ED FERREIRA/ESTADÃO
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Livro sobre Claudio Santoro é introdução acessível à sua obra

Centenário do compositor amazonense é comemorado em 2019

João Marcos Coelho, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2019 | 07h00

Depois de um ano surpreendente para o legado do compositor amazonense Claudio Santoro - com seu centenário de nascimento e os 30 anos de sua morte -, 2019 termina com a publicação do livro Claudio Santoro 100 Anos, do jornalista, crítico musical e colaborador do Estado João Luiz Sampaio. A obra, que tem pesquisa iconográfica de Glória Guerra, será lançada nesta quinta, 5, na Loja Clássicos da Sala São Paulo.

O ano importante para a história de Santoro veio de um movimento coletivo, espontâneo e virtuoso e tem provocado definitiva redenção do compositor, colocando-o no patamar mais alto da criação musical brasileira no século 20. Concertos como o da Orquestra Sinfônica Jovem do Estado de São Paulo, a montagem de sua ópera Alma, no Festival Amazonas, em Manaus, e as gravações de suas peças camerísticas pelo selo Sesc confirmam que ele é um dos grandes compositores brasileiros, em sentido absoluto.

O livro de Sampaio é a introdução ideal para quem quer conhecer a vida e a obra do compositor. Santoro começou assumindo a vanguarda dodecafônico, graças à convivência com Hans-Joachim Koellreutter, que lhe deu aulas nos anos 1940. Em 1944, rompeu com o Movimento Música Viva filiando-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). “A opção política teria sérias consequências em sua vida”, escreve Sampaio. “Dois anos depois, viria a primeira delas. O compositor recebeu uma bolsa da Fundação Guggenheim, nos EUA, mas teve seu visto negado por causa de sua ligação com o partido.” 

No entanto, o amazonense jamais transigiu com sua cartilha política nem com sua proposta musical aberta ao novo e, por isso mesmo, heterogênea ao longo de seu itinerário, com direito a passagens pela experimentação eletrônica. O PCB o levou a viver longos períodos longe do Brasil. Primeiro em Paris, onde estudou com Nadia Boulanger. Ele mesmo conta que, na ocasião, a capital francesa era “onde estavam todos os comunistas, como Jorge Amado, Ana Estela (Schic, pianista que escrevia para o Estado na época), o partido já estava na ilegalidade”. Também viveu na União Soviética e na Alemanha. Criador do Departamento de Música da Universidade de Brasília, em 1964, morreu no palco do Teatro Nacional da capital federal, ensaiando com a Orquestra Sinfônica Nacional, na manhã de 27 de março de 1989. 

Santoro teve uma história de vida fascinante e difícil, que é contada em nove capítulos do livro, com um texto ágil e objetivo, recheado de fotos, algumas raras como as da infância e dos quadros pintados por Santoro. Além disso, há reproduções de artigos de jornais, imagens de família desde a primeira infância e até retratos dos períodos em que viveu na União Soviética, incluindo um, de 1957, do Congresso de Compositores Soviéticos em Moscou, em que aparece com Nikita Kruchev. 

A produção de Santoro soma quase 300 obras, que inclui 14 sinfonias, dezenas de peças orquestrais, concertos para instrumentos solistas, muitas peças camerísticas e canções - como as do ciclo Canções de Amor, sobre versos de Vinicius de Moraes, que Santoro compôs em Paris, em 1957. Isso basta, segundo Sampaio, “para colocá-lo no centro de qualquer tentativa de compreensão da música brasileira dos últimos cem anos”.

Claudio Santoro - 100 Anos é uma acessível e saborosa introdução ao mundo musical do compositor a partir de uma narrativa fluente de sua vida. “A diversidade que suas obras demonstram, flertando e contribuindo para as principais correntes estéticas e filosóficas do período, faz com que a atividade do compositor seja um retrato bem acabado da história recente da produção musical no País, mostrando seus caminhos, desafios, possibilidades, conflitos e soluções”, escreve Sampaio. 

SERVIÇO: CLAUDIO SANTORO: 100 ANOS DE MÚSICA. Lançamento na 5ª (5), 19h. na Sala São Paulo (Pça. Julio Prestes, s/nº). Para acesso à sala, é necessário confirmar presença pelo email: g.guerra1986@gmail.com

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