Livro revive fama e agonia de Janis Joplin

Subserviente e uma espécie de joguete nas mãos dos espertalhões dos anos 60. Inteligente e visceral no palco. Drogada e permissiva, familiar e casadoura. O retrato que emerge do livro Janis Joplin - Uma vida, Uma época (Scars of Sweet Paradise: The Life and Times of Janis Joplin) é duro e realista, mas nunca frio e sem emoção.A autora, a historiadora norte-americana Alice Echols, pisou fundo nas investigações sobre a cantora norte-americana que viveu pouco e marcou o universo pop. O livro chega ao mercado brasileiro como um inventário também de um período efervescente e confuso de mudanças comportamentais.Alice Echols é uma das mais importantes historiadoras do período. Conta a história da menina-prodígio de "voz de negão" como diz Rita Lee, que nasceu caipira em Port Arthur, Texas, e morreu de uma overdose de heroína em outubro de 1970. A autora falou à reportagem por e-mail, de São Francisco, onde vive.Agência Estado - Muitas mulheres estiveram na luta dos anos 60 contra o chamado "clube dos homens do rock" e contra o bom-mocismo feminino. Gente como Patti Smith e Nico. Por que a sra. acredita que Janis se tornou o mais poderoso símbolo daquela luta?Alice Echols - Bem, eu não disse que Janis Joplin viu a si mesma em luta contra o que eu chamo de "o clube dos homens do rock". Você vê que, no final do livro, eu deixo claro que Janis foi aterrorizada pelo movimento feminista quando ele começou a se fazer sentir mais fortemente nos anos 70. Ela achava as feministas radicais muito raivosas. Mas mesmo sendo proscrita pelas feministas, ela entendeu de modo imparcial que o mundo não tinha um jogo equilibrado para as mulheres, incluindo mulheres que ingressavam no campo dominado por homens que era o rock & roll. Ela às vezes falava da m... que ela sentia por ser uma mulher orgulhosa, especialmente quando ela deixou sua primeira banda, Big Brother and the Holding Company. Janis foi realmente a primeira mulher branca a adquirir status de superestrela no rock´n´roll. Nenhuma outra mulher, nem mesmo Grace Slick, foi tão grande quanto Janis, o que provavelmente se deve ao fato dela ter mudado as regras do jogo. Nico foi mais uma figura cult. E Patti Smith, em contraste com Janis, tentou ser post-gender. Janis afrontou todos os tipos de convenções sociais e apresentava a si mesma como "um dos caras", mas ela também parecia muito vulnerável e feminina de certo modo, o que não era o estilo de Patti Smith.A sra. não acha que, naqueles anos, Lou Reed não foi mais claro, honesto e corajoso em seu bissexualismo que Janis?Lou Reed pode ter tido maior auto-consciência que Janis. Na época em que ele pôs a público sua bissexualidade, o movimento gay estava longe de ser uma força na sociedade americana. Por outro lado, ele também não foi um straight nos anos 80? Ao final (e você poderá ver essa conclusão no meu livro), eu acho que Janis era confusa a respeito de sua sexualidade. Era uma sexualidade muito ampla, e como muitas pessoas que cresceram nos anos do pós-guerra, ela não escapou inteiramente da vergonha e do estigma de ter desejos que não eram de todo "normais". Eu acho que não é possível medir a "honestidade" e "coragem" ou clareza de alguns astros em relação a outros. Por fim, eu gostaria de acrescentar que roqueiros homens têm tido maior sucesso que mulheres em apresentar-se como gays. Madonna, é claro, é uma grande exceção, mas veja quantos anos entre a ambigüidade de Madonna e o homoerotismo de palco de Jagger e Richards.Em sua opinião, quais as diferenças entre os heróis trágicos daquela época, Jim Morrison, Jimi Hendrix e Janis? A sra. realmente acha que eles todos foram vítimas da era que simbolizavam?Não acho que eles foram vitimizados pela cultura dos anos 60. Sim, é verdade que eles simbolizam os excessos da contracultura, e que estão em grande parte ligados a tudo que continua sendo símbolo do excesso. Mas todos os três fizeram o que fizeram a partir de suas dores pessoais. E a fama potencializou a dor para os três. Eu suspeito que as diferenças entre eles era que Morrison e Hendrix mantiveram mais de si em si mesmos, como Janis uma vez notou. Em contraste, ela tendia a dar sempre mais de si mesma aos fãs. Hendrix e Morrison também levavam-se mais a sério como artistas que Janis. O resultado é que Janis tende geralmente a ser lembrada como uma espetacular hippie chique, não como uma cantora talentosa, que ela também foi.Lendo seu livro, tive a impressão que Peggy Caserta, que foi amante de Janis, é um pouco amarga no seu relato. Estou errado?Não, eu não diria que Peggy Caserta é amarga. Penso que ela está falando francamente sobre aquilo que as pessoas não imaginam que os grandes amantes vejam uns nos outros. Acho que Peggy mostra-se irritada com aqueles que pensam que ela impeliu Janis para a heroína, quando a verdade é que Janis introduziu Peggy na heroína. Mas acima de tudo, eu não gostaria de caracterizá-la como uma pessoa amarga.A sra. escreveu que "Janis não era uma versão sixties de Madonna, Courtney Love ou PJ Harvey". Não gosta dessas cantoras ou não considera que elas sejam, de alguma forma seguidoras das conquistas de Janis?Amo PJ Harvey e Madonna, mas acho que temos que ver cada artista no seu contexto. Claro, eu acho que elas foram beneficiadas pelo pioneirismo de Janis, embora eu não creia que alguma delas gostaria de citá-la como influência. Janis foi, especialmente após sua morte, uma figura assustadora para algumas mulheres. Sua dor provocou ambivalência em muitas mulheres. Como se ser mulher fosse necessariamente sofrer, como a vida e a música de Janis algumas vezes parece sugerir.O rock´n´roll trouxe as groupies (fãs de platéia e cama) para a cena e muitas delas se tornaram cantoras e roqueiras, como Courtney Love. A sra. acredita que esse jeito atual de fazer sucesso é ilegítimo?As groupies do rock´n´roll não se tornaram rock stars, ao menos nos anos 60 e 70. A história de Courtney Love é única, eu penso. Eu adorei o filme recém-lançado Almost Famous, que conta a história das groupies e que eu recomendo.Qual o significado da música na vida de Janis. Quero dizer, ela fazia música como algo terapêutico?Bem, para Janis a música foi um meio de chamar a atenção das pessoas, de sentir-se amada e de expressar sua solidão, raiva e frustração sobre as injustiças por que passou. Foi o jeito de ela manter conexão com as pessoas. Também teve provavelmente um sentido terapêutico, em certo sentido.Muita gente acha que o fim da era Paz & Amor veio com o assassinato de Sharon Tate pela gangue de Charles Manson. Como Janis via aquele caso?Os assassinos de Manson são uma das marcas do fim dos anos 60. Eu não lembro de ter lido algo sobre a reação de Janis. Uma de suas amigas me contou que ela se lembrava de estar caminhando com Janis quando elas foram abordadas por Charles Manson, que pôs seu braço sobre os delas e caminhou alguns metros com elas. Estou certa que ela ficou bestificada com os assassinatos, como quase todo mundo. Janis foi sempre mais uma beatnik incompleta do que uma hippie.Jimi Hendrix tentou pedir socorro pouco antes de morrer por overdose. Como Janis reagiu? Ela tentou sair do buraco?Quando Janis sentiu que a heroína tinha levado o melhor de si, ela tentou parar e houve pessoas que tentaram ajudá-la. Infelizmente, não havia lugares como a Betty Ford Clinic em 1970. Ao mesmo tempo que tentava parar, ela estava viciada e achava virtualmente impossível sair daquilo.

Agencia Estado,

06 de dezembro de 2000 | 16h59

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.