Depois do sucesso do primeiro álbum independente, A Vida É Doce (1999), com mais de 100 mil cópias vendidas no espaço disputado apenas por revistas e jornais, o músico lança Lobão 2001 - Uma Odisséia no Universo Paralelo.Gravado ao vivo em show na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em junho do ano passado, o disco chega com 50 mil cópias prensadas e faz parte de um pacote que inclui a exibição do show em um canal pago de TV e um DVD que será lançado em Portugal.Mesmo não tendo sido o primeiro a pôr discos em bancas - Lobão admite e cita Ary Toledo como um dos precursores - , foi ele quem provou que o caminho era viável comercialmente e não uma tentativa de escoamento dos fracassos. De lá para cá muita gente fez o mesmo.Lobão preferiu repetir a dose com cautela. Não veio com um álbum de inéditas, mas com um disco ao vivo para tentar furar um bloqueio não declarado imposto pelas rádios às suas novas canções. "Se eu vender 350 mil cópias desse disco, isso, politicamente, é muito forte". Espalhou alguns hits pelo álbum estrategicamente para chamar atenção para sua produção mais recente.Em entrevista concedida ao Jornal da Tarde na pizzaria Guanabara, antigo reduto de boêmios e músicos da MPB, no Rio, Lobão falou do novo disco, do mercado fonográfico, da amiga Cássia Eller e das músicas que fez para ela, além do projeto de lançar toda sua discografia por seu selo, o Universo Paralelo, à revelia da BMG, responsável por grande parte de seu acervo.Lobão, por que um disco ao vivo agora, depois do êxito de "A Vida É Doce"? Lobão - Primeiro para fechar uma trilogia (iniciada com o disco A Noite, de 1998), que foi importante e mudou uma série de concepções. Consegui ter mais liberdade e independência artística. Além disso, estou prometendo um disco ao vivo há três anos. Tenho criticado o formato ao vivo, mas não há contradição em fazer um agora.Por quê? Porque estou fazendo um formato ao vivo que não se vê no Brasil. Ele é bem gravado, realmente ao vivo. Faz parte de um áudio DVD, da internacionalização da minha carreira e mais importante: não teve nenhum tipo de preparação. Não inventei um repertório para o disco. Tudo foi capturado em um momento da turnê com as músicas que mais me representam no momento, entre antigas e novas.Você deu preferência a músicas do seu repertório mais recente que não tocaram nas rádios. Foi para resgatá-las? As pessoas me disseram: "que loucura, você regravar os discos mais recentes". Mas, sou um cara exilado da cultura mais recente. Sou um cara consagrado nos anos 80 e, ao contrário da minha geração, estou lutando pela minha produção dos anos 90. Esse disco é uma manobra interessante, "oportunista" no caso, de colocar algumas peças chave, como Me Chama, Vida Bandida, uns quatro sucessos, para puxar 15 ou 16 completamente desconhecidas. Também percebi algo com A Vida É Doce: havia uma certa nebulosidade da parte de um público muito grande sobre a qualidade do CD. Teve quem dissesse "ah, ninguém vai te piratear". E eu, "claro, o preço é barato". E retrucavam "não, além do preço, o material deve ser meio esquisito". E, olha, não é. É de carne e osso, igualzinho aos outros CDs. E o fato de o Supla hoje vender quase 600 mil cópias e dizer que seguiu meu exemplo é ótimo.O mercado mudou? Tudo isso que está acontecendo é uma peça de resistência à indústria e uma comprovação de que ela não pode ficar do jeito que está. Há um afluxo de bandas importantes fazendo o mesmo. O que também elimina a possibilidade de eu ser simplesmente do contra. Porque, afinal, estou empreendendo algo positivo. Não estou destruindo nada, estou acrescentando. Lançar um disco ao vivo também tem a ver com meu mercado. Se vendi 100 mil cópias com A Vida É Doce, posso vender 350 mil cópias desse.É o exemplo a seguir pelas bandas novas? Não sei... é relativo, por que as bandas novas precisam aparecer de alguma forma. Se não, como vão saber que elas estão nas bancas? Só no microcosmo, sei lá. Uma banda de Maceió, tem representatividade na cidade deles, colocam na banca, aí funciona. Mas se colocarem nas bancas do Rio e São Paulo? Então, essas bandas precisam de uma divulgação rápida. O underground deveria alimentar o mainstream, mas isso não acontece no Brasil há tempo. E as gravadoras mudam as bandas, envernizam o cara, tentam melhorá-lo, tentam dar uma fórmula.E quanto as rádios não tocarem as músicas? Minhas brigas com a rádio foram, por exemplo, o disco Noite (1998) quando saiu, disseram que estava techno. Percebi que, de repente, poderia ter soado meio esquisito para um determinado público naquele momento. Mas os diretores de rádio disseram que o disco não tinha qualidade técnica, que a música Noite não era boa e que eu não fazia mais sucessos como Me Chama. Comecei a me sentir tolhido: o que está acontecendo que eu não toco mais na rádio? Pergunta que perdura até agora. Não sei responder, se é jabá. Não posso chegar e dizer que sou um gênio e que devo tocar na rádio.E o boato de que você pretende lançar seus álbuns anteriores à revelia das gravadoras? Estou tentando fazer o seguinte: temos negociações com as editoras e as gravadoras (BMG , Virgin e Universal), mas elas não têm tempo e visibilidade para cuidar dos meus fonogramas. O meu problema é a BMG ter há mais de 10 anos parado de cuidar dos meus discos originais e se dedicado a prática que abomino: os compilados, discos com péssima qualidade gráfica. Em nenhum eles deram um telefonema sequer para que eu tivesse ingerência sobre minha obra. Aquelas coletâneas... Sim, e nos dois últimos compilados da BMG, que ainda cometeu falsidade ideológica. Se a gravadora está tratando de uma época minha, então, tem que lidar com a imagem da época. E nesse caso, botaram uma foto atual. Como? Onde conseguiram? Eu não liberei nada. O disco está vendendo muito e há mais de 10 anos eu não recebo um centavo sequer! Há oito ou nove discos na BMG que não são lançados há anos. Se eles não fizerem uma atualização, existem dispositivos legais para que eu possa, à revelia, remasterizá-los sem consultar a gravadora e relançá-los nas bancas como eu quiser, provavelmente em forma de songbook. É algo polêmico, sim, mas que coroaria os fracassos das gravadoras. Elas deveriam pensar que seus catálogos é que deveriam movê-las. É, inclusive, a memória do País.E a morte de Cássia Eller, ela era sua amiga? Sim. Com a morte da Cássia você percebe uma série de preconceitos. Por exemplo, se ela fosse premiado com um Grammy viraria a cantora Cássia Eller. Agora, como ela morreu por suspeita de overdose, já dizem a "roqueira Cássia Eller". Aí você sabe que esse nome é impregnado de preconceitos. As pessoas têm que parar de serem cínicas comigo e em dizer que não gosto de me chamar de roqueiro. Isso é reducionista e eu não admito. Especula-se agora que ela não andava contente com a guinada pop que sua carreira havia dado... Na minha humilde opinião, ela implodiu sim. Ela estava sufocada. Para um artista com um mínimo de caráter, ser amado por aquilo que não é, é uma violência. Porque a Cássia era uma força da natureza, não era uma diva perfumada. Aquela loucura no palco, aquela coisa de raspar o cabelo. Ela era tímida. Muito daquilo era uma resposta de que as coisas não estavam legais. Em 1998, compus pra ela Alguma Coisa Qualquer. Há muito ela me pedia e quando eu fiz disse que era a cara dela. Ela estava produzindo aquele disco, com o cabelo comprido na capa (Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo´, de 1999) e um amigo comum nosso, técnico de som, que trabalhava com ela, disse que ela estava cantando, ensaiando. E na época, quando a gente se encontrou, ela me disse que estavam tentando envernizá-la. Eu disse: "Cássia, você não!". É claro que eu sou suspeito pra falar por que a música não entrou no disco e depois a gente só se encontrou em um show conjunto aqui no Rio de Janeiro. Mas queria saber se há alguma gravação disso, já que ela ensaiou a música. Ainda sob o impacto da morte dela, compus umas quatro canções. Uma se chama Boa Noite, Cinderela.Lobão 2001 - Uma Odisséia no Universo Paralelo, R$ 11,90 nas bancas.

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