Livro revela influência de Villa-Lobos na MPB

A influência de Heitor Villa-Lobos na música popular brasileira e o que ele trouxe dela para sua obra apaixona os pesquisadores desde os tempos em que o compositor freqüentava o Morro da Mangueira e as rodas de choro dos subúrbios cariocas. Agora, o assunto é destrinchado no livro Villa-Lobos e a Música Popular Brasileira, Uma Visão sem Preconceitos (à venda no Museu Villa-Lobos, no Rio, por R$ 35), da pesquisadora e professora Hermelinda Paz, da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que se baseou em testemunhos, documentos e fotos da época para montar seu quebra-cabeça. Apaixonada pelo compositor, Hermelinda gaba-se de ter tudo que se publicou sobre ele e os discos lançados no Brasil com suas músicas. Sua pesquisa começou há 17 anos, quando ela venceu um concurso de monografias com esse tema e deparou-se com o preconceito dos músicos de ambos os gêneros quanto à paixão que Villa-Lobos tinha pelo samba, pelo choro (compôs vários) e o folclore. "Hoje a situação mudou. O número de gravações de peças de Villa por cantores e instrumentistas populares cresceu muito nessas quase duas décadas", lembra Hermelinda, que relaciona no livro mais de uma centena delas. Em sua obra, Hermelinda junta rigor acadêmico e ampla pesquisa com um texto acessível, em que ficamos sabendo que, na segunda década do século passado, muito jovem e empobrecido pela morte prematura do pai, Villa-Lobos vendeu livros raros que herdara para pagar uma viagem pelo Brasil. Ela conta também que, premido por dificuldades financeiras, ele se tornou músico de cinema (na época, as ante-salas eram animadas por grupos ou solistas) e de operetas. Ela ressalta que os corais orfeônicos, reunindo milhares de jovens e crianças em Estádios eram, para o maestro, um meio para formar as massas e não uma exibição artístico/recreativa. Mais que levar música para multidões, Villa-Lobos foi talvez o primeiro músico erudito a reconhecer o valor das manifestações populares, compondo inclusive para o violão, então um instrumento desprestigiado. "Ele era um chorão nato, filho de um intelectual que promovia saraus em casa, freqüentado pela nata desses músicos como Pixinguinha, Sinhô, João da Baiana e Donga", explica Hermelinda. "Quando entrevistei dona Neuma, da Mangueira, ela contou que jovenzinha, nos anos 40, se espantava com aquele homem importante, que passava tantas horas no Buraco Quente (área no pé do morro), conversando com Cartola e outros sambistas." Foi por influência dele que Cartola, dona Neuma e Zé Espinguela registraram suas vozes pela primeira vez, em 1940, quando o maestro Leopold Stokowski veio ao Brasil na Frota da Boa Vizinhança, registrar nossa música. O livro traz as duas cartas enviadas pelo maestro, pedindo a Villa-Lobos que lhe indicasse músicos para a gravação. "Ele achava que o samba mais puro estava em Mangueira e levou todo mundo para a gravação", conta Hermelinda, lembrando da grande amizade e admiração mútua entre Cartola e o compositor. Tal como Pixinguinha e outros músicos da época, Villa-Lobos tinha o empresário Carlos Guinle como mecenas e o fac-símile das cartas que o compositor enviou a ele, geralmente prestando contas do que fizeram com a mesada recebida, indicam sua preocupação em não desperdiçar tempo ou dinheiro, em cuidar bem de sua obra e também a gratidão pelas oportunidades que tal patrocínio, de uma informalidade inimaginável nos dias de hoje, lhe proporcionavam. Embora reconheça a intimidade de Villa-Lobos com sambistas e chorões, Hermelinda acredita que o compositor influenciou mais os músicos com formação acadêmica como Tom Jobim, Egberto Gismonti e Wagner Tiso. "Em Cartola, é difícil reconhecer algum tipo de afinidade. Acredito que fosse mais uma grande amizade que os unia", conta ela. O livro traz depoimentos de músicos tão variados quanto os já citados, mas também João Pernambuco, Vicente Celestino e os Caymmis (Nana e o pai dela, Dorival) sobre quanto de Villa-Lobos existe na obra deles. "Foi comovente, por exemplo, ouvir Herivelto Martins dizer que se orgulhava de receber elogios do compositor." Com a monografia pronta e premiada, ela negociou durante 17 anos sua publicação e só conseguiu no ano passado, quando recebeu R$ 80 mil da Eletrobrás, pela Lei Rouanet, para editar 2 mil exemplares.

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