Lizz Wright reconcilia-se com o blues

Uma das mais peculiares formas de paixão pela música é a que congrega os amantes das grandes cantoras. Repare só. Frenéticos, febris, eles trocam nomes de divas como os hipocondríacos permutam receitas de remédios. No caso, para doenças d?alma. Imagino que, no momento, eles estejam se ocupando do segundo CD da cantora americana Lizz Wright, Dreaming Wide Awake (lançamento nacional Universal Music/Verve Forecast).Têm boas razões para isso. Acho que é o caso de, diletantes, nos ocuparmos dele também. Lizz, de 25 anos, suscita interesse já a partir da capa de seus discos. Divas têm de ter uma imagem forte, claro. A dela, cabelo raspado ou quase raspado, lembra a da supermodelo sudanesa Alek Wek, aquele charme anguloso de deusa núbia. Sua voz é compatível com o visual. Arranjos e repertórios, contudo, carecem de retoques. Mas ela está no rumo certo.Salt, seu álbum de estréia, lançado em 2003, não chegava a destacá-la na multidão de cantoras que transitam indistintamente por jazz, blues, country, rhythm?n?blues, pop. Suas credenciais eram a voz, grave, às vezes até solene, e a chancela do selo Verve. Os arranjos, comerciais demais e quase sempre com gente demais tocando, jogavam contra seu talento, que se revelava, por exemplo, em Afro Blue, de Mongo Santamaria e Oscar Brown Jr.Nos piores momentos, coitada, ela lembrava até a chatíssima Sade, a santa padroeira dos elevadores e das FMs sem imaginação. De maneira geral, Lizz rendia melhor quanto menos acompanhada estivesse, como na derradeira faixa, Silence, composição própria. Violões e guitarra com slide, algo Blind Willie Johnson/Ry Cooder. A superpopulação já se fazia visível nos créditos de produção: Tommy LiPumma, Brian Blade e Jon Cowherd.Para Dreaming Wide Awake, lançado no mês passado nos EUA pelo Verve Forecast, o cantinho de novos talentos da tradicional gravadora de jazz, Lizz fez uma faxina geral. Para começar, apenas um produtor, Craig Street. Depois, um núcleo de quatro músicos - Chris Bruce (guitarra), David Piltch (baixo), Earl Harvin (bateria) e Glenn Patscha (teclados e vocais) -, aos quais volta e meia se agrega um convidado, como o guitarrista Bill Frisell.Nos próprios vocais, Lizz empreendeu um processo análogo: ficou menos fascinada pelo seu instrumento de trabalho e foi direto ao ponto, dosando melhor técnica e emoção. Em todo o processo, Dreaming Wide Awake se aproximou mais da essência sulista de sua música. Ela nasceu em Hahira e formou-se em Atlanta, cidades da Geórgia, Estado onde seu pai é pianista de igreja. Ficou, ouso dizer em tempos de CPI, um disco mais honesto.Escute-se, por exemplo, suas sentidas versões para A Taste of Honey (de Bobby Scott e Ric Marlow), Old Man (de Neil Young), Wake up, Little Sparrow (de Ella Jenkins) e Get Together (dos Youngbloods). O blues passa forte por todas elas, como na obra de Nina Simone, em arranjos descarnados que sabiamente ressaltam a voz de Lizz. É a mesma tática usada nos discos de Madeleine Peyroux, sua quase conterrânea. De alguma forma, não na voz, uma me lembra as outras. Como o seu universo se espraia para além do jazz ortodoxo, é cabível ainda comparar Lizz a uma colega de outra área: Annie Lennox.Tanto a carequinha americana quanto a loura escocesa extraem soul de suas entranhas. No caso de Lizz, isso fica bem nítido na profunda Hit the Ground, parceria dela com Toshi Reagon e com Jesse Harris, chapa de Norah Jones, mais bem-sucedida cantora híbrida na praça. A dobradinha já não funciona bem, no entanto, na segunda aparição de Harris nos créditos do CD, Without You, de arranjo mais comercial, mais Norah, mais Sade. As semelhanças com a anglo-nigeriana assombram também em When I Close My Eyes. Xô.Lizz flerta fortemente com outra colega de ofício (e de gravadora), Diana Krall. Dreaming Wide Awake traz uma faixa bônus da lavra da cantora e pianista canadense e de seu marido, um certo Elvis Costello. É um equívoco: Narrow Daylight é muito recente, está no último CD de Diana, The Girl in the Other Room (2003); e em versão bastante superior à de Lizz. Esta, como quase todo mundo, é mais interessante quando consegue ser ela mesma, uma rediviva country-blueswoman. É tão jovem, porém, que ainda tem muito século 21 pela frente para entender onde está o seu brilho próprio.

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