Lobão deixa cena independente e grava <i>Acústico MTV</i>

Vamos fazer uso aqui da licença poética como programa Irritando Fernanda Young, da GNT, e criar uma versãocom nosso entrevistado, numa espécie de Irritando Lobão. O homemque, nos últimos sete anos de cena independente, combateu o jabánas rádios e levantou algumas bandeiras, como da numeração dosCDs, está irritado com o que andam falando a seu respeito depoisque ele participou do Acústico MTV, lançado em CD e DVD pelaSony BMG, e vai virar turnê (em São Paulo, apresenta-se no dia25 de maio). Andam dizendo por aí que Lobão está "pagando pau" para aMTV, que virou a casaca, que jogou na gaveta seu discurso contraa indústria fonográfica para se render a ela de novo. O músicodefende-se, esperneia, argumenta. Não admite a pecha decontraditório. "Não sou o Paulo Ricardo pedindo desculpas, nãoestou fazendo isso. A gravadora sabe do que estou falando, elame deu liberdade para agir artisticamente, escolher o repertórioe as pessoas com quem trabalhei", diz. "Se eu fosse umbunda-mole, faria um disco acústico só com sucessos. Aí, pronto,eu seria um cara contraditório. Só que eu consigo pegar umprojeto desse e ainda colocar 11 músicas desconhecidíssimas, e amúsica de trabalho é virtualmente inédita, a Vou te Levar." Explica-se o termo "virtualmente inédita": é que Vou teLevar fez parte do CD A Vida É Doce, lançado nas bancas em1999. E como integrava o primeiro trabalho independente de Lobão é bem provável que a canção seja desconhecida por muitaspessoas até hoje. No Acústico, privilegia outras composiçõesde seus discos independentes, como Você e a Noite Escura e A Vida É Doce, que compartilham o projeto desplugado ao lado decoisas mais conhecidas, como Décadence Avec Élégance e EssaNoite, não. Tirou do baú empoeirado Bambina (originalmentegravada como Bambino, na década de 80).Fama Nesses anos todos vivendo à margem da mainstream, ocompositor percebeu que a cena dos independentes não comportavaum artista como ele, dono de uma obra com tantos sucessos.Deu-se conta de que vendeu muitas cópias de seus trabalhos indie, mas que houve pouco eco, pouco escoamento. A ponto de serabordado por gente na rua, que lhe perguntava se ele estavaparado. Questionavam-no sobre novas obras (no caso, a ausênciadelas) justamente num período que ele considera o mais produtivoem sua carreira de compositor. Foi uma fase em que ele acreditater crescido como músico e aprendido todos os meandros daprodução de um disco. "Quem está me divulgando, quem é o bonzinho que estádizendo que meu disco é genial? Se eu não fizer nada por mim,ninguém vai fazer", desabafa. "As pessoas também esquecem quesou um artista, minha intenção principal é mostrar meu trabalho". Ele não suporta imaginar que sua produção construída nesseperíodo tenha sido suplantada pela fama de falastrão. E olha queLobão já precisou lidar com toda a sorte de famas em trêsdécadas de estrada. Já foi chamado de maconheiro, encrenqueiro,maldito, até evangélico. Já foi elogiado por bispo numsupermercado - que enxergou em algumas de suas letras umapregação contra vícios pecaminosos - e viu despencar em um deseus shows várias caravanas de evangélicos. Lobão também abomina a idéia de se passar por vítima.Prefere deixar esse papel para os compositores de uma correnteda MPB, que o compositor sempre repudiou em público e os chama,não muito lisonjeiramente, de "beterrabas transgênicas". "Eu nãosou dessa laia. Sou predador, não sou a presa", enfatiza ele,fazendo a linha, com o perdão do trocadilho mais do que infame ebatido, lobo em pele de cordeiro. "Temos o culto à vítima, aoderrotado no Brasil. ?Ah, ele é amaldiçoado porque está se dandobem.? Essa é a mentalidade mórbida do brasileiro."Fim de ciclo Mas se hoje Lobão diz cobras e lagartos sobre o governoLula (que ele chegou a apoiar publicamente em outros tempos) epensa até em deixar o País, o mesmo Lobão parece pegar mais levecom jabás nas rádios e com a própria indústria fonográfica."Apoiei o PT. Depois de tudo isso que aconteceu, como vou pedirpara o PT, que mais paga jabá: ?Olha, você criminaliza o jabánas rádios?? Sinceramente, não estou com animação", afirma. "Asrádios têm um sistema de arrecadação publicitária deficitária.Então, se cortar simplesmente essa fonte de jabás, elas vãofalir." Com esse Acústico, o músico acredita que estejafechando um ciclo da carreira, para dar início a outro. Semsinais de arrependimentos. Coincidentemente, em outubro, ocompositor completa 50 anos. Por uma infelicidade do destino, nomesmo dia 11 associado ao dia da morte de Renato Russo. Comoserá esse ciclo? Lobão ainda não sabe ao certo, nem mesmomusicalmente falando. Se ele continuará no limbo da músicabrasileira, também é uma incógnita. Afinal, em shows de rock,ele leva lata porque dizem que faz MPB e em show de MPB, eleleva lata porque acham que é roqueiro. Recebe alfinetadas dosindependentes, porque o vêem como da mainstream e acontrapartida do pessoal da mainstream é a mesma: tacham-no demúsico independente. Para qualquer outro mortal, isso poderia desencadear umacrise de identidade. Lobão, claro, tira sarro disso tudo e se vêbem na situação. "Na MPB, não conheço um cara com essapolarização de fazer um rock mais heavy metal a um samba-cançãomais Paulinho da Viola. Faço tudo isso. Quando falo da MPB comódio, é com amor, porque quero mudar essa mentalidade." De bem com a nova geração que encabeça as gravadoras,Lobão finalmente está numa situação mais confortável do que nãomuito tempo atrás, quando tinha 90% da indústria torcendo onariz para ele. Recebeu vários convites de outras gravadoras,até fechar com a Sony-BMG. Por meio dessa parceira, ele vaiconseguir ainda relançar sua discografia numa caixa comemorativa que, segundo ele, não deixará de fora sua tão polêmica faseindependente. A repórter viajou a convite da Sony-BMGV

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