Luis Dantas
Luis Dantas

Livro traz histórias de músicas censuradas pela ditadura militar

Com depoimentos exclusivos de artistas como Chico Buarque e Caetano, ‘Mordaça’ retrata o cerceamento em duas décadas

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

12 de fevereiro de 2022 | 05h00

Houve um tempo, que Chico Buarque apropriadamente chamou de “página infeliz da nossa história”, no qual os compositores brasileiros precisavam se esquivar da censura federal, nesse caso específico, exercida pela ditadura militar que governou o País entre os anos de 1964 e 1985.

Essa repressão, que resultou não só no cerceamento da atividade artística, mas também em prisões e mortes, é o tema do recém-lançado livro Mordaça (Editora Sonora), escrito pelos jornalistas José Pimentel e Zé McGill.

Os autores ouviram relatos das principais vítimas da reprimenda exercida pela Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), sobretudo após a edição do AI-5, em 1968, que endureceu o regime militar. 

ChicoCaetano VelosoGilberto GilMartinho da Vila, Paulinho da Viola, Marcos Valle, Geraldo Azevedo, Jards Macalé, João Bosco, Jorge Mautner, Ivan Lins, Paulo César Pinheiro, Eduardo Gudin, Joyce Moreno, entre outros, contaram a experiência que tiveram com o órgão de repressão. Os censores viam ameaça ao regime em quase tudo.

A cada um deles, é dedicado um capítulo do livro. Caetano, como já demonstrou diversas vezes, se mostra sempre traumatizado. Chico, a quem a censura, por descuido, deixou escapar o samba Apesar de Você (uma referência ao então presidente Emílio Garrastazu Médici, um dos mais linha-dura do período), descreve tudo com precisão. Lembra-se dos nomes dos coronéis ao qual teve, por inúmeras vezes, de dar explicações. Gil vê tudo de maneira mais filosófica e enxerga um amanhã.

“Muita gente acha que o tema música e censura é muito batido, mas fizemos em um formato inédito. Primeiro por juntar todos esses artistas em um livro e segundo porque demos voz a eles, para que eles falassem livremente. Muitos queriam falar sobre o assunto. Só estavam esperando alguém perguntar”, diz McGill, um dos autores.

Além de casos mais conhecidos, como Apesar de Você, Cálice, de Gil e Chico, O Mestre Sala do Mares, de Bosco e Aldir Blanc, o livro se debruça em histórias de músicas como Canção da Despedida, de Azevedo e Geraldo Vandré, e Sagarana, de Pinheiro, inspirada na obra de Guimarães Rosa, na qual os censores enxergaram um improvável “código secreto”.

Até uma letra errada, batida à máquina, com a troca do A pelo Z virava motivo de indagação - e Mordaça lembra que nem sempre os censores eram pessoas qualificadas para o cargo, sendo a função exercida, em alguns momentos, por mulheres de militares e ex-jogadores de futebol. “É estranho imaginar que um cara como Gil, uma das pessoas mais iluminadas com quem já estive, foi preso duas vezes pelo governo”, diz José Pimentel.

 Os olhos da censura federal não miravam apenas questões políticas. A moral e os bons costumes - condutas apoiadas não apenas na legislação, mas também no que os militares e as senhoras católicas ditavam - vitimaram, por exemplo, Ney Matogrosso.

O artista, que sempre quebrou paradigmas, foi proibido de se apresentar em Brasília porque a mulher de um general se constrangeu com o fato de Ney se apresentar com o torso nu. Seu figurino também incomodava. A coreografia que apresentava nos shows, então, era considerada uma afronta. Os militares sugeriam que ele diminuísse o rebolado.

Gil, como explica em seu depoimento ao livro, foi igualmente vítima da censura moral. Em 1976, foi preso por porte de maconha e internado em um hospital psiquiátrico, a mando da Justiça. “O comum entre a prisão de 1968 e a de 1976 é a tentativa de censura no sentido mais amplo. A primeira, política, a segunda, mais moralista. É aquilo que falo sobre o conservadorismo. São eles tentando, insistentemente, resistir ao deslocamento”, disse o compositor aos autores.

O sambista boa-praça Martinho da Vila, ex-militar, teve problema com a letra de Menina Moça, que falava em desquite, separação e “amigar”. Uma afronta à instituição casamento, segundo o governo. A moral da época dizia que as mulheres deveriam aguentar firme para preservar a família.

Com a chegada da abertura política, em 1979, a tinta das canetas dos censores começou a pesar ainda mais sobre o que era considerado indecente. Grupos como Blitz e Plebe Rude tiveram faixas censuradas por usarem palavras como “bundando” e “brilho”. E o rock Vaca Profana, de Caetano, gravado por Gal Costa em 1984, foi classificado como “semipornográfico”.

O cantor e compositor Leo Jaime teve problemas com suas composições, entre elas, a balada A Vida Não Presta. É nesse momento que o livro dá ênfase a uma das figuras mais folclóricas da censura federal: Solange Hernandes.

 Advogada e historiadora, ela chefiou a Divisão de Censura de Diversões Públicas entre os anos 1981 e 1984, em Brasília. Seu nome ficou famoso por aparecer - quem for dessa época vai se lembrar - no papel timbrado que aparecia antes de cada atração exibida pela TV.

Chamada de “Tesourinha” ou de “Dama de Ferro da Censura”, foi personagem de uma homenagem que Jaime lhe fez quando transformou So Lonely, da banda inglesa The Police, em Solange. “E quando eu tento escrever, seu nome vem me interromper”, diz a letra.

Os autores não entrevistaram nenhum dos censores. A maioria já está com muita idade ou, a exemplo de Dona Solange - que morreu em 2013, aos 75 anos - já não está mais viva. Esses personagens, aliás, pouco falaram ao longo da história. Esconderam-se após a redemocratização. Uma página em branco. “Na época, era uma função nobre, pagava-se bem. Depois, virou uma vergonha para eles”, analisa McGill. 


 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.